HIATOS E ENTREPONTOS

Não poucas vezes, confesso que a página em branco me assusta por espelhar o vazio que sinto ante o desejo ou a pretensão de escrever. Nem sempre há uma ideia predefinida, ou um grito reprimido pressionando para que o expresse.
Nesses hiatos de inspiração, a sensação é de que, definitivamente, a fonte secou. Não há mais versos, crônicas ou histórias a serem criadas. Chega a dar um pouco de aflição. Mas certo alívio vem ao relembrar as vezes em que textos não planejados surgiram em meio ao vazio, trazendo uma surpreendente alegria.
Na canção Hole In My Soul, a banda Aerosmith oferece uma boa imagem para o hiato criativo: o “buraco na alma”, mas também traz um conforto: não despreze os seus rascunhos!
“Sim, há um buraco na minha alma, mas se tem uma coisa que eu aprendi foi que para cada carta de amor escrita, há outra queimada.”
Ainda que o tema central da canção não seja o vazio gerado pela falta do que escrever, é exatamente essa a sensação que me possui após a publicação de um livro ou de mais uma crônica aqui nas páginas do Bendita Existência. Sempre me vem um certo temor – e uma quase certeza – de que foi a minha última aventura. No entanto, esse sentimento é mais forte quando se trata dos poemas. Depois de uma epifania de escrita, tendo a acreditar que escrevi os últimos versos.
E o que me resta quando me faltam as palavras? Faço o que considero mais importante: leio outras obras, sejam clássicas ou contemporâneas.
Ler as histórias e poemas que outros deixaram me alimenta, inspira e expande os significados do meu existir. Considero mais importante ouvir do que falar, da mesma forma que ler é mais rico do que escrever. Enquanto ouço uma canção ou leio um bom texto, também aprendo e sou levado a refletir sobre o que, até então, não havia parado para pensar. Estando bem alimentado, com meus vazios preenchidos, meu olhar volta a estar aguçado e atento para se espantar com o mundo que me cerca.
“O que de mim apareceé o que dentro de mim Deus tece.”
(Jorge Vercilo e J. Velloso)
Acho bonito esse verso da canção O que Eu não Conheço, lindamente interpretada por Maria Bethânia. Mas a canção inicia com uma verdade intrigante: “O mais importante do bordado é o avesso; o mais importante em mim é o que eu não conheço.”
Concordo que, por vezes, é o avesso que aparece naquilo que tento escrever. Nem sempre consigo apresentar a beleza do bordado, mas sim as indagações, a fé vacilante, as decepções com os rumos da humanidade ou o inconformismo com os meus desejos frustrados. Mas há um mistério nos entrepontos desse avesso que traz reflexões e a esperança de que, visto do outro lado, se revele a poética pretendida.
Não há como ignorar os gatilhos que podem gerar bons e inesquecíveis textos – a frase solta numa conversa aleatória, uma canção tocada ao acaso, o poema lido sem compromisso, um desenho rabiscado num muro qualquer, a cena daquele filme bobo que nos emocionou numa tarde morosa. Quando capturados, podem vir a ser matéria-prima do ofício do escritor.
“E mais, que o mais perfeito rasurar valeu a pena,como esteve rasurado o primeiro originaldo mais lindo poema.”
(Oswaldo Montenegro)
A princípio, como na canção de Oswaldo Montenegro, as tantas rasuras contidas num texto são parte do processo de lapidação da pedra bruta. Outras vezes, como nos versos do Aerosmith, algumas versões irão para o fogo, simbolizando talvez a purificação das ideias.
Não quero desistir, mas acreditar que, ao fim, algo novo terá nascido e que, por algum mistério que não consigo decifrar, fará bem a algum leitor num momento oportuno e inesperado.
Finalizo esta crônica confessando estar imerso num hiato criativo que me tomou nos últimos dias, talvez na intenção de reivindicar para si o direito de ser o tema central neste fim de inverno, para então permitir que a primavera, com seu frescor e suas cores de renovação, traga uma lufada prosaica e poética ao meu espírito.




Jefferson ,
Todo artista passa por esses hiatos. Adélia Prado confessou que a poesia a "abandonou " por dez anos. Então, ocupamos nossas mentes e sigamos, a inspiração volta.
Abraço,
Ilma
Hiato criativo. Gostei dessa expressão. Ela substitui, em um formato erudito, aquilo que os jovens estão chamando de "ressaca literária" que pode ser de leitura e de escrita. Dos jovens, em muito casos, pode ser chamado de preguiça mesmo. Mas importante, depois de um tempo de muita produção, divulgação, cansaço, fadiga, ansiedade, afastar um pouco do processo, retirar o tempo sabático para recarregar as baterias, reativar as energias para, depois, retornar a carreira e dar continuidade as aividades.
Parabéns, Jefferson, pelo texto. (Quando eu demoro comentar um texto de algum colega meu, não se incomode, eu posso estar descendo as escadas deste hiato kkk.)
Um abraço.
É Isto nesmo Jefferson, o vazio dos vazios que por vezes precede a escrita é de matar. E a sensação de que cada obra é a última? Detesto. Mas o bonito de tudo é que basta um clique - um assunto interessante, um acontecimento inesperado, ou a chuva que cai - pra que as palavras jorrem. Eu, de cá, adoro o jorro das suas.😉😘
Parabéns por trazer uma escrita diferente. No início, você me surpreende e diz aquilo que já senti. "Nem sempre há uma ideia predefinida, ou um grito reprimido para que o expresse."Mas, as respostas dos colunistas foram fiéis e esta linha que citei mostra que a escrita necessita de algo para ser definida. E surge da alma. Se assim não fosse, passaríamos a vida toda escrevendo. Creio que já teria milhões de textos, livros etc. Não, escrevo quando me inquieto por: razão ou intuição. Sentimento ou momento. Memória ou história. Nem toda história convém. É preciso sentir...
Jefferson, acredito que quem respira literatura nunca vai deixar de criar, porque a criação se torna alimento para o próprio ato de respirar.
Namastê!