A CORDA NO CHÃO
- CARLA KIRILOS

- há 2 dias
- 3 min de leitura

A corda ficou no chão.
Em meio às imagens, aos vídeos, às reportagens e às inúmeras perguntas que surgiram depois da tragédia em Limeira, há um mês, foi essa a cena que permaneceu comigo.
A corda ficou no chão.
Talvez porque algumas imagens consigam resumir uma história inteira.
Uma jovem foi lançada de uma ponte acreditando que a segurança havia sido verificada. Havia pessoas ao redor. Havia procedimentos. Havia orientações. Havia profissionais.
Mas a corda que deveria sustentá-la permaneceu no chão.
Os fatos ainda serão apurados. A Justiça seguirá seu caminho. As responsabilidades serão estabelecidas. Mas, desde que a notícia veio à tona, uma pergunta não me abandona:
Como algo assim acontece?
Talvez porque gostemos de acreditar que as grandes tragédias nascem apenas da maldade, da imprudência extrema ou de decisões conscientemente erradas.
Mas a vida costuma ser mais inquietante do que isso.
Às vezes, as tragédias começam em lugares aparentemente comuns.
Em alguns segundos de desatenção. Em uma conversa paralela. Em um procedimento que alguém acreditou que outro já havia conferido.
O que mais me assusta nessa história não é imaginar a queda.
É imaginar os segundos que a antecederam.
O instante em que alguém acreditou que tudo estava pronto. Como a moça não percebeu?
O momento em que uma conversa pareceu mais importante do que um procedimento.
O breve espaço de tempo em que a atenção abandonou o lugar que jamais deveria ter deixado.
Era dia de Brasil na Copa. O país estava em outro lugar.
Eu não conseguia sair daquela ponte.
Há algo de perturbador no nosso tempo que ainda não sabemos nomear direito.
Não é falta de informação. Não é falta de recursos. Não é falta de intenção.
É uma espécie de ausência que aprendemos a disfarçar de presença.
Respondemos mensagens enquanto ouvimos alguém falar. Participamos de reuniões pensando na próxima tarefa. Chegamos em casa sem realmente chegar.
Fazemos muitas coisas ao mesmo tempo e, pouco a pouco, passamos a acreditar que atenção é apenas um detalhe.
Mas não é.
A atenção é uma forma de cuidado.
E o cuidado nunca é um detalhe quando existe alguém do outro lado.
Talvez por isso a imagem da corda seja tão poderosa.
Não apenas pela tragédia que representa, mas pelo símbolo que carrega.
Todos os dias entregamos uma ponta da nossa vida a alguém.
Ao médico que nos atende.
Ao professor que ensina nossos filhos.
Ao motorista que conduz o ônibus.
Ao amigo que guarda uma confidência.
Ao líder que toma decisões que impactam outras pessoas.
Confiar é isso.
É acreditar que alguém fará o que precisa ser feito.
Há um versículo bíblico que volta a mim sempre que penso nisso.
Paulo a escreveu de dentro de uma prisão — o que talvez explique por que ela não soa como conselho, mas como quem já entendeu o que realmente importa:
“Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros.”
(Filipenses 2:4)
Passamos muito tempo pensando nas pessoas em quem confiamos.
Quase nunca pensamos nas pessoas que confiam em nós.
Porque todos nós seguramos cordas invisíveis.
Pais seguram futuros que ainda não sabem que existem.
Educadores seguram o que uma criança ainda não consegue nomear sobre si mesma.
Líderes seguram destinos que nunca pediram para segurar.
Todos os dias, alguém coloca uma parte da própria vida em nossas mãos.
E o maior risco talvez não seja a maldade.
Talvez seja o esquecimento.
Esquecer que existe alguém dependendo da nossa atenção.
Esquecer que nossas escolhas alcançam outras pessoas.
Esquecer que a confiança recebida também é uma responsabilidade.
Cuidar dos interesses dos outros é reconhecer que nunca vivemos apenas para nós mesmos.
Nossas distrações também.
A corda ficou no chão.
E com ela, a ilusão de que atenção é detalhe.
Desde então, duas perguntas permanecem comigo.
Quantas pessoas confiaram em mim hoje sem que eu percebesse?
E, sobretudo, que cordas estou segurando neste momento?



Achei o texto de uma sabedoria impar!!! Parabéns pelas suas colocações,profundas e de muito conteúdo!Muito acertiva👏🏻👏🏻👏🏻
Nenhuma tragédia é feita de uma camada só. Há muitas camadas! Feliz por ver que o seu texto chamou atenção para estas camadas pouco observadas e tão pertinentes. Também seguramos cordas, nâo à beira de um precipício físico, mas talvez um abismo existencial. Sejamos vigilantes...
Chorei lendo. Perdi um amigo anos atrás por um “acidente” que também foi falha de atenção de quem deveria cuidar. Essa sua reflexão sobre confiança e responsabilidade me pegou de jeito. “Quantas pessoas confiaram em mim hoje sem que eu percebesse?” — vou carregar essa pergunta. Parabéns pelo texto, amiga está incrível! Bjs Rita
Parabéns,Carla!
Você nos fez refletir sobre a tragédia e a nossa sensibilidade em tratar situações com Atenção e Cuidado!
Um segundo de distração é o suficiente para mudar várias Vidas!
A dedicação e o comprometimento é fundamental para corresponder a confiança do outro!
Estar inteiramente envolvido com o outro,nos ajuda a realizar com sucesso os nossos compromissos.
Um abraço.
Que texto lindo, Carla! E ao mesmo tempo cortante. A imagem da “corda no chão” vai ficar comigo por muito tempo. Você conseguiu transformar uma tragédia terrível em um espelho para nossa própria distração cotidiana. Obrigado por escrever isso. Vou pensar duas vezes antes de dividir atenção na próxima vez que alguém confiar em mim. Luiza