SINTONIA DAS ÁGUAS
- MICHELLE MKO

- há 22 horas
- 2 min de leitura
Atualizado: há 18 horas

Estava aqui pensando… escutar exige treino. Exige silêncio. Respeito. Tempo de processamento e elaboração para somente assim se criar uma devolutiva.
Relacionamento também precisa de escuta, de silêncio, de elaboração e processamento emocional. E relação, ou seja, (re)enlaçar indivíduos demanda a interação harmônica entre pessoas.
Mas, e quando as pessoas estão fechadas em si mesmas e não estão conseguindo lidar com a interação e com os desafios do outro? Sinto que é aí que acontecem as crises e os desencontros. É aí que as frequências mudam. Que a sintonia se bagunça.
É possível retomar o canal acertado de diálogo? Quando há esforços das partes, sim. Quando um só consegue fazer isso, o chiado se acentua. Fica aquela comunicação inaudível, desconfortável aos ouvidos e à apreciação sonora. A escolha de músicas gera atrito e não apreciação a duas.
Tenho a impressão de que esse sair de sintonia não é abrupto. E nem concomitante das partes. Ele pode vir vindo aos poucos. Sai da estação, chia, retoma ao prumo e o som fica limpo novamente. Mas, depois, a sintonia fica instável de novo e mais um desgaste vem. Quando chega nesse ponto surge a dúvida: muda-se a estação? Ou o aparelho todo?
Numa sociedade cujos descartes e obsolescências de produtos são inclusive programados, lidar diferente no trato relacional é imprescindível. Porque pessoas não são mercadorias, produtos, descartáveis. Elas trazem bagagens, memórias, sonhos, se (re)constroem cotidianamente. Isso não quer dizer que se confirmado que não há conserto, que se deva insistir nessa melodia áspera e desconfortável produzida por um aparelho deteriorado. Não. Relacionamentos abusivos, no sentido real do termo, exigem a desconexão do aparelho da tomada e o descarte dele.
A alma precisa de beleza. De leveza. De paz. Mesmo que saibamos que a vida exija, por vezes, mergulhos em dores que igualmente fazem parte do ciclo natural da existência. No entanto, esse mergulho precisa ser momentâneo e esporádico, porque se não for assim, a alma se instala nas profundezas e o oxigênio falta, a luz se ausentifica e a dor adentra pra não querer sair mais.
Não quero dizer com isso que a felicidade seja um objeto a ser perseguido a ponto de se evitar lidar com as dores existenciais, não, porque isso me soa mais como uma negação, uma tentativa desesperada de não crescer a partir das adversidades.
Reconheço que são as oscilações que fazem o movimento da vida. Relacionar-se exige mergulhos e respiros. Respiros e nados. Sons limpos e ruídos mínimos. Músicas agradáveis e vozes assertivas. Antes que as estações mudem. Que os aparelhos sejam substituídos. Que o nado seja sofrível. Sinto que é preciso parar. Respirar. Nadar. Mergulhar. Emergir. Ouvir o canto harmônico das baleias. Sentir a sintonia interna no ponto exato da paz.
Relacionar-se. Consigo e com o outro.
Ouvir a resiliência. Apreciar a si e ao outro com todo o respeito que ambos precisam. Relaxar nas águas plácidas de uma relação edificante, sobretudo conosco mesmas. Mudar as estações honrando o que foi ouvido antes, mas se abrindo para novas escutas, novos ritmos. Boas músicas vão aos poucos preenchendo o ar. Novos nados chegam ao oceano da vida. Memórias boas honram programas anteriores. Novas configurações e repertórios começam a ser construídos. Novas estações se sintonizam.
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Boa reflexão, Michelle! Sabendo que a desconexão é algo progressivo, importante estar atento (resiliência, escuta ativa, priorização da saúde mental e emocional) para quando, entre conexões e desconexões do dial, percebe-se a impossibilidade de estabilizar o sinal. Aí, é hora de trocar de estação. Beijos!
Verdade!
Nenhuma desavença pode infiltrar por tempo indeterminado, porque o desencontro não pode se perder no tempo.
Namastê!