AS RAÍZES VERDE-AMARELAS DE THOMAS MANN
- ILMA PEREIRA

- há 2 dias
- 3 min de leitura
Fofocas literárias, mas… edificantes e que só lhe farão bem.
A fofoca de hoje me surpreendeu realmente. Segue o fluxo e se surpreenda também.

Não é segredo pra ninguém que sou uma devoradora de livros desde a infância. Conto nos dedos de uma das mãos os livros que não consegui concluir. Um deles é o famoso “A montanha mágica” de Thomas Mann. Por duas vezes tentei, mas não consegui subir a montanha de quase mil páginas.
“Se quer ir rápido, vá sozinho. Se quer ir longe, vá em grupo.” Esse provérbio africano me deu a solução. E eis que um dos clubes de leitura do qual participo, “O ato de ler”, topou não só subir como desbravar “A montanha mágica” comigo.
Mas aí é que vem a surpresa. Ao pesquisar sobre o autor, descubro que o alemão Thomas Mann, um dos escritores mais aclamados não só na Alemanha mas em todo o mundo, era filho de uma brasileira.
Júlia Mann nasceu em Paraty - RJ, mas aos 7 anos a família se mudou para a Alemanha. Possuía uma sensibilidade distinta, um temperamento marcado por certa leveza e imaginação que contrastava com o ambiente burguês e disciplinado de Lübeck, onde se casou e nasceu Thomas Mann, em 1875.
Mann reconheceu essa influência ao dizer que algo essencial veio de sua mãe, que devia ao “sangue brasileiro” uma clareza de estilo e um espírito menos rígido do que o alemão tradicional. O impacto de Júlia na vida dos filhos é inegável. Ela foi uma mãe atenciosa, com uma profunda sensibilidade e um amor por contar histórias, algo que certamente influenciou o desenvolvimento literário de seus filhos.
A morte do pai, Heinrich Mann, em 1891, levou à liquidação da firma da família, pois o jovem Thomas não tinha nenhuma inclinação para os negócios. Os Mann então deixaram Lübeck e se mudaram para Munique, centro cultural e intelectual da época. Sua mãe, Júlia, vira uma agitadora cultural, promovendo saraus literários e festas em sua casa.
Thomas Mann, em particular, foi profundamente marcado pela dualidade cultural de sua mãe. O exotismo e o contraste entre as tradições alemãs e a “outra realidade” que sua mãe representava — o Brasil tropical e vibrante — são temas recorrentes em sua obra. A fusão dessas influências é clara em seus romances, especialmente em Os Buddenbrooks, obra que lhe garantiu o Prêmio Nobel de Literatura em 1929.
Mas Os Buddenbrooks gerou críticas de familiares que perceberam se tratar de uma crítica à sociedade de Lübeck, sua cidade natal. Um tio se referiu a Thomas como “um pássaro que emporcalhou o próprio ninho”.
Sua obra se tornou um espelho incômodo, pois retrata as transformações da Alemanha e da Europa entre o fim do século XIX e as guerras mundiais, como nos conta o enredo de “A montanha mágica”.
Foi por causa do sucesso deste livro que Thomas Mann foi indicado pela segunda vez ao prêmio Nobel de Literatura.
A história de Júlia da Silva Bruhns, ou Júlia Mann, é um exemplo fascinante de como as raízes culturais e as experiências de vida de uma pessoa podem ter um impacto profundo nas gerações futuras. Sua vida entre dois mundos, entre o Brasil tropical e a Alemanha conservadora, é uma história de resistência, adaptação e inspiração. Através de seus filhos, especialmente Thomas, o legado de Julia deixou uma marca indelével na literatura mundial, refletido nas obras que moldaram a literatura do século XX.
Eu não sei vocês, mas é claro que depois de saber de suas raízes brasileiras, dessa vez, conseguirei subir essa montanha e celebrar o magnífico autor que foi Thomas Mann.



Sabendo da fofoca, fiquei tentada a subir a montanha também!
Que fofoca maravilhosa! Amei saber disso, ainda mais com esse texto primoroso. Parabéns!
Depois de ler essa fofoca fascinante sobre a vida dessa família, com certeza me sinto ainda mais motivado a subir essa montanha com o Ato de Ler! Obrigado por esse relato incrível, Ilma!