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DEPOIS DO ALMOÇO
Ela pousa o copo na mesa, o som se espalhou por toda a sala, deu um longo suspiro de satisfação. Comera toda a refeição, era uma vitória. - Parabéns! Não deixou nem um grão. O moço na outra ponta da mesa sorria, mas ela não compreendia o motivo de tal alegria. - Você merece uma sobremesa. – Ele disse enquanto recolhia os pratos. - Não quero comer mais nada. – Ela disse com voz firme. - Mas tem aquela rapadura que a senhora ama. - Detesto rapadura. O moço levava os pratos

ANA BEATRIZ


O QUE APRENDI COM O AMOR
A primeira e, provavelmente, mais verdadeira paixão que já experimentei foi, senão, um sonho, uma esperança ocupando um lugar predestinado em minha mente e, mais perigoso ainda, no coração. Este, possui a carne mais feia, pois é verdadeiro, e a dor é a coisa mais real que existe. Paris: a representação dos sonhos. Quando pensamos que experimentamos o amor, tudo se dissolve como açúcar, tudo é irreal, mas tão verdadeiro, com as pinturas de Salvador Dali. Onde se esconde o meu

ANA BEATRIZ


AMOR SEGUNDO DARWIN
Era apenas uma garotinha, de cadarço desamarrado, mãos que tremiam sem razão e tossindo numa ânsia absurda. Uma garota num mar de insignificância que é a vida juvenil, como se as coisas estivessem esperando o momento exato de desabrocharem. Tudo era espera, afinal. O jeito como as palavras se enroscavam no momento da fala, gaguejando e trocando sílabas. Aprendera a falar, mas não a dizer. Olhava as pessoas com uma curiosidade ímpar. Colocava-as em seu caleidoscópio, busca

ANA BEATRIZ


TV
...Então eu fechei minha mochila, respirando fundo. A casa estava em completo silencio. Provavelmente passava da meia noite. Era até estranho aquela calma após a discussão que mamãe e papai tiveram: parecia meio um sonho. Lembro de estar usando um grosso casaco com capuz, porque era uma noite muito fria e eu achava que isso me tornaria irreconhecível. Com a mochila nas costas e andando na ponta dos pés, eu deixei meu quarto. Era tudo muito simples: chegar até a sala, dest

ANA BEATRIZ


HORIZONTE
Era uma quarta-feira: uma metade de laranja, o oposto do mundo, o avesso do estômago. Era quarta-feira, o centro de Belo Horizonte era monstruosamente harmônico, dentro da natureza das coisas. Em cada esquina uma vida pulsava, almas que no fundo vagavam meio sem rumo. Ela era apenas mais uma nesse compasso: baixa, cabelos pranchados, batom borrado e esmalte descascado. Segurava, além dos resultados dos exames, sacolas de coisas que mais tarde ela olharia sem saber o porquê co

ANA BEATRIZ


A OUTRA MULHER
Ela era bonita? Bem, de qual das duas estamos falando? A primeira estava quase com quarenta anos. Quarenta anos. Que número assustador, ele vem chegando aos poucos, como a barriga que cresce e anuncia o bebê. Ela percebia a sua chegado naquele maldito fio de cabelo branco e, aquelas dores, parecia que tudo doía, os ombros, as costas, as vezes até os olhos. Os seios que até pouco tempo eram firmes agora caiam amolecidos. A imagem no espelho parecia ser a de uma traidora. Mas

ANA BEATRIZ
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