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A CORDA NO CHÃO

Foto do escritor: CARLA KIRILOS
CARLA KIRILOS
7 de jul.
3 min de leitura

A corda ficou no chão.


Em meio às imagens, aos vídeos, às reportagens e às inúmeras perguntas que surgiram depois da tragédia em Limeira, há um mês, foi essa a cena que permaneceu comigo.


A corda ficou no chão.


Talvez porque algumas imagens consigam resumir uma história inteira.


Uma jovem foi lançada de uma ponte acreditando que a segurança havia sido verificada. Havia pessoas ao redor. Havia procedimentos. Havia orientações. Havia profissionais.


Mas a corda que deveria sustentá-la permaneceu no chão.


Os fatos ainda serão apurados. A Justiça seguirá seu caminho. As responsabilidades serão estabelecidas. Mas, desde que a notícia veio à tona, uma pergunta não me abandona:


Como algo assim acontece?


Talvez porque gostemos de acreditar que as grandes tragédias nascem apenas da maldade, da imprudência extrema ou de decisões conscientemente erradas.


Mas a vida costuma ser mais inquietante do que isso.


Às vezes, as tragédias começam em lugares aparentemente comuns.


Em alguns segundos de desatenção. Em uma conversa paralela. Em um procedimento que alguém acreditou que outro já havia conferido.


O que mais me assusta nessa história não é imaginar a queda.


É imaginar os segundos que a antecederam.


O instante em que alguém acreditou que tudo estava pronto. Como a moça não percebeu?

O momento em que uma conversa pareceu mais importante do que um procedimento.


O breve espaço de tempo em que a atenção abandonou o lugar que jamais deveria ter deixado.

Era dia de Brasil na Copa. O país estava em outro lugar.


Eu não conseguia sair daquela ponte.


Há algo de perturbador no nosso tempo que ainda não sabemos nomear direito.


Não é falta de informação. Não é falta de recursos. Não é falta de intenção.


É uma espécie de ausência que aprendemos a disfarçar de presença.


Respondemos mensagens enquanto ouvimos alguém falar. Participamos de reuniões pensando na próxima tarefa. Chegamos em casa sem realmente chegar.


Fazemos muitas coisas ao mesmo tempo e, pouco a pouco, passamos a acreditar que atenção é apenas um detalhe.


Mas não é.


A atenção é uma forma de cuidado.


E o cuidado nunca é um detalhe quando existe alguém do outro lado.


Talvez por isso a imagem da corda seja tão poderosa.


Não apenas pela tragédia que representa, mas pelo símbolo que carrega.


Todos os dias entregamos uma ponta da nossa vida a alguém.


Ao médico que nos atende.


Ao professor que ensina nossos filhos.


Ao motorista que conduz o ônibus.


Ao amigo que guarda uma confidência.


Ao líder que toma decisões que impactam outras pessoas.


Confiar é isso.


É acreditar que alguém fará o que precisa ser feito.


Há um versículo bíblico que volta a mim sempre que penso nisso.


Paulo a escreveu de dentro de uma prisão — o que talvez explique por que ela não soa como conselho, mas como quem já entendeu o que realmente importa:


“Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.”

(Filipenses 2:4)

Passamos muito tempo pensando nas pessoas em quem confiamos.


Quase nunca pensamos nas pessoas que confiam em nós.


Porque todos nós seguramos cordas invisíveis.


Pais seguram futuros que ainda não sabem que existem.


Educadores seguram o que uma criança ainda não consegue nomear sobre si mesma.


Líderes seguram destinos que nunca pediram para segurar.


Todos os dias, alguém coloca uma parte da própria vida em nossas mãos.


E o maior risco talvez não seja a maldade.


Talvez seja o esquecimento.


Esquecer que existe alguém dependendo da nossa atenção.


Esquecer que nossas escolhas alcançam outras pessoas.


Esquecer que a confiança recebida também é uma responsabilidade.


Cuidar dos interesses dos outros é reconhecer que nunca vivemos apenas para nós mesmos.


Nossas distrações também.


A corda ficou no chão.


E com ela, a ilusão de que atenção é detalhe.


Desde então, duas perguntas permanecem comigo.


Quantas pessoas confiaram em mim hoje sem que eu percebesse?


E, sobretudo, que cordas estou segurando neste momento?








15 comentários

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Michelle MKO
24 de ago.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Quantas cordas deixamos no chão quando alguém confiava em nós, né? E quantas cordas buscamos em pessoas que não as seguraram por nós? Adorei seu texto.

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José França
11 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Carla, gostei muito do seu texto. "Todos os dias entregamos uma ponta da nossa vida a alguém." Quando paramos para pensar nesta frase, vemos que muitas coisas na vida não depende de nós. Estamos repartidos, como você bem disse, e entregue as pessoas e, sem poder fugir da realidade, precisamos confiar. Todas às vezes que ando de avião eu penso nisso. Mas também nas ideologias doutrinárias. Confiamos na pregação do pastor, confiamos na celebraçãom e na confissão dos padres, nos coachs, personal treiners, nos estislistas, nos videntes e, infelimente, nos políticos, no treinador da seleção, nos jogadores convocados ... e , muitas vezes somos traídos, ficamos decepcionados.... Somos um povo levado a acreditar. e nestas crenças cegas várias pessoas perdem…


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Convidado:
11 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Perfeito, Carla!

Vivemos na era da atenção fragmentada e depois nos espantamos quando tragédias assim acontecem. Não é só falta de competência, é falta de presença mesmo.

Adorei a referência bíblica no final, trouxe um peso ainda maior.

Esse texto precisava ser escrito. Compartilhando aqui. Bjs, Rosa Maria

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Convidado:
10 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que escrita sensível e potente. Você tem um dom de transformar dor em lição sem cair no clichê. A forma como costurou a cena da ponte com nossa vida comum foi brilhante. Terminei a leitura mais consciente e, confesso, um pouco mais ansioso também. Excelente texto! Abraços, Zé Carlos

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Convidado:
09 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Texto muito bem escrito e profundo. Concordo com quase tudo, especialmente sobre o perigo da desatenção. Mas fico pensando: até que ponto a responsabilidade individual consegue combater um sistema que incentiva o multitasking o tempo todo (redes sociais, trabalho, etc.)? Acho que o problema é cultural também. Adoraria ver um texto seu explorando esse lado. Parabéns, Carla!

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