MEMÓRIA SINESTÉSICA: ECOS DA INFÂNCIA E NUVENS DA MATURIDADE
- MICHELLE MKO

- há 1 dia
- 5 min de leitura

Quando eu era criança e visitava a casa da minha tia Lila, me sentia em um paraíso. Ela tinha muitos LPs que giravam numa linda e compacta vitrola amarela e que preenchiam o ambiente com muita música gostosa. Muitas delas, inclusive, fazem parte da minha memória acústica que traz consigo um combo de sensações sinestésicas daquela época.
Sempre gostei muito de música, gostava de ficar quietinha apreciando as interpretações dos artistas, sentindo as emoções que as letras e melodias me causavam. Aliás, minha mãe me contava que certa vez, eu com apenas dois anos de idade, estava parada no meio da sala sozinha e quietinha e ela estranhou o meu comportamento e me perguntou o que eu estava fazendo. Segundo ela, tocava no rádio uma música de Nelson Ned - que ela não se lembrava qual, mas achava que era a música “Tudo passa, tudo passará” - e que eu olhei para ela e comentei: “que voz bonita, né?” Uma criança de dois anos de idade apreciando e degustando uma música em um momento bem intimista! E uma música de adultos, não uma voltada para o público infantil! Acho essa memória muito gostosa e muito representativa da minha essência. Acho que sempre fui assim. Uma pequena menina (pre)ocupada com questões prementes da vida e com questões existenciais. Na maior parte do tempo tensa e problematizando tudo. Mas a arte sempre foi - e continua sendo - o meu escape. Ora eu desenhava, ora eu criava histórias, ora eu ouvia e cantava músicas. Aliás, essa mesma tia conta que quando eu era muito pequena o cunhado dela me colocava sentada na palma da mão dele e me pedia para cantar a música do São Francisco de Assis. Essa memória de estar sentada na palma da mão de um adulto e cantando eu não tenho, mas acredito neste relato e recentemente reencontrei esse cunhado da minha tia e eles contaram novamente essa história. Já a música ainda vaga na minha memória: “coitadinho do São Francisco, tão pobrezinho, de pés descalços, pelo caminho”.
Ainda sobre memória, me lembro que quando eu era bem pequena fomos visitar uma ex-vizinha, a France. O filho dela mais velho, o Rodney, tinha um robô marrom que acendia luzes e se movia. Eu gostava desse robô porque me lembrava a música “Carimbador maluco (Plunct-plact-zum) interpretada por Raul Seixas e cujo clipe eu também assisti na casa da tia Lila. Mas, quando eu pedi para ver o robô, a ex-vizinha falou uma frase que me deu um nó na cabeça e que me fez questionar a confiança que eu tinha nela. Ela me respondeu que o filho dela tinha comido o controle com angu e que não podia me mostrar o brinquedo. Eu me lembro de olhar para ela com um misto de decepção e incredulidade. Mais tarde comentei com minha irmã mais velha que não gostava mais da France porque ela era mentirosa. Minha irmã me perguntou o que tinha acontecido e eu contei da justificativa que a vizinha me deu para não me mostrar o robô e que eu sabia que isso não seria possível por que como que o filho dela iria conseguir mastigar o controle e o comer, mesmo que misturado com angu? Minha irmã riu demais disso e me ridicularizou por ter levado ao pé da letra a expressão e me disse que isso queria dizer que o filho da France tinha perdido o controle, que o objeto estava desaparecido. Me lembro de olhar para minha irmã e me sentir desconfortável com o deboche dela e me senti frustrada de saber que os adultos usavam expressões que não faziam sentido para uma criança. Me senti muito mal com a postura da vizinha e com a da minha irmã também e ainda amargava a frustração de não ter podido brincar com o robô.
Há muitos anos existia um desenho animado que se chamava “O fantástico mundo de Bob”. O clássico mostrava a maneira como o personagem principal enxergava o mundo a partir do que ele ouvia e vivenciava. Acho que funciono assim. O recurso imagético para sons e palavras sempre me acompanhou. Por exemplo, quando eu ouvia a palavra janta, era como se abrisse um balão de fala no interlocutor e aparecesse uma banda de laranja. A associação imagino que deve ter sido motivada pela semelhança fonológica das palavras, porque laranjas não eram comuns de serem consumidas na janta, pelo menos na minha casa. Quando eu ouvia a expressão “filho da p…” o balão se abria e aparecia uma perna alaranjada, somente uma perna, sem o restante da pessoa. A perna era cabeluda, usava salto e tinha coxas grossas. Recentemente assisti ao maravilhoso e premiado filme brasileiro “O agente secreto” e qual não foi minha surpresa que a perna cabeluda também compunha o imaginário de uma cidade, muito embora o contexto da perna do filme seja diferente do contexto das minhas memórias.
Minhas memórias são muito sinestésicas: têm cheiros, sons, imagens, texturas e temperaturas. E sou lembrada por muitos como tendo uma memória muito peculiar. Lembro, por exemplo, de quando eu ainda engatinhava e que tinha uma mancha no piso do corredor do apartamento em que morávamos. Eu gostava de olhar para essa mancha e achar que era o Papai do Céu e ficava ali passando o dedinho na mancha. Isso era importante para mim. Era uma conexão espiritual que eu tinha ali. Também me lembro de quando eu, no colo da minha mãe, puxei a samambaia que ela tinha e o vaso caiu do alto do tripé. Lembro do cheiro da terra do xaxim tomando conta do ambiente e da minha mãe muito abalada com o acontecido, brigando comigo e pedindo desculpa à planta. Ela amava plantas. Quando um dia contei isso para minha mãe, ela se assustou e disse que eu não tinha como me lembrar daquilo porque eu tinha cinco meses, apenas. Mas não somente eu me lembro e sei que é uma memória minha, não de um relato externo, que posso ainda hoje sentir o cheiro da terra do xaxim, ouvir a dor da minha mãe e sentir as folhas ásperas da samambaia nas minhas mãos.
Ocasionalmente, minhas amigas de infância se reúnem e sempre pedem para eu participar dos encontros e contar os casos de situações que vivemos e das quais elas não se lembram mais. Esse ano fiz 46 anos e essas amigas de infância têm a mesma idade. Nós nos conhecemos desde os sete anos. Convivemos até o fim da nossa adolescência, mas depois acabamos nos afastando porque cada uma seguiu um caminho e os contatos passaram a ser mais esporádicos, como nos encontros nos dias de eleição, por exemplo. Depois de um tempo, com a facilidade das redes sociais, esse contato ressurgiu e encontros presenciais passaram a acontecer de tempos em tempos.
Em janeiro deste ano nos encontramos e elas sempre fazem questão de dizer da minha memória e brincam que têm medo de que eu registre tudo o tempo todo e de quando nós estivermos bem velhinhas eu não deixe de trazer relatos de situações constrangedoras vividas por nós. Aliás, na minha família sempre riram das minhas memórias também e falavam que eu me lembrava de quando estava no útero da minha mãe.
Mas o fato é que, agora, na perimenopausa, minhas memórias de eventos recentes têm vindo de uma maneira estranha, algumas vezes envoltas em nuvens que só me revelam parcialmente o episódio vivido. Faltam detalhes como o lugar onde aconteceu ou quem estava comigo, por exemplo. Espero que isso seja um efeito momentâneo porque curto ser uma pessoa atravessada por memórias, mesmo as ruins, porque sei que sou quem sou porque sou o resultado de experiências vividas, de memórias acumuladas, todas elas sinestésicas e repletas de sensações.
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Teu texto me fez perceber como a infância também deixou em mim uma música que nunca parou de tocar. Depois de te ler, isso nasceu em mim:
Prateleiras empoeiradas guardam músicas desgastadas que ainda tocam. Há musgo nas pedras da infância, pois aprendi, mesmo a contragosto, a colecionar durezas.
Minha infância canta hinos de saudade, apesar dos pesares. Descalça, ela calça os sapatos que ela mesma nomeou, entre bordados e nós.
Porque a memória não passa, ela ressoa. Em nós. Em todos nós.
Meus parabéns, Michelle! Quando o texto ressoa, a alma canta junto!
Michelle, minha amiga, que relato lindo! Muito obrigada por compartilhar conosco mais um pouco de você. É sempre um prazer ler suas recordações, que são relatadas de forma tão apaixonada e fascinada.
Continue nos agraciando com sua delicadeza. O coração, quentinho, agradece.
Acho incrível a sua memória, amo o fato de fazer parte das boas e afetivas lembranças. Sempre quis formar conexões e plantar boas lembranças com momentos de qualidade. Se pudesse passaria uma borracha nos seus maus momentos, para que eles não funcionassem como um chicote. Mas a Michelle é este caleidoscópio por tudo que passou. Que tudo seja combustível, não carga. Você sabe que te amo muito e que aqui sempre terá colo! Tia Lila te ama!
Que lindo texto!!! É sem dúvida peculiar, quase mágico, ter uma memória assim. Compartilho essa angústia que a perimenopausa nos traz. É assustador passar por isso. Porém, nos conforta ouvir relatos, porque as vezes temos a impressão que estamos ficando loucas 😆 Espero, assim como você, que seja um momento passageiro e que possamos sair dessa etapa fortalecidas. Gratidão por esse texto lindo!!!! 🙌🌷
Belo texto, Michelle!
Ter na memória tudo que vivênciou, quando era criança, são fatos que se tornam inesquecíveis. Que bacana você lembrar de cada detalhes vivenciado em sua infância. Parabéns por compartilhar essas lembranças.