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UMA CALCINHA VIAJANTE
Tudo começou quando alguém abrindo o guarda-roupa, encontrou uma calcinha. Sem perguntar para nenhuma frequentadora da casa, quem era a dona da peça, aproveitou uma oportunidade e a enviou para São Paulo. E ela foi deslizando pelo asfalto de uma rodovia, atravessando território de Minas para São Paulo, num intervalo de tempo em que a verdadeira dona nem imaginava que isso poderia estar acontecendo. Chegando em São Paulo, a encarregada da devolução, tranquilamente entregou a c


PEDALE, QUE EU SEGURO
Ele tinha quatro anos e as pernas mal alcançavam os pedais. Eu segurava o banco da bicicleta com as duas mãos, e ele, desconfiado do próprio equilíbrio, olhava para trás a cada duas pedaladas, como quem conferia se eu ainda estava ali. — Pedale e olhe para frente — eu dizia. — Eu estou aqui. Eu seguro. Ele pedalava mais um pouco. Olhava para trás. Eu continuava ali. Talvez ele não soubesse, naquela época, que eu não segurava apenas o banco da bicicleta. Segurava também o medo


PÁSSARO LIVRE
"Liberdade é espaço para voar" É quase uma vida, senão a vida Do Pássaro - Preto Que entoa sua melodia Em qualquer hora ou estação. Entre galhos verdes ou secos Na cidade, nas matas ou no sertão. De toda passarada Que chega, assenta E logo sai alvoroçada. Em meio à agitação do vento Asas leves disparadas. O coração pacífico do poeta, inquieta Não é em vão. Em linhas retas de sua memória Solta versos e não demora voam pássaros pelos ares, vida de mel Voam poemas nas folhas de


AMOR SEGUNDO DARWIN
Era apenas uma garotinha, de cadarço desamarrado, mãos que tremiam sem razão e tossindo numa ânsia absurda. Uma garota num mar de insignificância que é a vida juvenil, como se as coisas estivessem esperando o momento exato de desabrocharem. Tudo era espera, afinal. O jeito como as palavras se enroscavam no momento da fala, gaguejando e trocando sílabas. Aprendera a falar, mas não a dizer. Olhava as pessoas com uma curiosidade ímpar. Colocava-as em seu caleidoscópio, busca


DEZEMBRO
A chuva forte cai lá fora. Agradeço a Deus a casa segura e peço pelos que, no mesmo momento, correm da morte fugindo de suas próprias casas. A chuva vem, lava tudo, às vezes leva tudo de quem pouco tem, porém traz a fartura na lavoura e o renascimento dos rios. Então, que venham abençoadas chuvas. Não tem jeito. Dezembro traz melancolia. Presa dentro de casa, hora de faxinar todos os cantos e de me horrorizar como fui acumuladora este ano. Sempre bate aquele dilema: recordaç


QUANDO A PALAVRA CELEBRA A EXISTÊNCIA
Como é transformar seis anos de vida em palavras que tocam outras vidas? Como é a sensação de escrever, mês a mês, por seis anos, para o Blog Bendita Existência? É como provar, continuamente, o sabor da vida traduzida em palavras. É revisitar emoções, observar o cotidiano com novos olhos e transformar cada detalhe em reflexão. É perceber que, quando a escrita nasce da alma, ela encontra naturalmente o caminho até o coração de quem lê. “Palavras agradáveis são como favo de mel
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