A OUTRA MULHER
- ANA BEATRIZ

- 24 de mar.
- 2 min de leitura

Ela era bonita? Bem, de qual das duas estamos falando?
A primeira estava quase com quarenta anos. Quarenta anos. Que número assustador, ele vem chegando aos poucos, como a barriga que cresce e anuncia o bebê. Ela percebia a sua chegado naquele maldito fio de cabelo branco e, aquelas dores, parecia que tudo doía, os ombros, as costas, as vezes até os olhos. Os seios que até pouco tempo eram firmes agora caiam amolecidos. A imagem no espelho parecia ser a de uma traidora. Mas as pessoas sempre lhe faziam elogios dizendo que estava envelhecendo bem. O marido lhe dizia que era bonita, então estava tudo certo.
Do outro lado do espelho, se ela olhasse além do reflexo, veria a outra mulher. Apenas vinte anos, as unhas sempre feitas, cabelo arrumado. Ela não tem que se preocupar com bagunça de criança. Provavelmente, sempre que sai de casa, usa aquele perfume que sempre fica impregnado nas roupas do marido, e ainda por cima era o preferido da primeira mulher: lavanda.
A outra mulher estava ali, a encarava no espelho triunfantemente. Mas ela aprendera uma técnica: não atrapalhar a normalidade da vida, ignorar aquela visão, sim, era a melhor coisa para manter um relacionamento.
Mas havia um problema: o perfume que o marido carregava consigo quando voltava para casa, estava presente até na hora do jantar, era como se a outra mulher estivesse comendo junto deles, pior, estivesse vivendo naquela casa. E, por uma vez, quando apanhou um casaco do seu amado, se permitiu sentir o aroma de perto, era tão bom que uma lágrima desceu.
Então, ela quis olhar. Olhar como se olhasse os lírios do campo, como se não tivesse medo, olhar o que há de mais perigoso no mundo: a verdade.
A imagem foi ficando clara com o tempo, e quase estremeceu. A outra mulher surgia em sua frente, mas tinha algo de errado, tinha uns olhos cansados, um cabelo bagunçado, uma ruga no canto da boca...então, antes que percebesse, ela viu seu rosto, como um mero espelho. Assustada, sorriu e jurou sentir um cheiro de lavanda no ar.
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Texto profundo de uma leveza e sabedoria extraordinária . Construído por uma jovem tão iluminada . Ana Beatriz, viajei com Maria Paula, sua personagem em sua belíssima forma de escrever. Fiquei encantada! Assim como seu conto, "Domingo de Maio ," Parabéns 🎊
Bacana. É uma crítica sobre um tema muito relevante hoje em dia.
Parabéns, minha afilhada talentosa, pelo belo e suave texto. Seu texto me remete a teoria do Duplo de Sigmund Freud. O pai da psicanálise, tratou o tema do duplo principalmente em seu ensaio "O Estranho" (1919) . Nesta obra, ele descreve o duplo como um fenômeno psíquico ligado ao narcisismo, onde uma pessoa se identifica com outra a ponto de duvidar de sua própria identidade ou se sentir estranha diante de si mesma.
Seu texto, também, lembra- me Lakan, o mais famoso discípulo de Freud. Jacques Lacan retoma o conceito freudiano, mas o articula com sua teoria do "Estádio do Espelho" e a formação do ego. Para Lacan, o duplo está na base da construção da imagem de si, sendo…
Que sensibilidade na sua percepção da transformação na alma feminina. O cheiro de lavanda então tive a sensação de também sentir.
Que sensibilidade!Que olhar carinhoso sobre perceber o desgaste refletido no espelho, mas não o desgaste puramente físico, mas também aquele que transforma a alma e que,talvez, tenha outro nome.
Namastê!