RECORDAR É VIVER?
- CARLA KIRILOS

- há 1 dia
- 3 min de leitura

A agulha desce sobre o vinil e há aquele instante de chiado antes da música começar — meio segundo em que o silêncio ainda não decidiu se vai virar som. Depois vem o acorde.
"Recordar é viver, eu ontem sonhei com você…"
A canção é de 1955. Eu ainda nem existia quando ela nasceu. E, no entanto, basta ouvir os primeiros acordes para que alguma coisa dentro da gente reconheça a melodia — e, por três minutos, a sala parece ter dois endereços ao mesmo tempo: o de hoje e o de outro dia qualquer, quando ainda estava cheia de gente e de conversa.
A memória não precisa de passagem, mala ou avião. Uma canção é suficiente para nos transportar. E então me pergunto: recordar é viver?A frase original não deixa dúvidas. Tem ponto final. É uma afirmação.Eu, porém, tenho vontade de colocar uma interrogação.
Porque recordar não é voltar. O passado não abre novamente suas portas. Não existe um segundo domingo daquele domingo, nem outro abraço igual àquele abraço — porque o abraço não era só os braços, era o ano, a idade, o medo que a gente tinha na época e que hoje nem lembra mais de ter.A memória não devolve o passado inteiro. Devolve uma versão editada dele: a fotografia bonita, sem o que ficou fora do quadro.
E é aí que mora o perigo — não em lembrar, mas em confundir a fotografia com a casa. Em tentar morar dentro dela.
É aqui que uma passagem bíblica me faz pensar, e talvez ela devesse entrar antes do que a gente espera, porque é assim que ela chega na vida real — não no fim de um raciocínio arrumado, mas no meio da música, enquanto ainda estamos de olhos fechados, saudosos, felizes.Em Isaías, Deus diz:
"Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas. Eis que faço uma coisa nova; agora sairá à luz; porventura não a percebeis?"(Isaías 43:18-19)
À primeira vista, parece contradição. Como não lembrar do passado, se estamos falando justamente da beleza de recordar?Mas talvez Deus não esteja ensinando a apagar a memória. Talvez esteja ensinando a desocupar a casa velha — não porque ela foi ruim, mas porque já cumpriu seu tempo, e há uma coisa nova querendo sair à luz que não cabe dentro de uma moldura.
Existe uma diferença enorme entre lembrar o passado e viver no passado.Lembrar pode ser gratidão. Viver no passado pode ser prisão.Recordar nos ajuda a reconhecer quem fomos. Permanecer lá pode nos impedir de perceber quem ainda podemos ser.Às vezes eu olho para essa sala e ainda vejo as cadeiras como estavam naquela noite, as vozes que já não moram mais aqui, o lugar exato onde cada um se sentava. É bonito visitar. Mas seria triste se eu só soubesse fazer isso — se a sala só existisse para mim como ela foi, e nunca como ela ainda pode ser.E de notar a coisa nova, que quase nunca chega anunciada. Ela não vem com fanfarra. Vem baixinho, como quem entra numa sala onde todo mundo ainda está de olhos fechados ouvindo uma música de setenta anos atrás. Se não abrirmos os olhos, ela passa direto.
Talvez essa seja a grande sabedoria do tempo: olhar para trás sem deixar de olhar para frente. Porque ainda há muito que não conhecemos — encontros, lugares, conversas, histórias que ainda vamos viver. E, principalmente, há coisas novas que Deus ainda pode fazer.
Por isso, a antiga marchinha talvez não esteja errada. Só incompleta.Recordar é viver quando a lembrança nos faz agradecer, quando devolve pessoas e sentimentos que merecem continuar vivos em nós. Deixa de ser vida quando nos impede de perceber o presente — quando a saudade vira incapacidade de seguir, quando a nostalgia, tão confortável por não pedir nada de nós, ocupa o lugar que era do futuro.
A agulha chega ao fim do disco e sobe sozinha. O silêncio volta — mas é um silêncio diferente do primeiro, porque agora sabe o que vai perder se eu não fizer nada.Guardar o que foi bonito. Aprender com o que doeu. Agradecer pelo que passou. E abrir espaço para o novo.
Talvez a pergunta mais importante não seja se recordar é viver.Talvez seja esta: estamos vivendo de tal maneira que, um dia, teremos boas histórias para recordar?
Como diz Isaías, ainda há coisa nova para sair à luz — mesmo que, de olhos fechados, ainda não a percebamos.
A vida não acontece só naquilo que fomos.
Ela ainda está acontecendo.



Carlinha, amei seu texto!
Ele não diz isso explicitamente, mas eu estou aqui com uma sensação de convite: escutar mais. Não só músicas, mas os sons, as vozes, os silêncios que carregam história. Quantas vezes eu deixo tocar uma canção antiga e já pego o celular para fazer outra coisa? Quantas vezes ignoro o cheiro de um prato, o tom de uma risada, o jeito que alguém pronuncia uma palavra — tudo isso é gatilho de memória? ‘Recordar é viver’ deixou de ser só uma frase de efeito pra mim. Virou um lembrete de que a vida está cheia de pequenas portas para o passado, e que a gente precisa estar presente o suficiente para atravessá-las. Obrigada por isso. Um…
Carla, esse ‘meio segundo em que o silêncio ainda não decidiu se vai virar som’ me tocou de um jeito que eu não esperava. A gente vive correndo, sempre no próximo compromisso, e raramente presta atenção nesses intervalos — no respiro antes da fala, na pausa antes do beijo, no chiado antes da música. O texto me lembrou que é justamente nesses instantes suspensos que a memória se prepara para chegar. Talvez recordar seja isso: habitar o limiar, ficar confortável com a ambiguidade entre o que já foi e o que ainda está por vir. Com certeza saio desta página querendo prestar mais atenção às pausas da minha própria vida. Seu texto mexeu comigo. Verinha