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ENTRE OS MITOS POLÍTICOS E OS AMORES DESORDENADOS: O QUE GOVERNA NOSSAS ESCOLHAS?

Foto do escritor: TEREZINHA ARAÚJO
TEREZINHA ARAÚJO
há 1 dia
6 min de leitura

APRENDENDO COM AGOSTINHO E FREUD


No momento estou lendo, estudando Confissões (Agostinho) e O Mal Estar na Cultura (Freud). 


A princípio pode parecer leituras que não conversam, mas tenho visto muita convergência, principalmente se trazemos para o momento atual de disputa eleitoral, veja se concorda comigo.


Em Confissões, Santo Agostinho nos conduz a um encontro com aquilo que nem sempre queremos reconhecer: nossas contradições, nossos desejos e as motivações que se escondem por trás de nossas certezas. Agostinho empreende uma viagem para dentro de si. Ao narrar sua trajetória, não procura apenas recordar acontecimentos, mas interrogar os desejos, as inquietações e as contradições que marcaram sua existência. Seu olhar volta-se para aquilo que, embora faça parte de si, nem sempre se apresenta de maneira clara à consciência. É um exercício de reconhecimento: olhar para dentro exige coragem, sobretudo quando o que encontramos não corresponde à imagem que construímos de nós mesmos. (Recomendo muito a leitura desse livro apaixonante)


Séculos depois, Freud, em O Mal-estar na Cultura nos confronta com os conflitos que atravessam a vida humana em sociedade. Não somos movidos apenas pela razão. Nossas escolhas também carregam afetos, frustrações, hostilidades e desejos que nem sempre reconhecemos.


A NECESSIDADE DE ACREDITAR


Buscamos pessoas e causas nas quais possamos depositar esperanças, especialmente quando a realidade nos parece insatisfatória ou quando desejamos mudanças que não conseguimos realizar individualmente.


A política oferece um espaço privilegiado para essa busca. Uma figura pública pode representar a promessa de justiça, segurança, prosperidade ou transformação. O candidato deixa de ser percebido por suas propostas e passa a simbolizar, aquilo que nós desejamos para o país ou o que queremos acreditar.


O problema não está em admirar alguém, ter convicções ou sustentar uma esperança política. A questão surge quando a admiração impede o pensamento crítico, quando a fidelidade a uma pessoa se torna maior que o compromisso com os princípios que afirmamos defender.


Freud nos ajuda a pensar a identificação com o líder e os laços que unem pessoas em torno de um ideal. Quando essa identificação se torna intensa, questionar aquele em quem acreditamos pode significar questionar uma parte de nós mesmos.


FREUD E O MAL-ESTAR DE VIVER EM SOCIEDADE


Em O mal-estar na Cultura, Freud examina os conflitos inerentes à vida em sociedade. A convivência exige limites, renúncias e negociações entre nossos desejos e as exigências da vida coletiva. A civilização não elimina a agressividade nem resolve definitivamente as tensões humanas; procura estabelecer condições para que possamos viver juntos apesar delas.


Essa reflexão ajuda a compreender por que os conflitos políticos podem adquirir tamanha intensidade afetiva. As divergências não dizem respeito apenas a diferentes interpretações da realidade ou a projetos distintos de sociedade. Podem envolver sentimentos de ameaça, frustração, ressentimento e hostilidade. Podemos entender até como uma reação ao desamparo.


Em Psicologia das massas e análise do eu, Freud aprofunda os processos de identificação e os vínculos que se formam em torno de um líder ou de um ideal compartilhado. A identificação participa da construção dos laços coletivos e pode fortalecer o sentimento de pertencimento.


Entretanto, quando a ligação afetiva com um líder se torna central para a identidade de alguém, questioná-lo pode ser vivido como uma ameaça pessoal. Admitir um erro do candidato pode significar reconhecer que nossa escolha também pode ter sido equivocada. A crítica deixa de ser examinada pelo seu conteúdo e passa a ser percebida como um ataque.


Assim, o debate corre o risco de perder sua função de confronto entre ideias e se transformar em uma disputa pela preservação das próprias certezas.


O ORGULHO DE TER RAZÃO


Retomando Agostinho. O exame de si mesmo nos coloca diante de uma dificuldade fundamental: reconhecer que nossas motivações nem sempre são tão nobres, coerentes ou conscientes quanto gostaríamos de acreditar.


É relativamente fácil identificar a vaidade, a intolerância e as contradições de quem pensa diferente. Mais difícil é admitir que esses mesmos elementos podem estar presentes em nossas próprias atitudes. Podemos defender a justiça e agir de maneira injusta; afirmar que valorizamos o diálogo e recusar a escuta; condenar a intolerância do adversário enquanto tratamos suas opiniões com desprezo.


O orgulho pode se manifestar justamente nessa resistência a reconhecer os próprios limites. Não se trata apenas de querer ter razão, mas de precisar estar certo para preservar a imagem que fazemos de nós mesmos.


Na polarização, essa dificuldade ganha uma dimensão coletiva. O grupo ao qual pertencemos confirma nossas crenças, fortalece nossa identidade e nos oferece a sensação de que estamos do lado correto. Reconhecer as contradições do próprio grupo pode ameaçar esse pertencimento. Torna-se mais confortável justificar os erros dos nossos e destacar os erros dos outros.


Mas uma convicção que não admite questionamento corre o risco de se tornar uma certeza protegida contra a realidade.


QUANDO NOSSOS AMORES PERDEM A MEDIDA


É nesse ponto que a reflexão de Agostinho nos conduz para além da política e da própria psicologia das identificações. A questão não é apenas o que desejamos, mas o lugar que cada objeto de desejo ocupa em nossa vida.


Nas Confissões, encontramos a imagem de um coração inquieto que busca repouso em Deus. Essa inquietação revela algo fundamental da condição humana: procuramos um bem capaz de dar unidade e sentido à nossa existência. Entretanto, podemos buscar esse bem em lugares que, por sua própria limitação, não conseguem nos oferecer aquilo que esperamos.


A tradição agostiniana nos permite pensar os amores desordenados: não necessariamente amamos coisas ruins, mas podemos amar bens legítimos de maneira desordenada, atribuindo-lhes um lugar que não lhes pertence.


Amar a pátria, desejar justiça, comprometer-se com a vida pública e admirar pessoas são possibilidades legítimas. O problema começa quando esses bens limitados ocupam o lugar do bem supremo; quando um líder se torna, simbolicamente, um salvador; quando a vitória política passa a justificar qualquer atitude; quando a defesa de uma causa se sobrepõe ao compromisso com a verdade.


Deus é o nosso telos, nosso fim último. É nele que nossos amores encontram sua medida e sua ordenação. Isso não significa abandonar o mundo, a política ou nossas responsabilidades, mas reconhecer que nenhum bem terreno pode ocupar o lugar de Deus.


Talvez, então, a necessidade de transformar líderes em mitos revele também nossa dificuldade de reconhecer os limites daquilo que é humano. Depositamos em pessoas e projetos expectativas de plenitude que eles não podem realizar. Esperamos que a política resolva não apenas problemas sociais concretos, mas também nossas inquietações mais profundas.


A fé cristã nos convida a outra direção: participar da vida pública sem fazer dela um absoluto; defender convicções sem transformar adversários em inimigos absolutos; desejar a justiça sem imaginar que um governante humano seja capaz de encarnar a perfeição.


O QUE GOVERNA NOSSAS ESCOLHAS?


Agostinho nos convida a voltar o olhar para dentro. Freud nos ajuda a compreender que a razão não governa sozinha nossas escolhas e que os vínculos coletivos também são atravessados por desejos e conflitos inconscientes.


 A fé cristã acrescenta uma pergunta sobre a direção última de nossos amores: a que bem estamos entregando o centro de nossa vida?


Talvez precisemos de referências, mas não de figuras infalíveis; de ideais, mas não de certezas imunes à crítica; de pertencimento, mas não à custa da capacidade de pensar.


Uma democracia depende de instituições, participação e escolhas políticas conscientes. Depende também da possibilidade de discordar sem transformar o outro em inimigo e de rever posições sem experimentar isso como uma derrota pessoal.


Em tempos de eleições, além de perguntar quem deve governar o país, talvez precisemos perguntar o que governa nossas próprias escolhas.


E, num plano ainda mais profundo, vale perguntar: quando nossas esperanças políticas se tornam absolutas, que lugar ainda reservamos para Deus?


Talvez o exame de nossas escolhas comece justamente aí: reconhecendo nossas contradições, colocando nossos amores em perspectiva e admitindo que nenhum líder, partido ou projeto político pode ocupar o lugar do bem supremo, o Senhor JESUS.


o coração humano não encontra seu repouso definitivo no poder, no reconhecimento ou na vitória sobre o adversário. Seu destino último está em Deus. E é a partir dessa ordenação que também podemos aprender a amar o mundo sem transformá-lo em absoluto.


E se, antes de perguntar quem deve governar o país, perguntássemos o que governa nossas próprias escolhas?


Talvez precisemos menos de mitos e mais de discernimento; menos de certezas inquestionáveis e mais de coragem para reconhecer nossas contradições.


Porque uma sociedade não se transforma apenas pela escolha de seus governantes. Também se transforma quando seus cidadãos se dispõem a pensar, questionar e rever a si mesmos.







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