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QUE BRASIL ESTAMOS CONSTRUINDO?

há 4 horas
4 min de leitura

Entre as decisões do presente e a responsabilidade pelo futuro.



Há sentimentos que nos inquietam porque revelam o quanto nos importamos. A eleição presidencial terminou, as urnas expressaram a escolha dos eleitores e o país inicia mais uma etapa de sua história política. Mas uma inquietação permanece: que Brasil estamos construindo enquanto nossas energias parecem tão concentradas nas disputas do presente?


Não escrevo para defender partidos, celebrar vitórias, lamentar derrotas ou questionar o resultado das urnas. Escrevo porque me preocupa um país que, com frequência, parece gastar mais energia na disputa política do que na construção de caminhos capazes de melhorar a vida da população.


A democracia pressupõe divergências. O problema começa quando o debate cede lugar à hostilidade, o adversário vira inimigo e a vitória passa a ser um fim em si mesma. Quantas conversas em família ou em grupos de mensagens terminam não porque as ideias se esgotaram, mas porque alguém deixou de ouvir?


Afinal, poder para quê? E a serviço de qual projeto de país?


Quando a disputa ocupa o lugar do propósito


Governar exige mais do que vencer uma eleição: exige transformar compromissos em ações, escolhas em políticas públicas e discursos em resultados concretos. O Brasil segue diante de questões que não cabem em slogans nem se resolvem em um único mandato: a qualidade da educação e da saúde, o enfrentamento da violência, a confiança nas instituições. Elas não pertencem a uma corrente ideológica; são questões de interesse nacional.


Um país não pode recomeçar do zero a cada mudança de governo. Já mostramos que a continuidade é possível: a estabilidade da moeda, conquistada com o Plano Real, foi preservada por governos de campos opostos, e o Fundeb, que financia a educação básica, tornou-se permanente em 2020 com amplo apoio no Congresso. Por isso, deixo uma convicção: educação básica, saúde pública, responsabilidade com as contas públicas e segurança orientada por evidências deveriam ser políticas de Estado, com metas de longo prazo e avaliação transparente, valendo para quem quer que ocupe o poder.


É legítimo que cada governo tenha prioridades próprias. O que não deveria ser negociável é a responsabilidade de pensar além do calendário eleitoral.


Pensar sem entregar a consciência


Uma das consequências mais preocupantes da polarização é a perda da autonomia do pensamento. Somos convocados a escolher lados, defender lideranças e rejeitar ideias antes mesmo de examiná-las.

Não acredito que precisemos nos encaixar inteiramente em uma classificação ideológica para sermos cidadãos conscientes. É possível defender a justiça social e exigir responsabilidade na gestão dos recursos públicos; reconhecer a importância da iniciativa privada e o papel das políticas públicas na ampliação de oportunidades. É possível concordar com algumas propostas e discordar de outras, inclusive quando vêm de quem admiramos.


Pensar criticamente não é rejeitar tudo nem permanecer eternamente indeciso. É examinar argumentos, confrontar discursos com fatos e reconhecer quando nossas convicções precisam ser revistas. Isso exige maturidade, porque é mais confortável pertencer a um grupo que confirma tudo o que já pensamos. A democracia se fortalece quando os cidadãos fiscalizam o poder e não confundem fidelidade política com concordância incondicional.


O voto expressa uma escolha. Não é renúncia ao direito de pensar, questionar e cobrar.


Minha fé não me dispensa de pensar


Sou cristã. A Bíblia faz parte da minha história e da maneira como compreendo a vida, as relações humanas e minha responsabilidade diante do próximo. Minha fé, porém, não me afasta das perguntas do mundo; ao contrário, convida-me a olhar a realidade com discernimento e responsabilidade.


Em Romanos 12:2, encontro o chamado à renovação da mente e ao discernimento. Em 1 Tessalonicenses 5:21, a orientação de examinar tudo e reter o que é bom. Esses textos reforçam uma convicção essencial: crer não significa abdicar da consciência.


A fé pode inspirar o compromisso com a justiça, a solidariedade e a dignidade humana. Mas, quando é usada para blindar lideranças contra críticas, impedir questionamentos ou transformar a adesão a um projeto político em medida de fidelidade a Deus, algo fundamental se perde. E isso vale para qualquer liderança, de qualquer campo, da direita à esquerda, no púlpito ou no palanque. Nenhuma liderança humana se torna infalível por compartilhar nossas convicções religiosas, e nenhum discurso dispensa o exame de suas atitudes, escolhas e consequências.


Essa reflexão não se dirige apenas a quem professa uma religião. Independentemente de crenças ou convicções políticas, todos somos chamados a exercer o discernimento e a não entregar a terceiros a responsabilidade pela própria consciência.


Quero uma fé que me ajude a enxergar a realidade com humanidade, a questionar com responsabilidade e a não confundir interesses de pessoas ou grupos com a vontade de Deus.


O futuro não cabe em um mandato


Quando penso no Brasil que desejo para meus netos, penso nas oportunidades que terão, na educação a que poderão ter acesso, na liberdade para fazer escolhas e na possibilidade de construir uma vida digna. Penso também nas gerações seguintes, que receberão as consequências das decisões que tomamos hoje.


Nenhum governo, sozinho, resolverá os problemas históricos do país. Mas é legítimo esperar planejamento, transparência, responsabilidade com os recursos públicos e disposição para prestar contas. Ao governo cabe governar para toda a população, inclusive para quem não o apoiou. À oposição cabe fiscalizar e apresentar alternativas, em vez de apostar no fracasso do país para colher dividendos eleitorais. Aos cidadãos cabe acompanhar, participar, questionar e cobrar, sem transformar a política em guerra permanente entre brasileiros.


Isso não significa aceitar qualquer posição em nome da conciliação, nem fingir que divergências importantes não existem. Significa compreender que o conflito de ideias faz parte da democracia, mas que a desumanização do outro compromete a possibilidade de construir soluções comuns.


Não tenho todas as respostas, mas tenho convicções: continuidade nas políticas que funcionam, transparência no uso do dinheiro público e respeito ao adversário. O que me preocupa é nos acostumarmos à divisão permanente, como se a hostilidade fosse inevitável. Continuo acreditando que o Brasil pode construir caminhos melhores, não por ingenuidade, mas porque aceitar o presente como a única realidade possível seria desistir de imaginar alternativas.


O resultado das urnas define quem recebe a responsabilidade de governar, mas não define, sozinho, o destino de uma nação. Esse destino será moldado também pela participação da sociedade e pela disposição coletiva de olhar além das disputas imediatas. Escrevo porque me importo, porque acredito que a esperança não precisa ser ingênua e que a crítica não precisa ser partidária.


Que Brasil estamos construindo, e qual é a nossa responsabilidade nessa construção? Que essa pergunta não se encerre com uma eleição, nem se perca até a próxima.










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