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DOMINGO DE MAIO

  • Foto do escritor: ANA BEATRIZ
    ANA BEATRIZ
  • há 1 dia
  • 1 min de leitura

 “Eu sou uma constelação de eteceteras”



Maria Paula reclinou-se da cadeira, jogou a cabeça para traz e suspirou. Palavra é coisa muito falha. Sentia coisas muito abstratas, dissolvíveis. Uma palavra. Ela queria uma palavra que preenchesse o espaço entre o abstrato e o dizer.


Foi para a varanda e acendeu um cigarro.  O marido não iria gostar, mas era maio, e em maio tudo é sonho. E domingo é sol que não nasceu. Estava usando licença poética de novo? Estava, mas para quem escreve para fugir da falsa boemia não a nada a perder.


Na rua de pedras uma jovem andava com certa cautela, segurando cadernos e um estojo. Seu cabelo cobria parte do seu rosto, como se suas feições fossem um segredo para o mundo.


Maria Paula de repente sentiu um enorme tudo, mas que se movesse os lábios se tornaria pó. Queria aquela menina na densidade de brisa, numa cautela de bailarina, numa suavidade de maré mansa. Era como respiração de sono. Um desejo que parecia gotejar no íntimo não de uma mulher, mas de um ser.


Maria queria ter gerado ela.


Apoiou o corpo no parapeito, pousou a cabeça nos braços.


”A vida aperta onde mais doí”- Mamãe dizia.


O que aconteceu depois? Era bom aquele delírio ameno, como se o mundo estivesse se espreguiçando na concha do universo.


A menina então dobrou a esquina como num sopro, Maria, paralisada, olhava a rua sem olhar de verdade.


Ela era maio.







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3 comentários

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
há 14 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que feliz debutar no Bendita, Ana Beatriz! Seu texto é leve, é suave e ao mesmo tempo traz algo visceral nas entrelinhas dessa personagem que sente sem nomear, enquanto a outra apenas passa, sem saber que não passou invisível. Gostei muito! Abração!

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José França
há 20 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Lindo, leve e profundo. Estas são as minhas palavras para o seu texto, Ana Beatriz. Desperta na gente uma saudedezinha das manhãs de maio, principalmente, as da infância e que cheirinho gostoso de Clarice, uma tal de Lispector. Que belo cartão de visita! Quando eu li seu texto para que eu ouvia sons de pétalas caindo e as belezas simple de uma casa feita de tijolos cor de mel e gerânios na Janela. Parabéns! Seja bem-vinda! Amei. Um abraço.

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Convidado:
há 20 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que texto suave como Maria que não encontra palavras para significar o que sente.

Maria que busca refúgio na janela com pessoas dobrando a esquina.

Adorei!

Namastê!

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