ENTRE O ESPELHO E O ALGORITMO: QUANDO A ESTÉTICA DEIXA DE SER ESCOLHA?
- TEREZINHA ARAÚJO

- há 3 dias
- 3 min de leitura

Hoje fui a minha esteticista para procedimentos que faço sempre, a fim de manter minha pele bem tratada, cuidada, mas sem nenhum procedimento mais invasivo, pois, até aqui, não tem sido minha opção. Ela faz massagem, limpeza, estimulação de produção de colágeno, retira células mortas, enfim, dá uma manutenção básica.
Enquanto estava ali deitada fiquei pensando em como é bom ter um tempo para desfrutar do cuidado do outro, de poder relaxar, gastar um tempo para me proporcionar carinho e cuidado. Pensei na minha mãe, acho que ela nunca se deu a esse prazer. Nunca se permitia cuidar de si, se colocar na mão do outro para ser cuidada. Em sua época esses procedimentos não eram tão naturais e nem sempre acessíveis.
Em que momento isso tudo se tornou tão natural?
Cuidar da aparência sempre fez parte da experiência humana, e também da história de minha mãe, que se cuidava, do seu jeito, simples, mas sempre elegante, cheirosa e bem tratada.
Mas em nosso tempo, há algo diferente no ar.
Não é mais só sobre gostar de si, mas sobre corresponder a um ideal que parece estar sempre um passo à frente. Um ideal que muda rápido, se atualiza, se aperfeiçoa, como um software. E, curiosamente, nunca parece satisfeito.
Nas redes sociais como Instagram e TikTok, rostos e corpos circulam como vitrines. Filtros suavizam, aplicativos ajustam, ângulos corrigem. O que vemos, muitas vezes, não é o real, é o espetacular. Um espetáculo cuidadosamente construído, iluminado, editado, suavizado. Um real melhorado, corrigido, filtrado. Não para enganar necessariamente, mas para atender a uma expectativa que já está dada: a de que tudo deve ser bonito, harmônico, desejável.
Sem perceber, entramos em uma lógica sutil: não basta ser, é preciso parecer. E parecer sempre melhor, mais jovem, mais harmônico. O corpo vira projeto, meta, investimento. Um território onde se aplicam estratégias, correções e melhorias contínuas. Isso te lembra alguma coisa???
O sociólogo Zygmunt Bauman já falava sobre a “modernidade líquida”, um tempo em que tudo é instável, passageiro e constantemente substituível, inclusive os padrões de beleza. Nada é suficiente por muito tempo. Tudo precisa ser atualizado, inclusive, nós mesmos.
O filósofo Byung-Chul Han nos mostra que vivemos na “sociedade do desempenho”, onde a cobrança não vem mais apenas de fora, mas está internalizada. Não somos apenas cobrados, nós nos cobramos. Não somos apenas controlados, nos auto exploramos. E, talvez, o corpo seja um dos principais lugares onde isso se manifeste.
E aqui mora uma questão delicada. Porque não se trata de demonizar os procedimentos estéticos, eles podem, sim, ser fonte de bem-estar, autoestima e até reconciliação com a própria imagem. O problema talvez não esteja no procedimento em si, mas no contexto que o transforma em quase obrigação.
Mas seria simplista dizer que tudo isso é apenas imposição. Há também algo de genuinamente bom nessa experiência. Ser cuidada pode ser prazeroso. Há um tempo ali que não é produtivo, não é acelerado, é um tempo de pausa. Um tempo em que alguém olha para você com atenção, em que o toque é delicado, em que o corpo desacelera. Em meio à rotina intensa, isso pode ser um pequeno refúgio, uma forma de se dar prazer, de respirar, de simplesmente estar.
E talvez seja justamente aí que a questão se torna mais complexa: quando o cuidado e a cobrança se misturam. Quando o que começa como prazer também carrega expectativa. Quando o relaxamento convive com a exigência. E, sem perceber, vamos entrando, aos poucos, em uma lógica que não é totalmente nossa, mas que passa a habitar nossos desejos.
Existe uma diferença importante entre escolha e pressão. E nem sempre ela é evidente. Às vezes, a decisão parece pessoal, mas vem atravessada por expectativas sociais, padrões invisíveis e comparações constantes. Uma pressão que não grita, sussurra.
Vivemos um tempo em que a liberdade de escolha convive com uma forte indução de desejos.
Queremos porque queremos… ou porque aprendemos a querer?
Talvez o mais importante não seja responder imediatamente, mas sustentar a pergunta.
O que me move quando olho para o espelho? O desejo de me reconhecer… ou de me ajustar?
No meio de tantas imagens, filtros e possibilidades, talvez o verdadeiro ato de cuidado seja esse: criar um espaço interno onde a gente possa se escutar, sem pressa, sem cobrança, sem roteiro pronto.
Porque, no fim, não se trata apenas de mudar o rosto, o corpo, mas de entender quem está no espelho e para além dele.
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Sim!Estamos numa sociedade líquida, naquela que foi descrita no passado e,hoje, vivida no presente.
Tudo escorre, nada se fixa e, dentro desse contexto, o homem vai se desfigurando.
Namastê!
Reflexão muito pertinente nesses tempos líquidos e competição exacerbada entre as pessoas, Terezinha! E isso serve para os cuidados com a nossa aparência, tanto quanto para os objetos que decidimos comprar. Entre a necessidade de ter, a necessidade de expor e a necessidade de parecer, 'ser' em essência é sempre o mais importante. Nos dias atuais, é necessário reforçar, relembrar, se esforçar mesmo, para não sucumbirmos ao 'parecer' apenas. Abraços!
Texto maravilhoso, Terezinha! Como sempre. Eu aprendo muito com você. É muito importante esta dialética desejo/ pressão. Ao cuidar de mim eu estou atendendo a um desejo meu (interno), ou pressão, (externo)? Eu gosto de pintar meu cabelo, mas a minha esposa há mais de 15 anos insiste para eu deixá-lo grisalho e agora branco. Mesmo ema
um momento em que tantos homens jovens entraram na onda dos cabelos brancos ( se é para os desejos deles que continuem), eu ainda não estou preparado para os fios brancos. Só usarei quando pintá-los não mais me fizer bem. Cuidar de mim é respeitar o que me faz sentir eu mesmo.
Desculpe o lado pessoal do comentário. Senti-me representado em seu texto.