RECORDAR É VIVER?


A agulha desce sobre o vinil e há aquele instante de chiado antes da música começar — meio segundo em que o silêncio ainda não decidiu se vai virar som. Depois vem o acorde.
"Recordar é viver, eu ontem sonhei com você…"
A canção é de 1955. Eu ainda nem existia quando ela nasceu. E, no entanto, basta ouvir os primeiros acordes para que alguma coisa dentro da gente reconheça a melodia — e, por três minutos, a sala parece ter dois endereços ao mesmo tempo: o de hoje e o de outro dia qualquer, quando ainda estava cheia de gente e de conversa.
A memória não precisa de passagem, mala ou avião. Uma canção é suficiente para nos transportar. E então me pergunto: recordar é viver?A frase original não deixa dúvidas. Tem ponto final. É uma afirmação.Eu, porém, tenho vontade de colocar uma interrogação.
Porque recordar não é voltar. O passado não abre novamente suas portas. Não existe um segundo domingo daquele domingo, nem outro abraço igual àquele abraço — porque o abraço não era só os braços, era o ano, a idade, o medo que a gente tinha na época e que hoje nem lembra mais de ter.A memória não devolve o passado inteiro. Devolve uma versão editada dele: a fotografia bonita, sem o que ficou fora do quadro.
E é aí que mora o perigo — não em lembrar, mas em confundir a fotografia com a casa. Em tentar morar dentro dela.
É aqui que uma passagem bíblica me faz pensar, e talvez ela devesse entrar antes do que a gente espera, porque é assim que ela chega na vida real — não no fim de um raciocínio arrumado, mas no meio da música, enquanto ainda estamos de olhos fechados, saudosos, felizes.Em Isaías, Deus diz:
"Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que faço uma coisa nova; agora sairá à luz; porventura não a percebeis?"(Isaías 43:18-19)
À primeira vista, parece contradição. Como não lembrar do passado, se estamos falando justamente da beleza de recordar?Mas talvez Deus não esteja ensinando a apagar a memória. Talvez esteja ensinando a desocupar a casa velha — não porque ela foi ruim, mas porque já cumpriu seu tempo, e há uma coisa nova querendo sair à luz que não cabe dentro de uma moldura.
Existe uma diferença enorme entre lembrar o passado e viver no passado.Lembrar pode ser gratidão. Viver no passado pode ser prisão.Recordar nos ajuda a reconhecer quem fomos. Permanecer lá pode nos impedir de perceber quem ainda podemos ser.Às vezes eu olho para essa sala e ainda vejo as cadeiras como estavam naquela noite, as vozes que já não moram mais aqui, o lugar exato onde cada um se sentava. É bonito visitar. Mas seria triste se eu só soubesse fazer isso — se a sala só existisse para mim como ela foi, e nunca como ela ainda pode ser.E de notar a coisa nova, que quase nunca chega anunciada. Ela não vem com fanfarra. Vem baixinho, como quem entra numa sala onde todo mundo ainda está de olhos fechados ouvindo uma música de setenta anos atrás. Se não abrirmos os olhos, ela passa direto.
Talvez essa seja a grande sabedoria do tempo: olhar para trás sem deixar de olhar para frente. Porque ainda há muito que não conhecemos — encontros, lugares, conversas, histórias que ainda vamos viver. E, principalmente, há coisas novas que Deus ainda pode fazer.
Por isso, a antiga marchinha talvez não esteja errada. Só incompleta.Recordar é viver quando a lembrança nos faz agradecer, quando devolve pessoas e sentimentos que merecem continuar vivos em nós. Deixa de ser vida quando nos impede de perceber o presente — quando a saudade vira incapacidade de seguir, quando a nostalgia, tão confortável por não pedir nada de nós, ocupa o lugar que era do futuro.
A agulha chega ao fim do disco e sobe sozinha. O silêncio volta — mas é um silêncio diferente do primeiro, porque agora sabe o que vai perder se eu não fizer nada.Guardar o que foi bonito. Aprender com o que doeu. Agradecer pelo que passou. E abrir espaço para o novo.
Talvez a pergunta mais importante não seja se recordar é viver.Talvez seja esta: estamos vivendo de tal maneira que, um dia, teremos boas histórias para recordar?
Como diz Isaías, ainda há coisa nova para sair à luz — mesmo que, de olhos fechados, ainda não a percebamos.
A vida não acontece só naquilo que fomos.
Ela ainda está acontecendo.



Um bom texto! Reflexivo e imersivo. Me senti na mesma cena em que você, transportada para a ocasião em que se ouve a dita música. Você traz reflexões muito interessantes...As operações mentais de recordar e retornar, que inclusive dialogam de forma bem interessante com outra comunista do site, chamada Michele.
Nesse texto que me refiro, ela afirma sobre algumas lembranças da infância e a algumas figurações da memória e seu exercício, entre a lembrança e o esquecimento. Vocês duas dialogam bastante na escrita, o que é ótimo. Percebo aí uma intertextualidade muito rica, que poderiam se somar de forma bem fecunda.
Gosto do seu texto em igual razão pela que gostei do dela: junta a presença de uma percepção que…
Amei o seu texto, Carla! As canções possuem um significado muito grande na minha vida, representando marcos na minha linha do tempo. No entanto esses marcos são de momentos felizes ou pessoas das quais gosto muito e que já passaram ou permanecem nos meus dias. Enquanto sigo em frente, gosto quando uma canção me faz sorrir com uma boa lembrança!
Oi Carla, amei seu texto e nem sei explicar porque amei. São tantas brechas para uma reflexão triste e alegre ao mesmo tempo. Voltar ao passado é isso: sorrir ou chorar, mas tudo depende do sentimento do momento. Posso afirmar e pensar assim: escrevi isso porque naquele momento, eu santia isso. Hoje não sinto mais. É como você disse:
-O passado não abre novamente suas portas.
Ei, Carla! Eu conheço uma música com esse título "Amar é viver" eu vivo porque amo você do cantor e apresentador Barros de Alencar. Não sei se é a mesma música, porque a que eu estou falando foi lançada no ano de 1979, já final da estilo pós jovem guarda conhecido, hoje, como "brega'. Mas voltando ao seu texto, elereflete com delicadeza sobre o poder da memória e da música em nos transportar ao passado, sem que isso signifique revivê-lo por completo. Mostra que recordar pode ser gratidão, mas também alerta para o risco de se aprisionar na nostalgia. A mensagem bíblica reforça a importância de abrir espaço para o novo, sem apagar o que já foi vivido. É uma…
Carla,
Esse “meio segundo em que o silêncio ainda não deciding se vai virar som” me pegou. Vivo apressando a vida para não ficar nesse intervalo, mas você me lembrou que é aí que a memória se prepara para chegar. Quero aprender a habitar o chiado, a não ter medo da pausa. Obrigada por me mostrar que o limiar não é vazio; é porta.
Com gratidão, Verônica