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QUANDO O CINEMA VIRA ESPELHO

  • Foto do escritor: CARLA KIRILOS
    CARLA KIRILOS
  • há 3 dias
  • 3 min de leitura

Março sempre me lembra duas coisas: o outono chegando devagar e a temporada do Academy Awards — o nosso querido Oscar, para quem, como eu, é fã de cinema.


É o mês em que minha paixão antiga por livros e filmes ganha uma intensidade quase adolescente. Organizo agenda, faço listas, leio críticas, comparo roteiros com adaptações literárias, marco frases como quem sublinha a própria vida. Cinema, para mim, nunca foi apenas entretenimento; é lente de análise da existência.


E você? Já assistiu aos indicados deste ano? Já viu Marty Supreme? Ou Uma Batalha Após a Outra? Ou ainda o brasileiro O Agente Secreto?


Este ano, mais uma vez, cumpri um pequeno ritual pessoal: assistir a todos os filmes que concorrem à estatueta. Todos. Sem exceção. Alguns me tocaram pela estética, outros pela densidade política, outros pela delicadeza narrativa.


Uma Batalha Após a Outra foi, sem dúvida, o meu favorito. Saí do cinema com aquela sensação rara de ter presenciado algo que conversa com o espírito do tempo sem ser panfletário, que provoca sem gritar. Um filme que respeita a inteligência do espectador.


O brasileiro O Agente Secreto também me agradou. Há méritos claros ali — narrativa consistente, tensão bem construída, atuações seguras. Gostei, sim. Porém, sendo honesta, vi outros mais potentes nesta temporada.


Mas, no entanto, decidi escrever sobre outro. Decidi escrever sobre Marty Supreme.


Curioso como funciona o critério do que nos move à escrita. Nem sempre é o que mais gostamos. Às vezes é o que mais inquieta.


Marty Supreme — estrelado por Timothée Chalamet e inspirado na figura real de Marty Reisman — não é apenas um filme sobre esporte. É um filme sobre vencer. E, principalmente, sobre o preço de vencer.


Ele nos coloca diante de perguntas que raramente aparecem nas cerimônias glamorosas de premiação:


Até onde vai o desejo pelo sucesso? Quais concessões são estratégicas — e quais são morais? Existe linha clara entre ambição e oportunismo? Entre marketing pessoal e manipulação?


Vivemos uma época obcecada por performance. Métricas. Rankings. Engajamento. Crescimento exponencial. O verbo “vencer” ganhou status de virtude absoluta. Mas o filme desloca o foco da vitória para o método. Não pergunta apenas quem venceu — pergunta como venceu.


E é aqui que o cinema deixa de ser tela e passa a ser espelho.


Há filmes que entretêm. Há filmes que impressionam. E há filmes que revelam.


Quando o cinema vira espelho, ele deixa de ser apenas narrativa e passa a ser confronto.


A sala escura já não é fuga — é exposição. A história na tela começa a dialogar silenciosamente com a nossa própria história. Não estamos mais avaliando apenas roteiro, fotografia ou atuação; estamos sendo avaliados pelas perguntas que o filme nos devolve.


Marty Supreme faz exatamente isso.


Porque, no fundo, todos queremos vencer alguma coisa.


Queremos reconhecimento. Queremos relevância. Queremos que nosso esforço seja visto.


Mas quando o cinema vira espelho, ele revela as pequenas concessões que normalizamos, os atalhos que justificamos, as narrativas que criamos para tornar aceitáveis decisões moralmente ambíguas.


O espelho não acusa. Ele mostra.


E talvez seja por isso que a pergunta bíblica ecoe com tanta força, atravessando séculos e permanecendo atual: “Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?” (Marcos 8:36)


O cinema, quando é apenas espetáculo, termina nos créditos finais.


Mas quando vira espelho, ele continua depois que as luzes se acendem.


Ele nos acompanha até o carro. Até a mesa do jantar. Até as decisões silenciosas da segunda-feira. As luzes da sala se acendem.


Os créditos sobem. As estatuetas encontram suas prateleiras.


Mas há filmes que continuam projetando imagens dentro de nós.


E talvez a verdadeira premiação não aconteça em Hollywood, mas nas decisões discretas que tomamos quando ninguém está olhando.


Porque, no fim, não é sobre quem leva a estatueta. É sobre quem permanece inteiro quando as luzes se apagam.


Há vitórias que brilham no palco. E há vitórias que preservam a alma. E estas — quase sempre — não aparecem na televisão.







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14 comentários

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há 12 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Carla, esse seu texto me pegou de jeito — ao ler sobre Marty Supreme como espelho das minhas próprias corridas por likes e promoções, parei pra pensar nas concessões que faço no dia a dia, justificando “estratégias” que, no fundo, custam pedaços da minha integridade. Soco no peito! Excelente texto para reflexão. Abraços, José Paulo

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Convidado:
há um dia
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que reflexão poderosa! Sua conexão entre Marty Supreme e a citação bíblica de Marcos 8:36 transforma um filme sobre ping-pong em uma lição universal sobre o custo da ambição — cinema como espelho é uma metáfora brilhante. Parabéns, Carla! Brilhou!

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Michelle MKO
há um dia
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Uau! Que texto maravilhoso! Que olhar sensível sobre como a sétima arte nos atravessa e dialoga com nossas memórias! As luzes se acendem e o filme continua sendo projetado em nossas almas. Estou inebriada pelo seu texto!

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Convidado:
há 2 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Querida Carla,

Aproveito este momento em que a casa silencia, para comentar sua interessante narrativa neste Blog, pautada nos filmes e seus efeitos sobre nós.

Me tocou profundamente as suas colocações, de maneira positiva e realista. Ao término de um filme, buscamos voltar a nossa realidade e levamos conosco , ou não para alguns, as mensagens e imagens que fizeram mais sentido para nós.

Dos filmes que citou, já tive a oportunidade de assistir dois deles. Ja que falamos de bons filmes e premiações, eu sugiro outros dois : “Valor sentimental” e “ Hamnet, a vida antes Hamlet”, porque ambos mostram a influência sagrada e responsável dos adultos sobre as crianças, além de outras mensagens maravilhosas de seus diretores …

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Convidado:
há um dia
Respondendo a

Excelentes as suas sugestões também. Gostei muito dos 2. Obrigada por suas palavras. Beijocas, Carla

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Eliane Souza
Eliane Souza
há 2 dias
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Adorei a ideia do cinema como espelho! É verdade que alguns filmes nos fazem pensar muito além da tela, nos confrontando com questões importantes sobre a vida e nossas escolhas. "Marty Supreme" parece ser um filme que vale a pena assistir.

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