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O SILÊNCIO QUE ILUMINA: ENTRE A ESPERA E A ESPERANÇA

  • Foto do escritor: CARLA KIRILOS
    CARLA KIRILOS
  • há 5 dias
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 3 dias

Vivemos em um mundo que parece ter pavor do vácuo. Se há um minuto de silêncio, nós o preenchemos com o brilho azulado das telas; se há um espaço vazio na agenda, nós o ocupamos com uma produtividade que beira a exaustão. Na contemporaneidade, o ruído não é apenas sonoro, ele se tornou uma condição existencial, uma tentativa desesperada de provar que estamos vivas através da agitação. No entanto, hoje é dia 04 de abril, o Sábado de Aleluia, e o calendário da fé nos impõe uma parada contraintuitiva. Estamos no território do “entre”: entre a dor dilacerante da cruz e a explosão de vida que o amanhã promete. 



Existe um mistério sagrado no sepulcro lacrado, um silêncio que muitas vezes interpretamos como ausência de Deus, mas que, sob a nossa cosmovisão, é na verdade o útero da maior vitória da história.


É nesse intervalo de espera que a voz do profeta Isaías atravessa os séculos e alcança o nosso cansaço digital com uma ternura desconcertante. Ao nos dizer que “no arrependimento e no descanso está a vossa salvação; na quietude e na confiança está o vosso vigor” (Isaías 30:15), ele nos entrega a chave para sermos luz em tempos de ansiedade. 


O vigor que o mundo tanto busca em estimulantes, métricas de sucesso ou validação externa, a Escritura nos oferece através da quietude. Essa quietude não é passividade ou omissão; é uma postura de resistência espiritual. É o sossego de quem compreende que, enquanto os discípulos estavam trancados pelo medo naquele primeiro sábado, o Senhor da Vida estava desatando os nós da morte no mais absoluto sigilo. Às vezes, a luz mais forte está sendo gestada justamente nas áreas da nossa vida onde parece que nada está acontecendo.


Falar de Páscoa hoje, portanto, é oferecer um antídoto para a pressa que adoece a alma. Ser luz nesta coluna não significa ter todas as respostas imediatas para as crises globais ou dilemas pessoais, mas sim ser aquela presença que transmite uma serenidade que o mundo não consegue fabricar. Quando abraçamos o descanso que vem do arrependimento da nossa autossuficiência, nossa luz deixa de ser um esforço humano fadigado para se tornar um reflexo da glória de Cristo. Iluminamos não porque gritamos mais alto, mas porque nossa confiança está ancorada em algo que o túmulo não pôde reter. O silêncio deste dia nos ensina a arte de esperar sem desespero, lembrando-nos que o vigor real não nasce do movimento frenético, mas da raiz profunda de quem sabe em quem tem crido.


Que este 04 de abril encontre você no seu “sábado” pessoal — naquele projeto que ainda não floresceu, naquele relacionamento que ainda pede cura, naquele cuidado que você oferece sem receber de volta, naquela oração que parece ecoar no vazio ou naquele luto que ainda pede tempo. Não tente forçar o amanhecer antes da hora. Deixe que a quietude ilumine as verdades que a agitação escondeu e que o seu descanso seja um ato de adoração. Amanhã, as pedras serão removidas e o brado de vitória ecoará por toda a criação, mas por hoje, apenas confie. Que a sua luz hoje seja feita de paz e que o seu vigor venha da certeza de que o Domingo é inevitável. 


Seja luz através da sua calma, e ilumine o mundo com a esperança de quem aprendeu a descansar no colo do Pai enquanto espera o sol nascer. 


Aproveito e desejo uma feliz e abençoada Páscoa para todos. Cristo vive e nos ama.





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10 comentários

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há um dia
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“Iluminamos não porque gritamos mais alto, mas porque nossa confiança está ancorada em algo que o túmulo não pôde reter.”

Carla, isso precisa ser emoldurado. Salvei esse trecho para releituras. Muito obrigada por esta coluna. Que texto! Abraços, Joelma

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há 2 dias
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“ Não tente forçar o amanhecer…”

Deixe tudo madurar, deixe a data de validade vencer, finalize cada processo para que, verdadeiramente, outro amanhecer possa nascer.

Namastê!

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há 3 dias
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Carla, eu li este texto no momento exato em que precisava. Estou vivendo o meu ‘sábado pessoal’ há meses, num projeto que não deslanchou e numa espera que já cansa. A frase ‘não tente forçar o amanhecer antes da hora’ me desarmou completamente. Obrigada por me lembrar que esperar também é um ato de fé. Adoro seus textos e as reflexões que eles provocam. Siga sendo luz e iluminando. Grace Maria

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há 3 dias
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Li três vezes. Cada vez encontrei algo novo. A conexão entre o nosso vício em ruído e o Sábado de Aleluia é tão atual que dói. A gente preenche o silêncio com tela porque tem medo de se encontrar. Este texto me deu coragem pra ficar quieta. Gostei de verdade. Luciana Andreia

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há 3 dias
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Como você consegue escrever com tanta leveza sobre coisas tão pesadas, Carla?

O parágrafo final me fez chorar — especialmente a parte do luto que ainda pede tempo. Senti que você estava falando diretamente comigo. Cristo vive, e este texto também vai continuar vivo em mim. Feliz Páscoa! Com carinho, Ana Lucia

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