Incongruências: como sentir e agir em um mundo de urgência
- MICHELLE MKO

- 28 de abr.
- 4 min de leitura

Estava pensando sobre como muitas vezes incongruências nos atravessam. Ser uma pessoa sensível em um mundo cuja dessensibilização é incentivada para não se perder a produtividade é um desafio doloroso. Porque meu sentir pede vagareza, pede pausa, pede processamento. Mas a contemporaneidade tem uma urgência de respostas e de ações que escapam completamente ao meu fluxo natural de ser.
Sentir tudo leva ao sentir nada. Porque quando o muito atravessa a alma, perde-se a essência de se sentir o pouco. Quando o ponteiro do tempo da urgência aponta feroz para uma resposta, sinto-me literalmente atropelada. Talvez meu tempo interno seja outro. Talvez meu mundo interno tenha uma velocidade mais lenta do que a do mundo externo. E isso leva a uma incongruência sofrível, afinal, eu vivo também neste mundo externo e é a ele que muitas vezes preciso me adaptar e entregar meus resultados. Mas, quanto mais eu atendo ao externo, menos respeito o interno e de repente, quando olho no espelho da minha alma, não me reconheço. Eu preciso de fruição do tempo, do espaço, das cores, dos sons, das texturas, preciso sentir o mundo e as pessoas em suas delicadas singularidades, mas sou arrastada pela enxurrada da objetividade e vou aos poucos perdendo os detalhes dos outros e de mim mesma.
Quando eu tinha quatro anos eu caí em uma ladeira íngreme do carrinho de rolimã. Machuquei minha mão esquerda e adquiri uma cicatriz. Quando adolescente lembro de me sentir constrangida com a marca e de preferir minha mão direita, isenta de cicatriz, como se o sinal na mão fosse algo que justificasse amar mais a que não o carregava.
Outro dia, do nada, lembrei dessa cicatriz e fui conferir minha mão para ver se ela ainda existia. E lá estava ela. No mesmo lugar há 42 anos. Um pouco desapercebida pela pele mais sulcada e também pela urgência do olhar para fora e para o outro e não para mim mesma.
Pedi desculpas a ela.
Caminhei para a frente do espelho e olhei para minha imagem refletida. Reparei nas marcas do tempo no meu rosto. Me achei bonita. Consegui ver a menina por trás do tempo. Consegui ver a mulher que me tornei. Olhei para meu corpo. Esse é um olhar difícil. Mas estou em uma fase na qual decidi colocar meu corpo no escopo dos autocuidados. Também. Porque meu investimento em saúde mental é constante, mas meu corpo seguiu abandonado. E esse abandono levou a um movimento lento e doloroso no mundo. Num querer me tornar invisível crescendo em diâmetro, ocupando mais espaço. Aí me dei conta de que até o espaço que ele ocupa no mundo é paradoxal. Porque não querer ser vista me levou a atingir um tamanho que é até visto, mas com estigma. Um tamanho que não me permite caber em determinados espaços da sociedade ergonomicamente moldados aos corpos magros.
Uma roleta de ônibus, uma cadeira de um espaço público, a garupa de uma moto pequena… Semana passada entrei em uma loja de roupas plus size. Pensei, aqui vou encontrar espaços adaptados e roupas adequadas. Mas o provador era absurdamente pequeno e sem conforto. Questionei isso para a vendedora, que, mesmo concordando comigo, não tinha nenhum poder de criar uma arquitetura diferente ali. Saí de lá com a sensação de que mesmo que comercialmente falando fosse um nicho para pessoas obesas, essas mesmas pessoas não foram vistas, não foram enxergadas em suas reais necessidades.
E aí que entra a minha sensação paradoxal de que ser grande nesse nosso mundo é ser pequeno, quase inexistente, quase como um dado invisível ou colocado longe nos dízimos de um numeral não inteiro. Achei isso triste. E tristeza me leva àquela vagareza incompatível com a urgência do mundo.
Tenho procurado ressignificar minhas dores e tristezas e transformá-las em raiva. Porque a raiva faz mover, faz balançar as estruturas. A tristeza paralisa. Estou tentando olhar para algumas dores pontuais que me paralisaram na vida e dar a elas o benefício de se transformarem em raiva. Para aprender com essa emoção que é preciso reagir. Que é preciso ocupar o meu devido espaço. Nem de mais e nem de menos. Quem vai moldar esse espaço sou eu e a raiva pode me ajudar mais a criar esse espaço do que a tristeza. E quanto mais eu me familiarizar com a raiva, mais ela vai se tornar uma emoção presente no meu dia a dia e que me protegerá da violência do mundo e das pessoas.
E colocando isso em prática, estou com muita raiva dessa imposição de tempo para agir. Dessa desapropriação do sentir imposta por esse mundo cão. Estou com raiva dessa moldagem restrita de produtos para corpos que divergem da magreza irreal que tentam criar como padrão. Estou com raiva de quanto o capitalismo ganha com a insegurança das mulheres. Estou com raiva de como estou me sentindo culpada de estar aqui sentada escrevendo enquanto as contas vencendo estão me deixando com a sensação de que sou incapaz de gerenciar minha vida financeira e de produzir recursos para me manter, minimamente. Estou com raiva porque preciso pagar a conta do mundo e meu caixa está zerado de pressa e superficialidade. Então é isso: tenho o desafio de usar a raiva para sentir e agir em um mundo de urgência. A raiva movimenta. A tristeza paralisa.
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Michelle, ao ler suas palavras eu me vi refletido nelas. Também sinto esse conflito entre meu tempo interno e a urgência do mundo, e sei como é doloroso se perceber invisível em espaços que deveriam acolher. Sua forma de transformar tristeza em raiva me inspira, porque mostra que existe força até nas dores. Obrigado por compartilhar — seu texto me lembra que ocupar nosso espaço é um ato de coragem. Abraços e beijos!
Michele, seu texto, aliás muito bem escrito, possui uma densidade temática, eu diria, impressionante... mexe e remexe na consciência do leitor.
Esse estado de contradição, incoerência ou desarmonia, em que as partes não se encaixam e geram situações, falas ou comportamentos incompatíveis, a meu ver, tem um peso filosófico considerável.
De forma tão profunda, você trabalha a incongruência que o leitor percebe o mergulho que você faz em direção a si mesma, ao mostrar, na volta à tona, um desalinhamento entre o eu real e o eu ideal, deixando transparecer baixa autoestima e insegurança. Seu texto revela uma escritora corajosa e amadurecida.
Gostei da antítese que você constrói entre tristeza e raiva: a tristeza é estática, enquanto a raiva é…
Parabéns pelo texto! A raiva nos levará a refletir algo, que às vezes não percebemos. Quando estamos com esse sentimento ele nos impulsiona a ações de mudanças.
A maneira como você desenvolveu o tema foi incrível, trouxe uma perspectiva diferente e interessante. Me prendeu do início ao fim. Parabéns!
Querida Michelle, é atribuída a Saramago a afirmação de que "escrever é uma transfusão de sangue para o lado de fora". Seu texto visceral me remeteu a esta analogia. Eu também acredito que a raiva é um ótimo sentimento para nos impulsionar à ação, desde que bem dosada. Uma 'overdose de raiva' também é capaz de estagnar ou levar a ações precipitadas. Usando da dose certa, concordo com você, pode fazer bem. Um abraço fraterno!