OS DESCONCERTOS DO MUNDO NA ARTE E NA LITERATURA E NA VIDA
- JOSÉ FRANÇA

- há 3 dias
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Atualizado: há 3 dias
UMA LEITURA DA OBRA “UM AMOR PARA RECORDAR”
A literatura, desde seus primórdios, tem se dedicado a explorar o lado antitético do mundo, revelando tensões, contradições e paradoxos que permeiam a experiência humana. Não se trata de novidade: poetas e dramaturgos como Camões, Sá de Miranda e Gil Vicente, cada qual a seu modo, souberam dar voz às inquietações de sua época, ora exaltando valores, ora questionando costumes, ora desnudando a fragilidade das certezas humanas.

Em suas obras, o embate entre o ideal e o real, entre o sublime e o grotesco, entre a ordem e o caos, ganha corpo e se transforma em matéria estética. É nesse mesmo espírito que se inscreve a presente crônica literária, que pretende dialogar com essa tradição, retomando a temática da dualidade e da oposição como chave interpretativa para compreender não apenas a arte, mas também a própria condição humana.
Tanto na prosa, quanto na poesia e no teatro, esses escritores apresentaram narrativas e reflexões que levantam questões universais sobre as contradições do mundo. A literatura, sobretudo a romântica, tantas vezes marcada por finais felizes, nos faz perguntar: por que não deu certo? Eles mereciam isso? O que fizeram para merecer tal destino? O que é, afinal, o merecimento?
Ao lermos histórias como as de Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Paolo e Francesca, Eugênio e Margarida, Abelardo e Heloísa, Jivago e Lara, Jesus e Maria Madalena, Soror Maria Alcoforado e o conde de Chemillé, Eurico e Hermengarda, esses questionamentos retornam. Quantos amores verdadeiros foram destruídos? A fantasia se mistura à realidade, mas o certo é que há inúmeros amores não vividos, sentimentos perdidos e desperdiçados. Isso nos leva a pensar que a felicidade talvez não exista: é apenas uma sombra projetada na parede do inconsciente, como escreveu Platão no célebre Mito da Caverna.
Neste ponto, é inevitável evocar o extraordinário poeta português Luís Vaz de Camões, exemplo real de amores guiados pelo coração, mas proibidos pela sorte. Em seu polêmico poema Os desconcertos do mundo, ele escreveu:
“Os bons vi sempre passar
No mundo graves tormentos;
E para mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.”
A pergunta permanece: por que com eles? Por que justamente eles? É questão de graça, ou da falta dela? De merecimento, ou da ausência dele? Estariam os deuses que criaram a arte do encontro distraídos quando essas almas nasceram ou encontraram suas metades? Ou seria apenas porque “as coisas são assim”? Talvez tenha sido o dia em que Vênus brigou com Poseidon, ou quando Jesus Cristo decidiu que, por mais que amasse Maria Madalena, o projeto do Pai era mais importante. Se abandonasse o plano divino, salvaria seu amor humano; mas ao sacrificar esse amor, salvou a humanidade.
Tudo é uma questão de pontos de vista: para aqueles que não foram tocados pelas mãos abençoadas da sensibilidade, o toque do campanário em um final de tarde de sábado, derramando solidão, é apenas um pedaço de bronze batendo com força contra outro. Para os que foram moldados na forja do mundo sensível, o som das campanas é um adeus supremo, a mais intensa expressão de um amor que nasceu, existe, não morreu, mas não pode ser realizado. Como disse o príncipe do simbolismo brasileiro, o poeta ouropretano Alphonsus de Guimaraens, que viveu em Mariana: mesmo casado com Zenaide, passou a vida inteira torturado pela perda do grande amor de sua vida, sua prima Constança, morta aos 13 anos, vítima de tuberculose. “E o sino chora em lúgubres responsos: Pobre Alphonsus! Pobre Alphonsus!”
Para tornar a reflexão mais pertinente diante da selvageria da realidade, é preciso recorrer à célebre poetisa e cronista Cecília Meireles, a “pastora de nuvens”. Em sua crônica O Raio e o Músico, ela comenta uma notícia real de jornal sobre um músico de banda (ou artista de rua) que, ao tocar em uma tarde de tempestade, foi atingido e morto por um raio.
A partir desse fato triste, Cecília desenvolve uma reflexão filosófica e melancólica sobre a injustiça da natureza e a ironia da vida. Questiona o “critério” do céu, lembrando que o mundo está repleto de pessoas egoístas, cruéis, gananciosas e más que seguem ilesas. Enquanto os perversos prosperam, o raio desaba justamente sobre um homem simples, cuja única ocupação naquele momento era soprar um instrumento musical para colocar beleza no mundo e “alegrar as tardes” das pessoas. Cecília lamenta a fragilidade humana: como a poesia e a doçura do artista são indefesas diante da brutalidade cega das forças da natureza e das garras do destino. Uma intertextualidade belíssima com o exemplo anterior do poeta luso.
Há dezenas de textos escritos sobre o livro Um Amor para Recordar. Existem várias leituras sobre a bela e triste história de Landon e Jamie — que no cinema foi vivida por Shane West e Mandy Moore — mas em nenhuma delas encontrei o verdadeiro sentido daquilo que sempre me trouxe impacto, indignação e interrogações profundas, como: por que eles se amavam tanto e não tiveram o direito de ser felizes? O que fizeram de tão errado para não poderem viver juntos? Se amavam de forma tão intensa, capaz de operar transformações na vida um do outro, por que não tiveram o direito de viver essa felicidade? Será a vida tão injusta, tão cruel para uns e generosa para outros? Ou será que, acostumados a finais felizes na literatura, sonhamos com eles, mesmo sabendo que a vida não tem final feliz?
Um Amor Para Recordar, de Nicholas Sparks, é um drama romântico ambientado na Carolina do Norte em 1958. A obra retrata a redenção de Landon Carter, um jovem rebelde que se transforma ao se apaixonar por Jamie Sullivan, uma garota bondosa, religiosa e cheia de virtudes, mas que, ainda na juventude, foi diagnosticada com leucemia.
O livro é narrado por Landon aos 57 anos, relembrando quando tinha 17 e vivia como um adolescente superficial e inconsequente. Sua vida muda ao ser obrigado a participar de uma peça teatral escolar, momento em que precisa da ajuda de Jamie. Ela é o oposto dele: filha do pastor da cidade, usa roupas discretas, carrega a Bíblia e dedica-se a cuidar de órfãos e animais feridos. A trajetória dos dois exemplifica o clássico tropo dos “opostos que se atraem”, revelando em Jamie valores como compaixão, empatia e generosidade.
O eixo central da narrativa é a redenção. Por meio do amor puro e incondicional de Jamie, Landon evolui de um garoto egoísta para um homem altruísta. A fé inabalável dela diante da doença funciona como motor emocional que dá sentido à própria vida e inspira Landon a amadurecer, realizando o maior sonho da jovem: casar-se na igreja antes de sua partida.
A história emocionou uma geração de leitores e abriu caminho para obras posteriores, como A Culpa é das Estrelas, de John Green, que também aborda o câncer na juventude. Até então, muitos acreditavam que a doença era um fardo exclusivo dos adultos. Sparks, ao retratar uma adolescente de 17 anos enfrentando a leucemia — um câncer no sangue —, trouxe uma “bofetada” de realidade que sensibilizou profundamente o público.
Entrelaçando literatura e cinema, Landon surge como um jovem sem rumo, com o nome gravado às margens de uma estrada que não levava a futuro algum. Sem princípios e sem respeito por si ou pelos outros, sua vida muda quando arte e amor se unem e lhe apresentam Jamie, a “mensageira” de fé e esperança. Criada pelo pai após perder a mãe cedo, ela conquista Landon e o guia para o caminho da transformação.
O amor, silencioso mas firme, impõe condições: para estar com Jamie, ele precisava mudar. Assim, Landon se reconstrói, costurando um novo tecido para o futuro, bordado com mistério, encanto e beleza. A reciprocidade se torna o fio condutor dessa relação. Jamie, alvo de bullying por sua postura recatada e firmeza de valores, encontra em Landon um defensor. Ele passa a protegê-la, mostrando que “quem ama, cuida”. O impacto dessa mudança surpreende os colegas: o que havia acontecido com o rebelde? Nada além de estar profundamente encantado pela jovem que lhe ensinou o verdadeiro significado do amor.
Quando a enfermidade se manifesta em Jamie, Landon se aproxima dela de forma gradual, mergulhando cada vez mais em seu universo. Antes que a doença se agravasse, ele já a auxiliava ativamente em seus projetos sociais. Um dos maiores sonhos de Jamie era construir um telescópio no quintal para observar as estrelas. Landon, com inteligência, dedicação e pesquisa, transforma esse desejo em realidade. Numa noite especial, conduz Jamie de olhos fechados até o quintal e lhe apresenta o aparelho que lhe permite contemplar o infinito: um céu magnificamente estrelado, onde se desenhava a dimensão do amor que ela carregava. Talvez Jamie não tenha percebido a ausência de uma estrela — aquela que, em seu corpo físico, não tinha permissão para permanecer, pois viera de lá e em breve retornaria. O amor pode ser infinito, mas a vida é limitada; o amor pode ser eterno, mas o corpo é efêmero.
Quando Landon descobre que Jamie tem leucemia e que a doença é terminal, sua vida se transforma ainda mais. Ao saber que o maior sonho dela era se casar na mesma igreja lotada onde seus pais haviam se unido, ele pede a autorização ao pai dela para realizar o casamento. A cerimônia acontece quando Jamie já está bastante debilitada. Ela caminha lentamente até o altar, mas com firmeza, dando origem ao título original da obra em inglês: A Walk to Remember — uma caminhada para recordar. Eles vivem um breve, porém intenso período como marido e mulher, até o falecimento de Jamie. Anos depois, já adulto, Landon revela que ainda usa sua aliança, mostrando que o amor e a transformação que ela trouxe permanecem eternos em sua vida.
A obra aborda temas como sacrifício, a força do primeiro amor e o poder transformador da fé. Embora seja uma narrativa trágica, seu verdadeiro foco é a celebração do amor — aquele que, uma vez vivido, permanece para sempre no coração de quem ama. Contudo, esta crônica também traz à tona o lado antagônico da existência, levantando questionamentos não para oferecer respostas, mas para provocar reflexão sobre aqueles que, mesmo tendo encontrado o amor verdadeiro, não tiveram a sorte de vivê-lo plenamente.
Esse dilema se aproxima do conceito de Maquiavel sobre política: alguns tiveram a sorte, mas não a fortuna. A felicidade esteve em suas mãos, mas logo bateu asas. Como diz o cancioneiro popular do norte do Brasil: “a felicidade é como passarinho, mal desponta a invernada, foge assustada e abandona o ninho.” Há também a célebre frase atribuída a Dom João VIII, dita à Princesa Leopoldina, quando ela reclamava da infidelidade do marido: “Nascemos para ser reis, não nascemos para ser felizes.”
Por que Landon e Jamie, que se amavam tanto, não tiveram o direito de serem felizes? O que fizeram de tão errado para não poderem viver juntos? Se o amor deles era tão intenso a ponto de operar transformações profundas, seria a vida tão injusta e cruel com alguns e generosa com outros? Abelardo e Heloísa foram separados pela sociedade e pela religião. Mariana Alcoforado e Chemillé, pela fé. Jivago e Lara, pelas tradições e pela guerra. Eurico e Hermengarda, pelo destino.
As respostas não são simples. O que se pode compreender é que essas pessoas não vieram ao mundo para viver como os demais mortais. Vieram com uma missão: transformar vidas, salvar almas, inspirar pelo exemplo. Não eram apenas pessoas, eram anjos. Vieram para mostrar que o amor existe, mas nem sempre é destinado a ser vivido; às vezes, existe apenas como redenção, salvação e cura. Nesses casos, o que conhecemos por pessoas, na verdade, são castelos divinos onde ecoam rufares de asas de anjos e arcanjos, querubins e serafins.
Jamie era um anjo guardião, e sua missão era salvar Landon. Assim que a missão se cumpriu, ela retornou ao seu lugar de origem. Deixou, porém, o telescópio, para que Landon, nas noites de saudade e solidão, pudesse olhar para o céu e buscar nela uma estrela de brilho único, ou imaginar anjos passeando entre constelações. Contemplando o infinito, talvez compreendesse que, assim como a imensidão não se mede, um grande amor também é imensurável.



Oi França, seu texto tem conteúdo para uma excelente aula de literatura. Aliás, professor de literatura como você é, já fui sua aluna no Pré- vestibular, ler seus textos é aprender e muito. Como você tece uma intertextualidade sensacional em seu discusso escrito nascido de outras intertextualidades. Amei. Só que na condição de leitora, discordo da passagem em que você diz: " Quando Jesus Cristo decidiu que, por mais que amasse Maria Madalena, o projeto do pai era mais importante."Fico pensativa. Que tipo de amor é esse que desconheço. Na Bíblia só diz que Jesus salvou Maria Madalena do apedrejamento porque estava prostituindo, o que faria para qualquer pessoa. E também mostrar que todo mundo peca. "Quem não tiver pecado…
França, na primeira parte da leitura me lembrei de Macabéa, de A Hora da Estrela, da Clarice Lispector, que acaba vítima de uma tragédia logo depois de ouvir as melhores previsões de uma cartomante. E ao longo do seu desenvolvimento, fui levado a refletir sobre aqueles que nascem para serem agentes transformadores de outras vidas ou seres transformados pelo impacto de outras vidas. Geração após geração, esse ciclo se renova e se repete. Que louco isso! Matéria-prima de escritores! Parabéns pelo seu texto!
Histórias que ultrapassam a vida dos personagens e atingem multidões, envolvem pessoas que vieram com uma missão, não entre elas, mas entre elas e a humanidade, porque são histórias que provocam reflexões sobre a vida e envolvem o despertar humano.
NAMASTÊ!
Uma obra deveras brilhante! É muito bom ver o tecer dos seus pensamentos, José! E como os detalhes são costurados no seu passeio pelas palavras. Cada parágrafo surpreende e se abre para desenhar sua perspectiva. É de encher os olhos e o coração. Por que alguns amores são impedidos de acontecer? É uma boa pergunta. E quando você apresenta a hipótese do celestial, como anjos que passam pelas vidas das pessoas com uma missão, aí se torna maior.
Obrigada por tamanha entrega! 🌻