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RECORDAR É VIVER?
A agulha desce sobre o vinil e há aquele instante de chiado antes da música começar — meio segundo em que o silêncio ainda não decidiu se vai virar som. Depois vem o acorde. "Recordar é viver, eu ontem sonhei com você…" A canção é de 1955. Eu ainda nem existia quando ela nasceu. E, no entanto, basta ouvir os primeiros acordes para que alguma coisa dentro da gente reconheça a melodia — e, por três minutos, a sala parece ter dois endereços ao mesmo tempo: o de hoje e o de outro

CARLA KIRILOS


PEDALE, QUE EU SEGURO
Ele tinha quatro anos e as pernas mal alcançavam os pedais. Eu segurava o banco da bicicleta com as duas mãos, e ele, desconfiado do próprio equilíbrio, olhava para trás a cada duas pedaladas, como quem conferia se eu ainda estava ali. — Pedale e olhe para frente — eu dizia. — Eu estou aqui. Eu seguro. Ele pedalava mais um pouco. Olhava para trás. Eu continuava ali. Talvez ele não soubesse, naquela época, que eu não segurava apenas o banco da bicicleta. Segurava também o medo

CARLA KIRILOS


A CORDA NO CHÃO
A corda ficou no chão. Em meio às imagens, aos vídeos, às reportagens e às inúmeras perguntas que surgiram depois da tragédia em Limeira, há um mês, foi essa a cena que permaneceu comigo. A corda ficou no chão. Talvez porque algumas imagens consigam resumir uma história inteira. Uma jovem foi lançada de uma ponte acreditando que a segurança havia sido verificada. Havia pessoas ao redor. Havia procedimentos. Havia orientações. Havia profissionais. Mas a corda que deveria suste

CARLA KIRILOS


O ENCANTAMENTO QUE SE FOI
Junho chegou com suas bandeiras coloridas, seus fogos, sua promessa de calor mesmo no inverno. E, este ano, chegou também com a Copa do Mundo. Como se o país precisasse de mais uma razão para dançar — ou talvez apenas fingir que ainda dança. Durante décadas, a Copa foi quase um estado emocional do brasileiro. As ruas eram pintadas, escolas mudavam horários, repartições paravam, famílias se reuniam diante da televisão, desconhecidos se abraçavam nas esquinas após um gol e até

CARLA KIRILOS


O LIVRO QUE UMA AVÓ ME ENSINOU A LER
“A Menina da Cabeça Quadrada”. Foi o título de um livro infantil que me parou no meio da feira. Eu estava ali por causa da minha neta — acompanhando a apresentação dos trabalhos na feira literária da escola dela. O ambiente era cheio de vida, de cores, de crianças orgulhosas do que tinham criado. E no meio de tudo aquilo, antes mesmo de abrir o livro, aquele nome me provocou. Depois vieram as apresentações. O brilho nos olhos das crianças ao explicarem o que tinham aprendido.

CARLA KIRILOS


O SILÊNCIO QUE ILUMINA: ENTRE A ESPERA E A ESPERANÇA
Vivemos em um mundo que parece ter pavor do vácuo. Se há um minuto de silêncio, nós o preenchemos com o brilho azulado das telas; se há um espaço vazio na agenda, nós o ocupamos com uma produtividade que beira a exaustão. Na contemporaneidade, o ruído não é apenas sonoro, ele se tornou uma condição existencial, uma tentativa desesperada de provar que estamos vivas através da agitação. No entanto, hoje é dia 04 de abril, o Sábado de Aleluia, e o calendário da fé nos impõe uma

CARLA KIRILOS
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