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OS DESCONCERTOS DO MUNDO NA ARTE E NA LITERATURA E NA VIDA

  • Foto do escritor: JOSÉ FRANÇA
    JOSÉ FRANÇA
  • há 3 dias
  • 8 min de leitura

Atualizado: há 3 dias

UMA LEITURA DA OBRA “UM AMOR PARA RECORDAR”


A literatura, desde seus primórdios, tem se dedicado a explorar o lado antitético do mundo, revelando tensões, contradições e paradoxos que permeiam a experiência humana. Não se trata de novidade: poetas e dramaturgos como Camões, Sá de Miranda e Gil Vicente, cada qual a seu modo, souberam dar voz às inquietações de sua época, ora exaltando valores, ora questionando costumes, ora desnudando a fragilidade das certezas humanas. 



Em suas obras, o embate entre o ideal e o real, entre o sublime e o grotesco, entre a ordem e o caos, ganha corpo e se transforma em matéria estética. É nesse mesmo espírito que se inscreve a presente crônica literária, que pretende dialogar com essa tradição, retomando a temática da dualidade e da oposição como chave interpretativa para compreender não apenas a arte, mas também a própria condição humana.


Tanto na prosa, quanto na poesia e no teatro, esses escritores apresentaram narrativas e reflexões que levantam questões universais sobre as contradições do mundo. A literatura, sobretudo a romântica, tantas vezes marcada por finais felizes, nos faz perguntar: por que não deu certo? Eles mereciam isso? O que fizeram para merecer tal destino? O que é, afinal, o merecimento?


Ao lermos histórias como as de Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Paolo e Francesca, Eugênio e Margarida, Abelardo e Heloísa, Jivago e Lara, Jesus e Maria Madalena, Soror Maria Alcoforado e o conde de Chemillé, Eurico e Hermengarda, esses questionamentos retornam. Quantos amores verdadeiros foram destruídos? A fantasia se mistura à realidade, mas o certo é que há inúmeros amores não vividos, sentimentos perdidos e desperdiçados. Isso nos leva a pensar que a felicidade talvez não exista: é apenas uma sombra projetada na parede do inconsciente, como escreveu Platão no célebre Mito da Caverna.


Neste ponto, é inevitável evocar o extraordinário poeta português Luís Vaz de Camões, exemplo real de amores guiados pelo coração, mas proibidos pela sorte. Em seu polêmico poema Os desconcertos do mundo, ele escreveu:


       “Os bons vi sempre passar

No mundo graves tormentos;

E para mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.”

        

A pergunta permanece: por que com eles? Por que justamente eles? É questão de graça, ou da falta dela? De merecimento, ou da ausência dele? Estariam os deuses que criaram a arte do encontro distraídos quando essas almas nasceram ou encontraram suas metades? Ou seria apenas porque “as coisas são assim”? Talvez tenha sido o dia em que Vênus brigou com Poseidon, ou quando Jesus Cristo decidiu que, por mais que amasse Maria Madalena, o projeto do Pai era mais importante. Se abandonasse o plano divino, salvaria seu amor humano; mas ao sacrificar esse amor, salvou a humanidade.

       

Tudo é uma questão de pontos de vista: para aqueles que não foram tocados pelas mãos abençoadas da sensibilidade, o toque do campanário em um final de tarde de sábado, derramando solidão, é apenas um pedaço de bronze batendo com força contra outro. Para os que foram moldados na forja do mundo sensível, o som das campanas é um adeus supremo, a mais intensa expressão de um amor que nasceu, existe, não morreu, mas não pode ser realizado. Como disse o príncipe do simbolismo brasileiro, o poeta ouropretano Alphonsus de Guimaraens, que viveu em Mariana: mesmo casado com Zenaide, passou a vida inteira torturado pela perda do grande amor de sua vida, sua prima Constança, morta aos 13 anos, vítima de tuberculose. “E o sino chora em lúgubres responsos: Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”

       

Para tornar a reflexão mais pertinente diante da selvageria da realidade, é preciso recorrer à célebre poetisa e cronista Cecília Meireles, a “pastora de nuvens”. Em sua crônica O Raio e o Músico, ela comenta uma notícia real de jornal sobre um músico de banda (ou artista de rua) que, ao tocar em uma tarde de tempestade, foi atingido e morto por um raio.

       

A partir desse fato triste, Cecília desenvolve uma reflexão filosófica e melancólica sobre a injustiça da natureza e a ironia da vida. Questiona o “critério” do céu, lembrando que o mundo está repleto de pessoas egoístas, cruéis, gananciosas e más que seguem ilesas. Enquanto os perversos prosperam, o raio desaba justamente sobre um homem simples, cuja única ocupação naquele momento era soprar um instrumento musical para colocar beleza no mundo e “alegrar as tardes” das pessoas. Cecília lamenta a fragilidade humana: como a poesia e a doçura do artista são indefesas diante da brutalidade cega das forças da natureza e das garras do destino. Uma intertextualidade belíssima com o exemplo anterior do poeta luso.

       

Há dezenas de textos escritos sobre o livro Um Amor para Recordar. Existem várias leituras sobre a bela e triste história de Landon e Jamie — que no cinema foi vivida por Shane West e Mandy Moore — mas em nenhuma delas encontrei o verdadeiro sentido daquilo que sempre me trouxe impacto, indignação e interrogações profundas, como: por que eles se amavam tanto e não tiveram o direito de ser felizes? O que fizeram de tão errado para não poderem viver juntos? Se amavam de forma tão intensa, capaz de operar transformações na vida um do outro, por que não tiveram o direito de viver essa felicidade? Será a vida tão injusta, tão cruel para uns e generosa para outros? Ou será que, acostumados a finais felizes na literatura, sonhamos com eles, mesmo sabendo que a vida não tem final feliz?

       

Um Amor Para Recordar, de Nicholas Sparks, é um drama romântico ambientado na Carolina do Norte em 1958. A obra retrata a redenção de Landon Carter, um jovem rebelde que se transforma ao se apaixonar por Jamie Sullivan, uma garota bondosa, religiosa e cheia de virtudes, mas que, ainda na juventude, foi diagnosticada com leucemia.

       

O livro é narrado por Landon aos 57 anos, relembrando quando tinha 17 e vivia como um adolescente superficial e inconsequente. Sua vida muda ao ser obrigado a participar de uma peça teatral escolar, momento em que precisa da ajuda de Jamie. Ela é o oposto dele: filha do pastor da cidade, usa roupas discretas, carrega a Bíblia e dedica-se a cuidar de órfãos e animais feridos. A trajetória dos dois exemplifica o clássico tropo dos “opostos que se atraem”, revelando em Jamie valores como compaixão, empatia e generosidade.

       

O eixo central da narrativa é a redenção. Por meio do amor puro e incondicional de Jamie, Landon evolui de um garoto egoísta para um homem altruísta. A fé inabalável dela diante da doença funciona como motor emocional que dá sentido à própria vida e inspira Landon a amadurecer, realizando o maior sonho da jovem: casar-se na igreja antes de sua partida.

       

A história emocionou uma geração de leitores e abriu caminho para obras posteriores, como A Culpa é das Estrelas, de John Green, que também aborda o câncer na juventude. Até então, muitos acreditavam que a doença era um fardo exclusivo dos adultos. Sparks, ao retratar uma adolescente de 17 anos enfrentando a leucemia — um câncer no sangue —, trouxe uma “bofetada” de realidade que sensibilizou profundamente o público.

       

Entrelaçando literatura e cinema, Landon surge como um jovem sem rumo, com o nome gravado às margens de uma estrada que não levava a futuro algum. Sem princípios e sem respeito por si ou pelos outros, sua vida muda quando arte e amor se unem e lhe apresentam Jamie, a “mensageira” de fé e esperança. Criada pelo pai após perder a mãe cedo, ela conquista Landon e o guia para o caminho da transformação.

       

O amor, silencioso mas firme, impõe condições: para estar com Jamie, ele precisava mudar. Assim, Landon se reconstrói, costurando um novo tecido para o futuro, bordado com mistério, encanto e beleza. A reciprocidade se torna o fio condutor dessa relação. Jamie, alvo de bullying por sua postura recatada e firmeza de valores, encontra em Landon um defensor. Ele passa a protegê-la, mostrando que “quem ama, cuida”. O impacto dessa mudança surpreende os colegas: o que havia acontecido com o rebelde? Nada além de estar profundamente encantado pela jovem que lhe ensinou o verdadeiro significado do amor.

       

Quando a enfermidade se manifesta em Jamie, Landon se aproxima dela de forma gradual, mergulhando cada vez mais em seu universo. Antes que a doença se agravasse, ele já a auxiliava ativamente em seus projetos sociais. Um dos maiores sonhos de Jamie era construir um telescópio no quintal para observar as estrelas. Landon, com inteligência, dedicação e pesquisa, transforma esse desejo em realidade. Numa noite especial, conduz Jamie de olhos fechados até o quintal e lhe apresenta o aparelho que lhe permite contemplar o infinito: um céu magnificamente estrelado, onde se desenhava a dimensão do amor que ela carregava. Talvez Jamie não tenha percebido a ausência de uma estrela — aquela que, em seu corpo físico, não tinha permissão para permanecer, pois viera de lá e em breve retornaria. O amor pode ser infinito, mas a vida é limitada; o amor pode ser eterno, mas o corpo é efêmero.

       

Quando Landon descobre que Jamie tem leucemia e que a doença é terminal, sua vida se transforma ainda mais. Ao saber que o maior sonho dela era se casar na mesma igreja lotada onde seus pais haviam se unido, ele pede a autorização ao pai dela para realizar o casamento. A cerimônia acontece quando Jamie já está bastante debilitada. Ela caminha lentamente até o altar, mas com firmeza, dando origem ao título original da obra em inglês: A Walk to Remember — uma caminhada para recordar. Eles vivem um breve, porém intenso período como marido e mulher, até o falecimento de Jamie. Anos depois, já adulto, Landon revela que ainda usa sua aliança, mostrando que o amor e a transformação que ela trouxe permanecem eternos em sua vida.

       

A obra aborda temas como sacrifício, a força do primeiro amor e o poder transformador da fé. Embora seja uma narrativa trágica, seu verdadeiro foco é a celebração do amor — aquele que, uma vez vivido, permanece para sempre no coração de quem ama. Contudo, esta crônica também traz à tona o lado antagônico da existência, levantando questionamentos não para oferecer respostas, mas para provocar reflexão sobre aqueles que, mesmo tendo encontrado o amor verdadeiro, não tiveram a sorte de vivê-lo plenamente.

       

Esse dilema se aproxima do conceito de Maquiavel sobre política: alguns tiveram a sorte, mas não a fortuna. A felicidade esteve em suas mãos, mas logo bateu asas. Como diz o cancioneiro popular do norte do Brasil: “a felicidade é como passarinho, mal desponta a invernada, foge assustada e abandona o ninho.” Há também a célebre frase atribuída a Dom João VIII, dita à Princesa  Leopoldina, quando ela reclamava da infidelidade do marido: “Nascemos para ser reis, não nascemos para ser felizes.”

       

Por que Landon e Jamie, que se amavam tanto, não tiveram o direito de serem felizes? O que fizeram de tão errado para não poderem viver juntos? Se o amor deles era tão intenso a ponto de operar transformações profundas, seria a vida tão injusta e cruel com alguns e generosa com outros? Abelardo e Heloísa foram separados pela sociedade e pela religião. Mariana Alcoforado e Chemillé, pela fé. Jivago e Lara, pelas tradições e pela guerra. Eurico e Hermengarda, pelo destino.


As respostas não são simples. O que se pode compreender é que essas pessoas não vieram ao mundo para viver como os demais mortais. Vieram com uma missão: transformar vidas, salvar almas, inspirar pelo exemplo. Não eram apenas pessoas, eram anjos. Vieram para mostrar que o amor existe, mas nem sempre é destinado a ser vivido; às vezes, existe apenas como redenção, salvação e cura. Nesses casos, o que conhecemos por pessoas, na verdade, são castelos divinos onde ecoam rufares de asas de anjos e arcanjos, querubins e serafins. 

       

Jamie era um anjo guardião, e sua missão era salvar Landon. Assim que a missão se cumpriu, ela retornou ao seu lugar de origem. Deixou, porém, o telescópio, para que Landon, nas noites de saudade e solidão, pudesse olhar para o céu e buscar nela uma estrela de brilho único, ou imaginar anjos passeando entre constelações. Contemplando o infinito, talvez compreendesse que, assim como a imensidão não se mede, um grande amor também é imensurável.











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Maria Anésia
há um dia
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Oi França, seu texto tem conteúdo para uma excelente aula de literatura. Aliás, professor de literatura como você é, já fui sua aluna no Pré- vestibular, ler seus textos é aprender e muito. Como você tece uma intertextualidade sensacional em seu discusso escrito nascido de outras intertextualidades. Amei. Só que na condição de leitora, discordo da passagem em que você diz: " Quando Jesus Cristo decidiu que, por mais que amasse Maria Madalena, o projeto do pai era mais importante."Fico pensativa. Que tipo de amor é esse que desconheço. Na Bíblia só diz que Jesus salvou Maria Madalena do apedrejamento porque estava prostituindo, o que faria para qualquer pessoa. E também mostrar que todo mundo peca. "Quem não tiver pecado…

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
há 2 dias
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França, na primeira parte da leitura me lembrei de Macabéa, de A Hora da Estrela, da Clarice Lispector, que acaba vítima de uma tragédia logo depois de ouvir as melhores previsões de uma cartomante. E ao longo do seu desenvolvimento, fui levado a refletir sobre aqueles que nascem para serem agentes transformadores de outras vidas ou seres transformados pelo impacto de outras vidas. Geração após geração, esse ciclo se renova e se repete. Que louco isso! Matéria-prima de escritores! Parabéns pelo seu texto!

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Convidado:
há 2 dias
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Histórias que ultrapassam a vida dos personagens e atingem multidões, envolvem pessoas que vieram com uma missão, não entre elas, mas entre elas e a humanidade, porque são histórias que provocam reflexões sobre a vida e envolvem o despertar humano.

NAMASTÊ!

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RUBIA ARCE Admin Blog
RUBIA ARCE Admin Blog
há 3 dias
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Uma obra deveras brilhante! É muito bom ver o tecer dos seus pensamentos, José! E como os detalhes são costurados no seu passeio pelas palavras. Cada parágrafo surpreende e se abre para desenhar sua perspectiva. É de encher os olhos e o coração. Por que alguns amores são impedidos de acontecer? É uma boa pergunta. E quando você apresenta a hipótese do celestial, como anjos que passam pelas vidas das pessoas com uma missão, aí se torna maior.

Obrigada por tamanha entrega! 🌻

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José França
há 2 dias
Respondendo a

Muito obrigado, Rubia. Eu concordo quando você fala de entrega... Eu, particularmente, gostei deste texto, mas ele me deu muito trabalho... Não sei se pelas várias intertextualidades, ou se pela profundidade do assunto. Estava tentando fazê-lo desde junho, e não conseguia terminá-lo. Até que sábado, eu fiquei de 10h as 14h trabalhando nele e consegui fechá-lo.

Valeu. Eu amo seus comentários. Um abraço.

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