AMOR SEGUNDO DARWIN
- ANA BEATRIZ

- 23 de jun.
- 2 min de leitura

Era apenas uma garotinha, de cadarço desamarrado, mãos que tremiam sem razão e tossindo numa ânsia absurda. Uma garota num mar de insignificância que é a vida juvenil, como se as coisas estivessem esperando o momento exato de desabrocharem. Tudo era espera, afinal.
O jeito como as palavras se enroscavam no momento da fala, gaguejando e trocando sílabas. Aprendera a falar, mas não a dizer.
Olhava as pessoas com uma curiosidade ímpar. Colocava-as em seu caleidoscópio, buscando detalhes a muito tempo perdidos. Montava um catálogo interno e preciso, que sempre viria antes do “olá”. Talvez, assim, tudo ficasse mais fácil.
Até que veio um perigo: ao invés de catalogar um certo alguém, ela o adentrou. Tudo parecia novo, é o que acontece ao encontrar terras desconhecidas, então, sem perceber, ela buscava sua fonte, encontrar o núcleo de uma espécie nova, até o ponto que ela (com a cabeça girando) olharia para lugar nenhum e entenderia: “eu te amo”.
Mas era tudo tão estranho! Dei-me um cigarro, me dá um cigarro. Era mais fácil se tudo fosse questão de gramática: eu te amo, eu amo-te, eu amo a ti...buscas sem rumo numa orquestra harmoniosa. Era melhor do que mergulhar mais na fonte do saber novo.
Numa manhã de dezembro, quando o ar fervia pela ansiedade de todos, ela o encontrou como sempre, lendo numa calma tentadora, enquanto ela apenas existia ao seu lado. Não falaram nada, mas disseram tudo, e sabiam no fundo que isso bastava.
Até que, antes de partirem em direção ao mundo, ele olhou para trás e sorriu, um breve instante que resumiu toda história do universo. Ela colheu esse instante e não precisou mais entender: eles desabrochavam, então.



E lembrar, Ana Beatriz, que isso já aconteceu comigo. Bom demais...Sem contar que é um momento que eterniza, é um grude.
Uma prosa rica em intimismo e epifanias apresentados com pureza, ingenuidade e singeleza. (Como quase sempre acontece com as manifestações do amor) Construída com intertextualidade tão sútil, quase imperceptível. Que pequeno/grande texto. LINDO!
Parabéns!!
Que texto, lindo, Ana Beatriz! Que profundidade e que leveza ao mesmo tempo. A linguagem do amor é universal, não carece de explicação. Seu texto é uma melodia doce, suave, misteriosa e bela. Amei.
Parabéns! Um abraço.
As flores não necessitam de razões para florescer; elas florescem. Assim são os amores...
Sim, as espécies desabrocham ao longo do tempo.
Um desabrochar físico, psicólogo que irá se revelar, naturalmente, como diz o final do seu texto: “…não precisou mais entender: eles desabrochavam, então.”
Namastê!