PEDALE, QUE EU SEGURO
- CARLA KIRILOS

- há 8 horas
- 4 min de leitura

Ele tinha quatro anos e as pernas mal alcançavam os pedais. Eu segurava o banco da bicicleta com as duas mãos, e ele, desconfiado do próprio equilíbrio, olhava para trás a cada duas pedaladas, como quem conferia se eu ainda estava ali.
— Pedale e olhe para frente — eu dizia. — Eu estou aqui. Eu seguro.
Ele pedalava mais um pouco. Olhava para trás. Eu continuava ali.
Talvez ele não soubesse, naquela época, que eu não segurava apenas o banco da bicicleta. Segurava também o medo de que ele caísse. E, sem que nenhum de nós percebesse, aquela cena começava a me ensinar uma das mais bonitas lições do ser avó: amar um neto é estar perto o suficiente para amparar, mas também aprender, aos poucos, a deixá-lo seguir.
Ele caiu algumas vezes.
Levantou.
Tentou de novo.
E eu fui soltando as mãos devagar, até que chegou o dia em que pedalou sozinho.
Não me lembro se, naquele instante, ele percebeu a importância do que tinha acabado de fazer. Eu percebi.
Porque, enquanto descobria que podia seguir sem minhas mãos no banco, eu descobria que minha função não seria segurá-lo para sempre. Seria ajudá-lo a encontrar o próprio equilíbrio.
Agora ele tem dezesseis anos.
A bicicleta virou lembrança de família, dessas que reaparecem nas conversas e fazem a gente sorrir antes mesmo de a história terminar.
Mas o menino não desapareceu.
Está ali, no rapaz que vejo crescer diante dos meus olhos.
No ano que vem fará o ENEM. Mas já fala do futuro com a seriedade de quem começa a perceber que a vida lhe pedirá escolhas. Seus olhos já procuram mais o horizonte do que a confirmação de que alguém continua segurando o banco.
E eu observo.
Observo aquele menino se transformar, dia após dia, em alguém que ainda está descobrindo quem será, mas que já me permite enxergar a grandeza do homem que poderá se tornar.
Talvez essa seja uma das maiores belezas da nossa relação atual: acompanhar sem pressa aquilo que ainda está em formação. Ver os pequenos gestos, as escolhas, as descobertas, os sonhos e até as dúvidas se juntarem, pouco a pouco, como capítulos de uma história que ainda está sendo escrita.
A adolescência floresce enquanto a vida adulta começa a despontar.
E esse intervalo é cheio de curvas.
Há escolhas de curso que parecem definitivas, provas que condensam meses de estudo em uma manhã, comparações, expectativas e a pergunta inquietante que acompanha tantos jovens quando começam a desenhar o próprio caminho:
"E se eu errar?"
Eu sei que haverá outras quedas.
Algumas serão pequenas. Outras talvez doam mais.
Haverá escolhas que não darão certo, portas que não se abrirão, caminhos que precisarão ser refeitos.
Haverá momentos em que ele terá de parar, respirar, juntar forças e começar outra vez.
Como naquela bicicleta.
Porque cair faz parte de aprender a pedalar.
E recomeçar faz parte de aprender a viver.
O que eu desejo para ele não é uma estrada sem obstáculos. É que tenha coragem para atravessá-los. Que saiba reconhecer quando precisar mudar de direção. Que não confunda uma queda com o fim do caminho.
Talvez porque eu tenha aprendido isso naquele dia, segurando o banco da bicicleta: meu papel nunca foi impedir suas quedas. Foi ajudá-lo a acreditar que sempre seria possível continuar.
E é curioso como o tempo transforma o lugar de quem ama.
Quando ele era pequeno, meu amor estava nas duas mãos que seguravam o banco.
Agora, está nas palavras que digo, nas conversas que temos, na torcida silenciosa e nas orações que faço quando ninguém está vendo.
Está também naquilo que aprendi a aceitar: o futuro dele não me pertence.
Posso desejar, orientar, aconselhar e torcer.
Mas o caminho será dele.
E o que faz uma avó?
Ama sem possuir, acompanha sem conduzir, está disponível sem impedir que o outro descubra a própria força.
Eu não posso escolher a estrada por ele. Nem quero escolher a bicicleta em que vai pedalar. Quero apenas vê-lo fazer as próprias escolhas, enfrentar desafios, errar, cair, levantar e continuar.
Quero vê-lo chegar ao futuro não porque alguém o levou pela mão, mas porque aprendeu a caminhar com as próprias pernas.
E, enquanto tudo isso acontece, existe uma coisa que o tempo não consegue mudar.
Às vezes olho para ele, aos dezesseis anos, e por um instante ainda vejo as perninhas curtas tentando alcançar os pedais.
Vejo minhas duas mãos segurando o banco.
E quase escuto minha própria voz:
— Pedale e olhe para frente. Eu estou aqui.
Só que hoje eu sei que haverá caminhos onde minhas mãos não poderão ajudá-lo.
E talvez seja justamente aí que a minha fé encontre o limite das minhas mãos.
O salmista escreveu algo que aprendi a orar por cada um dos meus quatro netos:
"O Senhor guardará a tua saída e a tua entrada, desde agora e para sempre."
(Salmo 121:8)
Hoje já não seguro o banco.
Mas há uma mão que sempre o sustentará onde a minha não chegar.
Pedale, meu neto. Olhe para a frente. Eu continuo aqui.
E, onde minhas mãos já não alcançam, as de Deus jamais deixarão de estar lá.



Amiga, que texto lindo! Chorei do começo ao fim.
Você sabe que
eu também tenho netos e essa imagem de segurar o banco da bicicleta me pegou fundo. A gente acha que o mais difícil é ensinar a pedalar, mas o mais difícil mesmo é aprender a soltar. Obrigada por colocar em palavras o que eu sinto e não consigo explicar. Parabéns! Roseli
Carla, toda vez que você fala ou escreve sobre os netos dá pra sentir que não é só amor — é também um jeito de processar o seu próprio envelhecer, o próprio soltar as coisas. Esse texto fala de bicicleta mas fala de você também. Acho isso lindo! Uma benção viver todas essas fases. Joana Maria