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AOS MESTRES, COM CARINHO

Foto do escritor: JEFFERSON LIMA
JEFFERSON LIMA
há 52 minutos
6 min de leitura

No dia 15 de outubro é celebrado o Dia do Professor. É uma data importante, carregada de simbolismos e de uma história que remonta aos tempos do Império.


Foi em 15 de outubro de 1827 que o imperador D. Pedro I assinou a lei imperial que criava o Ensino Elementar no Brasil. Porém, antes de chegar à data comemorativa que hoje conhecemos, o professor Salomão Becker criou, em 1947, na cidade de São Paulo, a Parada Pedagógica. Já no ano seguinte, Antonieta de Barros — deputada estadual e a primeira mulher negra a assumir um cargo eletivo no país — conseguiu a aprovação da Lei nº 145, tornando o 15 de outubro feriado escolar em Santa Catarina. Por fim, em 14 de outubro de 1963, o presidente João Goulart assinou o decreto que oficializou o 15 de outubro como o Dia do Professor em todo o território nacional.


Mas não é sobre o contexto histórico ou político da data que quero escrever. A minha motivação aqui é homenagear os professores que deixaram marcas em mim e que ajudaram a forjar o ser humano que sou. Falo dos educadores dos meus primeiros anos, que me acompanharam na infância e na adolescência, fases em que nossa personalidade ainda está sendo formada e durante as quais nos debatemos entre conviver com a diversidade de pessoas à nossa volta, ouvir as vozes que gritam dentro da nossa cabeça e lidar com os hormônios que fervem em nosso corpo. Tudo isso até chegarmos ao fim do ensino médio com mais dúvidas do que certezas.


“Quando a gente ensina, a gente continua a viver na pessoa que foi ensinada!”

(Rubem Alves)


Começo pela Tia Zilda, a querida professora do antigo pré-primário. O ano era 1983. É um grande mérito quando um professor dos primeiros anos escolares consegue despertar nas crianças o desejo de estar na escola. Tia Zilda sabia como fazer e, em mim, despertou a alegria de ir para a escola todos os dias. Passados mais de quarenta anos, ainda me lembro da sua voz e dos seus olhos azuis que eu tanto admirava.


À professora Vanda, da primeira série, imputo a culpa de ter me doutrinado e feito de mim um leitor voraz. Lembro-me das segundas-feiras, quando saíamos, em fila, da Escola Estadual Rúmia Maluf para irmos à biblioteca que ficava na praça em frente à escola. Era dia de entregar o livro lido na última semana e escolher uma nova obra para degustar. A ida a bibliotecas se tornou um hábito que me acompanhou até a fase adulta. Ainda gosto de visitar bibliotecas e, em minha casa, hoje tenho a minha biblioteca pessoal com um acervo modestamente respeitável.


Foi Dona Carmen Drummond, a professora com sobrenome de poeta, que me despertou para a escrita. Semanalmente, a turma era incentivada a produzir textos, em sua grande maioria — até onde me lembro — com temas livres. Depois de corrigidos, os textos eram selecionados e os três destaques da semana iam para o mural de redações da sala. Ter uma redação no mural por uma semana me deixava todo orgulhoso. A cada semana, eu me desafiava a escrever o melhor texto. Algumas vezes, cheguei lá e aqui estou.


“Desejo que encontre bastante paciência em si para suportar e bastante simplicidade para crer; que confie cada vez mais no que é difícil, entre outras coisas, na sua solidão. No restante deixe a vida acontecer. Acredite-me: a vida tem razão em todos os casos.”


Na quinta série, uma aula do Afonso, professor de Inglês, me marcou de um jeito que ele nunca soube e que eu nunca esqueci. Não me recordo do contexto, mas, por algum motivo, ele resolveu dar um choque de realidade na turma e nos disse que cada um de nós precisava aprender “informática”, pois quem não soubesse “mexer” no computador iria passar fome por falta de emprego. Éramos crianças com idade entre 11 e 12 anos; corria o ano de 1988 e eu, pobre, periférico, que me orgulhava de ter uma máquina de escrever em casa, me projetei um derrotado. Onde e como eu poderia aprender a mexer em computador? Ainda sem conhecer a obra do Rilke, o jeito foi fazer exatamente o que ele escreveu: deixar a vida acontecer.


Mas, no ano seguinte, veio outro Afonso, que nos acompanhou até o final do ensino fundamental. Era o professor de Ensino Religioso. O programa das aulas consistia em explorar, semana após semana, o tema da Campanha da Fraternidade daquele ano por meio de atividades e reflexões profundas sobre o contexto social da nossa cidade e do nosso país, sempre respeitando a pluralidade religiosa da turma. Uma particularidade: não havia provas. As notas, dadas em forma de conceitos que variavam entre Regular, Bom, Muito Bom e Ótimo, eram atribuídas pelos próprios alunos. No entanto, o dia de dar a nota não era nada confortável, pois éramos induzidos a fazer uma autoavaliação. Como adolescentes, às vezes nos dávamos um ótimo, porém era um tanto constrangedor enfrentar o olhar do professor que parecia dizer: você tem certeza de que mereceu esta nota?


Quando ainda não se falava em preconceito linguístico, tive uma professora que alertava os alunos quanto à importância de se comunicar de forma adequada em cada ambiente, respeitando as características dos falantes locais, principalmente quando se tratasse de comunidades cujos integrantes não tivessem tido acesso à educação formal. Célia ensinava sobre empatia, sobre não ser arrogante quanto à utilização da língua. 


Por sua vez, Zé Ricardo fez com que eu encarasse as aulas de História com a devida importância. Sua maneira de explicar os diversos fatos históricos, relacionando-os a seus desdobramentos contemporâneos, me levou à paixão por acompanhar e entender os acontecimentos, os entremeios políticos e a história que acontece em tempo real e que será julgada pelas futuras gerações.


Imagina o que era exercitar o pensamento crítico, articulando as aulas do Zé Ricardo aos temas abordados por Afonso e à diversidade comunicativa apresentada por Célia! Para quem cresceu aficionado pela leitura e pela busca de conhecimento, esse conjunto era um prato cheio!


E então veio o ensino médio, que, à época, permitia cursar também uma formação técnica. Optei pelo Curso Técnico em Química.


Durante o curso, tínhamos aulas de Língua Portuguesa e Literatura com a lendária Ione Paiva. A mulher era temida por suas provas, que buscavam avaliar o nosso entendimento até do que ficava nas entrelinhas do conteúdo. No entanto, ainda me recordo da sua voz lendo Lembrança de Morrer, de Álvares de Azevedo, enquanto caminhava entre as carteiras de uma sala emudecida. Os alunos, em sua grande maioria, inclinados às ciências exatas, ficaram hipnotizados. Eu, que sempre pendulei entre exatas e humanas, fui nocauteado por aquele monólogo.


“Só tu à mocidade sonhadora

Do pálido poeta deste flores...

Se viveu, foi por ti! E de esperança

De na vida gozar de teus amores.”

(Álvares de Azevedo, em “Lembrança de Morrer”)


Ali nascia o poeta.


Vinte anos depois, fui honrado com o prefácio da professora Ione Paiva na minha estreia literária: Se For Poesia...


Seria injusto se terminasse esta crônica sem citar Maria do Rosário, professora de Química Inorgânica. Quando ela explicou os cálculos estequiométricos, eu não entendi nada. Não sabia por onde começar o primeiro exercício — ou seja, o mais simples já me pareceu impossível. Ao tentar me ajudar, ela logo entendeu onde estava a minha dificuldade: o meu modelo mental não conseguia compreender a metodologia empregada na resolução do exercício. Com enorme gentileza, demonstrou toda a sua versatilidade pedagógica ao me apresentar outra maneira de resolver a questão, um método que me pareceu tão fácil que, até hoje, sou capaz de aplicar sem qualquer dificuldade.


Como quase todo adolescente, evidentemente tive uma admiração especial por alguma professora. Seu nome era Andreia, de Geografia. Uma tremenda gata! Certa vez, quando concluí a leitura de parte de um texto em voz alta, ela comentou que minha voz parecia a de um locutor. Foi o suficiente para o garoto de dezesseis anos passar a sonhar com a professora! Em todas as aulas de Geografia, eu queria fazer a leitura do texto.


Para além das aulas, guardo boas lembranças das cachaças que fabriquei e bebi com o Selmo; da gentileza por trás do jeitão sério do Jésus; da Ivalda, que se preocupava com o tanto que eu escutava Pink Floyd; da Renata, que ficou superamiga da galera mais legal do curso técnico; das festas na casa da Edna, que renderam muitas histórias; da icônica festa na casa da Maura e das caronas no seu famoso “camburão”!


Em mim moram todos os mestres citados e outros, não menos importantes, cada um com sua peculiaridade. Já na vida adulta, vieram outros, que contribuíram e ainda contribuem, de diferentes maneiras, para pavimentar o meu estradar nesta vida.


“Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.”

(Paulo Freire)


Desejo que os professores sejam valorizados e reconhecidos, pois não há um único ser humano que, tendo frequentado uma escola, não traga em si as lembranças de aulas inesquecíveis.







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