O ENCANTAMENTO QUE SE FOI
- CARLA KIRILOS

- há 2 dias
- 3 min de leitura
Junho chegou com suas bandeiras coloridas, seus fogos, sua promessa de calor mesmo no inverno. E, este ano, chegou também com a Copa do Mundo. Como se o país precisasse de mais uma razão para dançar — ou talvez apenas fingir que ainda dança.

Durante décadas, a Copa foi quase um estado emocional do brasileiro. As ruas eram pintadas, escolas mudavam horários, repartições paravam, famílias se reuniam diante da televisão, desconhecidos se abraçavam nas esquinas após um gol e até quem não entendia de futebol acabava envolvido pela atmosfera coletiva. O futebol não era apenas esporte — era identidade nacional, linguagem coletiva, sentimento compartilhado.
Mas alguma coisa mudou.
No sábado, dia 23 de maio, durante a transmissão do jogo São Paulo x Botafogo, uma enquete popular exibida pela Rede Globo perguntava qual era o sentimento do torcedor brasileiro em relação à Copa. O resultado chamou atenção: mais de 65% dos espectadores responderam: “Vai ter Copa? Não estou nem aí.” Há alguns anos, uma resposta assim seria quase impensável em um país que já transformou o Mundial em feriado emocional. Confesso que eu mesma já não vivo esta Copa como antes.
Ainda existe paixão. Ainda existe torcida. Ainda existe aquele impulso automático de vestir a camisa amarela e acreditar que “agora vai”. Mas junto com o entusiasmo surgiu um sentimento novo: cansaço. E talvez essa seja a palavra mais honesta para descrever o Brasil de hoje.
Cansaço da crise econômica, da instabilidade, da sensação permanente de injustiça e da percepção de que até nossas emoções passaram a ser consumidas e comercializadas. A sensação é de que até a paixão popular virou produto.
O futebol continua sendo um espetáculo gigantesco — mas cada vez mais parece um mercado cuidadosamente administrado. A emoção virou audiência. A paixão tornou-se estratégia financeira. Isso ficou evidente em episódios recentes, como a insistente pressão pela convocação de Neymar. E não se tratava apenas de futebol. Havia patrocinadores, engajamento, contratos, audiência e bilhões circulando em torno de um único nome.
Mas talvez exista algo ainda mais perturbador nisso tudo: a ideia de que um esporte essencialmente coletivo precise ser salvo por uma figura individual. Como se um time inteiro pudesse depender de um único personagem. Como se o esforço silencioso de tantos jogadores desaparecesse diante da força comercial de uma marca pessoal.
É o triunfo do espetáculo sobre o esporte. Do ídolo sobre o time. Do nome sobre o coletivo.
E o problema não é o Neymar em si. O problema é perceber como o futebol — que deveria representar mérito, preparo e construção coletiva — muitas vezes se curva aos interesses que movimentam dinheiro, audiência e poder.
O distanciamento também não é apenas financeiro. É emocional e existencial. Muitos desses jogadores vieram das mesmas periferias de onde saem milhões de torcedores. Vieram da escassez, da luta e do sonho como única saída possível. Mas a fama e o dinheiro constroem uma realidade tão distante que a origem, às vezes, parece sobreviver apenas como narrativa publicitária.
O torcedor continua comprando a camisa, pagando o ingresso, assinando plataformas e consumindo esperança. Mas, no fundo, talvez comece a perceber que financia um mundo ao qual jamais pertencerá.
Enquanto isso, a vida real continua. A inflação sobe, os salários apertam, a insegurança cresce e o futuro parece cada vez mais nebuloso para muita gente. Talvez por isso a Copa já não consiga produzir o mesmo encantamento de antes.
E, ainda assim, nós torcemos.
Ainda gritamos gol. Ainda sofremos. Ainda acreditamos — mesmo desconfiando de tudo. Talvez porque o futebol continue sendo uma das últimas linguagens emocionais capazes de unir um país tão fragmentado.
Mas o brasileiro perdeu parte da inocência.
E talvez essa seja a maior mudança de todas.
Porque a paixão popular é bonita quando nasce espontaneamente. Mas torna-se perigosa quando usada para anestesiar um povo cansado, ferido e emocionalmente exausto.
Há uma sabedoria antiga narrada em Provérbios 14:13 que descreve esse cenário com impressionante atualidade: “Até no riso o coração pode sofrer, e a alegria pode terminar em tristeza.” O texto bíblico não condena a alegria, o esporte ou a celebração. Apenas nos lembra que nem toda euforia revela felicidade verdadeira. Às vezes, um povo canta enquanto continua sofrendo por dentro.
A Copa passa. Os comerciais acabam. Os patrocinadores seguem lucrando.
Mas o brasileiro volta para sua rotina carregando perguntas muito mais profundas do que o resultado de um jogo.
Talvez esteja chegando o tempo de o país recuperar não apenas o prazer de torcer, mas também a consciência crítica sobre aquilo que consome, idolatra e aceita.
Porque o futebol pode até representar a alma do Brasil.
Mas o que acontece quando a alma de um povo é transformada em produto — e ele aplaude sem perceber?



Amiga, concordo com muito do que você escreveu, mas ainda sinto aquela centelha quando o Brasil entra em campo. Talvez seja teimosia, talvez seja esperança mesmo. Não sei…mas amo futebol e talvez seja só por isso.
No entanto, seu texto me fez pensar se essa minha animação é genuína ou condicionada. Isto, para mim é muito desafiador no bom sentido. Texto top! Beijos para você, Janete
Carlinha, não só li seu texto . Mandei para minha família inteira. Meu marido, que ama futebol, leu duas vezes e ficou em silêncio. Às vezes o silêncio é a melhor resposta. Parabéns! Realmente o encantamento se foi. Ana Lúcia
Oi amiga, que texto bom! A passagem sobre os jogadores que saem da periferia e depois vivem uma realidade distante da maioria dos torcedores é muito verdadeira. Existe uma sensação crescente de desconexão entre quem está em campo e quem está na arquibancada. O encantamento realmente se foi. Joana
Será que o brasileiro perdeu o encantamento com o futebol ou perdeu o encantamento com quase tudo?
Pergunto porque seu texto me fez refletir que há sinais disso em muitos lugares. Na política, nas instituições, na mídia, nas lideranças, nas promessas de prosperidade, nas redes sociais. Parece existir uma fadiga coletiva. Como se estivéssemos emocionalmente exaustos de acreditar. Excelente texto! Abraços, Célia Maria
Seu texto não me fez apenas questionar a Copa, Carla . Fez-me questionar aquilo que estamos usando para preencher nossos vazios coletivos. Que pancada! Gracinha