DOMINGO DE MAIO
- ANA BEATRIZ

- 18 de fev.
- 1 min de leitura
“Eu sou uma constelação de eteceteras”

Maria Paula reclinou-se da cadeira, jogou a cabeça para traz e suspirou. Palavra é coisa muito falha. Sentia coisas muito abstratas, dissolvíveis. Uma palavra. Ela queria uma palavra que preenchesse o espaço entre o abstrato e o dizer.
Foi para a varanda e acendeu um cigarro. O marido não iria gostar, mas era maio, e em maio tudo é sonho. E domingo é sol que não nasceu. Estava usando licença poética de novo? Estava, mas para quem escreve para fugir da falsa boemia não a nada a perder.
Na rua de pedras uma jovem andava com certa cautela, segurando cadernos e um estojo. Seu cabelo cobria parte do seu rosto, como se suas feições fossem um segredo para o mundo.
Maria Paula de repente sentiu um enorme tudo, mas que se movesse os lábios se tornaria pó. Queria aquela menina na densidade de brisa, numa cautela de bailarina, numa suavidade de maré mansa. Era como respiração de sono. Um desejo que parecia gotejar no íntimo não de uma mulher, mas de um ser.
Maria queria ter gerado ela.
Apoiou o corpo no parapeito, pousou a cabeça nos braços.
”A vida aperta onde mais doí”- Mamãe dizia.
O que aconteceu depois? Era bom aquele delírio ameno, como se o mundo estivesse se espreguiçando na concha do universo.
A menina então dobrou a esquina como num sopro, Maria, paralisada, olhava a rua sem olhar de verdade.
Ela era maio.
Não se esqueça de deixar um comentário, e seguir nossas redes sociais:




Ana, amei seu texto. Mta criatividade. Continue, vc tem dom nato, corre nas suas veias. Parabéns. Bjs no seu coração.
Uma crônica poética e introspectiva, que explora a complexidade dos sentimentos e a busca por significado. A imagem de "maio" como um estado de espírito é muito bonita e a reflexão sobre a maternidade e a vida é tocante.
Estou aqui pensando em uma palavra para comentar seu texto e a que me vem a cabeça é: impressionante. Parabéns! Bem vinda ao Blog. Beijocas, Carla Kirilos
Seu texto é profundo e belíssimo, sua imaginação é gigante,continue escrevendo, porque o mundo precisa das histórias que só você sabe contar.