O LIVRO QUE UMA AVÓ ME ENSINOU A LER
- CARLA KIRILOS

- 7 de mai.
- 3 min de leitura
“A Menina da Cabeça Quadrada”. Foi o título de um livro infantil que me parou no meio da feira.
Eu estava ali por causa da minha neta — acompanhando a apresentação dos trabalhos na feira literária da escola dela. O ambiente era cheio de vida, de cores, de crianças orgulhosas do que tinham criado. E no meio de tudo aquilo, antes mesmo de abrir o livro, aquele nome me provocou.

Depois vieram as apresentações. O brilho nos olhos das crianças ao explicarem o que tinham aprendido. A forma cuidadosa como o tema estava sendo trabalhado. Havia ali mais do que uma atividade escolar — havia sentido, havia mensagem. E foi nesse contexto que decidi, ali mesmo, sentada na sala de aula, ler o livro de Emília Nuñez.
Quando fechei a última página, precisei ficar um momento em silêncio. E resolvi: vou escrever sobre isto.
Porque eu tinha acabado de me encontrar dentro de uma história infantil.
O que o livro conta?
A história é simples — como as melhores histórias costumam ser.
Uma menina que, de tanto viver diante das telas, começa literalmente a ter a cabeça quadrada. O formato muda. O olhar muda. A forma de se relacionar com o mundo ao redor muda. Ela para de brincar. Para de perceber. Para de estar.
É a avó quem percebe primeiro.
E, com a sabedoria gentil de quem já viveu muito, ela não proíbe, não repreende, não levanta a voz. Ela convida. Diz à neta que estava na hora de viver coisas redondas.
E então a menina começa: brinca de roda, de bambolê, rola na grama, gira, ri. Aos poucos, no ritmo das coisas que não têm ângulos, sua cabeça vai voltando ao formato natural.
Emília Nuñez poderia ter escrito um livro de advertência, cheio de dedos apontados para as telas. Mas escolheu a delicadeza. A solução não veio de uma proibição — veio de um convite ao mundo real. E foi exatamente isso que me desarmou.
Eu sou a avó dessa história.
Ali, naquela sala de aula, segurando o livro, olhei para a minha neta e entendi.
Não sou apenas uma leitora refletindo sobre tecnologia e infância. Sou, na vida real, exatamente o que a avó é na história — alguém que está ao lado de uma criança e tem a responsabilidade de convidá-la para o mundo redondo.
Mas aí veio a pergunta incômoda: e se eu mesma estiver com a cabeça quadrada?
Porque a nossa "cabeça quadrada" não é visível. Mas se revela nos detalhes do cotidiano que aprendemos a ignorar.
É a mesa do jantar em que cada um está no próprio celular — e ninguém estranha. É a criança que chama pelo nome três vezes antes de ser ouvida, porque os olhos do adulto estão presos numa tela. É o fim do dia em que a gente se deita sem conseguir lembrar direito o que fez, com quem falou, o que sentiu.
Como posso convidar minha neta para as coisas redondas se eu mesma estou cada vez mais encaixada nos ângulos das telas?
Quando a ferramenta passa a nos conduzir?
O mais delicado nesse processo é que raramente percebemos a virada — o momento exato em que deixamos de usar a tecnologia e começamos a ser usados por ela.
A notificação que interrompe uma conversa importante. O “scroll” automático antes de dormir. A sensação de ansiedade quando o celular some por alguns minutos. São sinais sutis, mas são sinais.
E é justamente aí que a Palavra nos alcança com uma verdade tão antiga quanto urgente:
"Tudo me é permitido, mas nem tudo convém. Tudo me é permitido, mas eu não deixarei que nada me domine." (1 Coríntios 6:12)
A tecnologia não é o problema. O desequilíbrio é. E o desequilíbrio começa quando paramos de fazer escolhas conscientes sobre como, quando e por que nos conectamos.
As coisas redondas que ainda nos salvam...
Talvez a mensagem mais bonita do livro não seja sobre o que precisamos largar — mas sobre o que precisamos reencontrar.
Brincar de roda. Andar descalço na grama. Olhar nos olhos sem pressa. Ouvir uma história até o fim. Sentar à mesa sem o celular por perto. Deixar o tempo passar devagar por alguns minutos.
Coisas redondas. Coisas que fluem. Coisas que curam.
Aquele momento na feira não foi apenas um encontro com um livro. Foi um convite à consciência — um chamado à revisão de hábitos, de prioridades, de presença. Um lembrete de que o papel da avó na história não é só personagem de ficção. É vocação real, cotidiana, urgente.
Porque quando olho para minha neta e vejo o quanto ela ainda vive com os olhos abertos para o mundo — sem filtros, sem distrações — a pergunta que fica é simples e incômoda:
Nós, adultos, ainda sabemos viver coisas redondas?
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Adorei! Acho que precisamos todos de alguma maneira desquadrificar nossas cabeças e voltar nossos olhos para o arredondado da vida!
Carlinha, a pergunta final me desarmou completamente: “Nós, adultos, ainda sabemos viver coisas redondas?” Precisei fechar o celular e respirar. Parabéns! Gina
Um texto bonito que faz uma crítica às pessoas que se esqueceram que existe vida útil fora do celular. São tantas coisas redondas que podemos fazer: viajar, ler um bom livro, assistir a um bom filme, ouvir uma boa música. escrever, namorar, correr, caminhar, observar a natureza como contemplar o pôr-do-sol, tomar uma banho de cachoeira....
Parabéns pelo texto.
Um abraço.
O que me encantou? Foi que em nenhum momento o texto ficou sermão. Você convida, não aponta o dedo. Igual à avó do livro. Méritos de quem vive o que fala, ou, no seu caso aqui, de quem escreve. Muito bom! Jussara
É Carla , como é importante a consciência, a prioridade, as escolhas!!!!!
Às vezes , pequenos detalhes contam muito!!!
A leitura é de fato , importantíssimo pra vida inteira....
E que beleza a forma de colocar..... A delicadeza, a sensibilidade de uma vó conduzindo a neta para o tempo de ouro , que a vida espera daquela criança !!!!
É lindo seu texto!!!! Digno de ser lido e relido!!!! Inspirador !!!! Parabéns!!!! 👏👏💐❤️
Agradeço pela oportunidade de poder explorar esse lado que é tão cobiçado, mas mostrando outro lado possível de fazer, rever e até criar .....Ana Megale