TRAJETÓRIA DE UMA NARRATIVA


"O Menino Que Via As Mulheres,"quando bati meus olhos neste título de livro, pensei:
- Deve ser um adolescente. Nessa faixa etária de vida, os meninos ficam curiosos para ver o corpo nu das mulheres.
Nada disso, um enigma sobrenatural, um momento difícil em que muitos dizem ser um espírito que baixa na pessoa, ela entra em transe. Logo, vê fenômenos paranormais. André, o personagem protagonista, via mulheres de todos os tipos, todas as idades sendo torturadas de tal forma que gritavam, gemiam sem receber nenhum socorro. Uma situação tão lacrimogênica jamais imaginada pela mente humana. Mas, muitos casos são reais, possíveis a olho nu nos dias de hoje.
A essa altura da história, afirmo sem medo de errar, a criatividade é o elemento crucial para escrever uma excelente narrativa.
O enredo traçado em duas linhas paralelas, ora retas ora curvas, aponta o destino de André e de Sophia. Não acredito muito em destino, mas a gente usa, é bem poético. E a poesia está em tudo, até mesmo em uma folha de papel em branco. O segredo é que a poesia está é dentro do poeta. Nosso autor tem de sobra.
Os dois personagens principais, André e Sophia, ainda adolescentes, construíram suas histórias juntos, trilhando dois caminhos de sucesso ao mesmo tempo. Caminhos estes que todo mundo sonha e deseja percorrer. A profissão que traz o sustento durante toda vida e a pessoa amada, aquele amor que aflora na adolescência e não morre.
Para isso, tiveram que sofrer, lutar e perseverar. Eles se conheceram na dor e na caridade. André vê um filhote de Coruja prestes a morrer, abandonado após uma terrível tempestade que derrubou seu ninho e sua mãe desapareceu. Ele se compadeceu dele, o agasalhou entre seus braços, levando para sua casa. Passou pela casa de Sophia para pedir água. Ali, naquele momento, se inicia um amor verdadeiro e duradouro. O destino, talvez.
Não demora, veio a tragédia, o acidente. André faz o parto de sua mãe, fato quase impossível na vida real. Na história aconteceu. O capítulo mais sensível e estranho do romance. Muita loucura! Nem assim deixa de ser irreal. Daí pra frente surge o sucesso de André e de Sophia. Todo mundo queria conhecer aquele garoto que salvou sua mãe, ajudando-a parir. Há mal que vem para o bem, um passo dado para uma vida abundante. André e Sophia foram parar na TV, nas redes e nas rádios, entrevistas e porque não dizer muita grana. O menino pobre criado sem a presença do pai.
André e Sophia, dois adolescentes dóceis e muito educados que se uniram pelo amor, amor por muito tempo invisível. Sua mãe ficou internada em um coma profundo. Estratégia do autor que a segurou lá para assegurar o leitor no decorrer de sua leitura.
- Será que ela vai sair do coma ou vai morrer?
Vale lembrar, também, Dona Márcia, personagem secundária de extrema sabedoria e bondade, tomou a guarda de Andreia e de André, evitando um trauma na vida dos dois. E os cuidava com muito carinho, uma legítima mãe. A pequena Andreia, a flor da narrativa, beleza e alegria de todos. Ao mesmo tempo, objeto de disputa ao olho gordo das tias e da madrasta. Elas queriam era dim - dim.
O narrador, a corujinha observadora e também personagem, foi construído na narratividade em forma de diálogo. Para mim, é a parte mais poderosa da linguagem, a vida e a participação dos personagens na história. Logo penso, os personagens é quem narram os fatos de uma forma legal e prazerosa. Estilo de Jorge Amado no Livro Tieta do Agreste. É chamativo e a leitura não é cansativa.
Enfim, uma escrita que valoriza os personagens na voz, valores, espaços e vivências e que muitas vezes não se assemelham com o perfil da sociedade na vida real.
O autor dessa obra de arte, José França, foi meu professor de literatura. Esquisito até, eu e França temos quase a mesma idade. É porque não desisto daquilo que amo, ler e escrever mesmo na velhice.
Parabéns, França, seu livro é sucesso, estou amando.



Comentários