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SINTONIA DAS ÁGUAS

  • Foto do escritor: MICHELLE MKO
    MICHELLE MKO
  • 21 de mar.
  • 2 min de leitura

Atualizado: 4 de mai.


Estava aqui pensando… escutar exige treino. Exige silêncio. Respeito. Tempo de processamento e elaboração para somente assim se criar uma devolutiva.


Relacionamento também precisa de escuta, de silêncio, de elaboração e processamento emocional. E relação, ou seja, (re)enlaçar indivíduos demanda a interação harmônica entre pessoas. 


Mas, e quando as pessoas estão fechadas em si mesmas e não estão conseguindo lidar com a interação e com os desafios do outro? Sinto que é aí que acontecem as crises e os desencontros. É aí que as frequências mudam. Que a sintonia se bagunça. 


É possível retomar o canal acertado de diálogo? Quando há esforços das partes, sim. Quando um só consegue fazer isso, o chiado se acentua. Fica aquela comunicação inaudível, desconfortável aos ouvidos e à apreciação sonora. A escolha de músicas gera atrito e não apreciação a duas. 


Tenho a impressão de que esse sair de sintonia não é abrupto. E nem concomitante das partes. Ele pode vir vindo aos poucos. Sai da estação, chia, retoma ao prumo e o som fica limpo novamente. Mas, depois, a sintonia fica instável de novo e mais um desgaste vem. Quando chega nesse ponto surge a dúvida: muda-se a estação? Ou o aparelho todo? 


Numa sociedade cujos descartes e obsolescências de produtos são inclusive programados, lidar diferente no trato relacional é imprescindível. Porque pessoas não são mercadorias, produtos, descartáveis. Elas trazem bagagens, memórias, sonhos, se (re)constroem cotidianamente. Isso não quer dizer que se confirmado que não há conserto, que se deva insistir nessa melodia áspera e desconfortável produzida por um aparelho deteriorado. Não. Relacionamentos abusivos, no sentido real do termo, exigem a desconexão do aparelho da tomada e o descarte dele. 


A alma precisa de beleza. De leveza. De paz. Mesmo que saibamos que a vida exija, por vezes, mergulhos em dores que igualmente fazem parte do ciclo natural da existência. No entanto, esse mergulho precisa ser momentâneo e esporádico, porque se não for assim, a alma se instala nas profundezas e o oxigênio falta, a luz se ausentifica e a dor adentra pra não querer sair mais. 


Não quero dizer com isso que a felicidade seja um objeto a ser perseguido a ponto de se evitar lidar com as dores existenciais, não, porque isso me soa mais como uma negação, uma tentativa desesperada de não crescer a partir das adversidades. 


Reconheço que são as oscilações que fazem o movimento da vida. Relacionar-se exige mergulhos e respiros. Respiros e nados. Sons limpos e ruídos mínimos. Músicas agradáveis e vozes assertivas. Antes que as estações mudem. Que os aparelhos sejam substituídos. Que o nado seja sofrível. Sinto que é preciso parar. Respirar. Nadar. Mergulhar. Emergir. Ouvir o canto harmônico das baleias. Sentir a sintonia interna no ponto exato da paz.


Relacionar-se. Consigo e com o outro.


Ouvir a resiliência. Apreciar a si e ao outro com todo o respeito que ambos precisam. Relaxar nas águas plácidas de uma relação edificante, sobretudo conosco mesmas. Mudar as estações honrando o que foi ouvido antes, mas se abrindo para novas escutas, novos ritmos. Boas músicas vão aos poucos preenchendo o ar. Novos nados chegam ao oceano da vida. Memórias boas honram programas anteriores. Novas configurações e repertórios começam a ser construídos. Novas estações se sintonizam. 







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12 comentários

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Beto Nicou
Beto Nicou
15 de abr.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Michelle, que texto necessário. Você descreveu o que eu chamo de "afinação da existência". Relacionar-se é, de fato, buscar o tom exato onde dois instrumentos não se anulam, mas se somam.

Como alguém que lida com o som e com o silêncio, entendo perfeitamente esse "chiado" que você descreve. Às vezes, a gente tenta ajustar o sintonizador, mas a frequência do outro mudou de canal. E é preciso coragem para aceitar que, quando o aparelho deteriora a ponto de produzir apenas aspereza, o maior respeito que podemos ter com a nossa própria música é o silêncio da desconexão.

Que a gente saiba honrar o repertório antigo, mas que nunca nos falte o fôlego para esse nado novo que você propõe.…

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Michelle MKO
15 de abr.
Respondendo a

Ei, Adalberto, muito obrigada pelas palavras, ainda mais vindas de você: uma pessoa com um ouvido tão apurado e sensível. A luthieria te confere essa habilidade e potencializa sua audição dos sons e das energias do mundo. Um grande abraço!

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Eliane Souza
Eliane Souza
27 de mar.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Aqui senti um convite à entrega. O texto tem uma fluidez que parece acompanhar o próprio movimento das águas. Ora calmas, ora intensas. Como leitora, fui levada a refletir sobre o quanto tentamos controlar o incontrolável e o quanto há sabedoria em confiar nos ciclos. Existe algo de muito sutil na ideia de sintonia. Não é sobre forçar, mas sobre perceber, sentir e respeitar o tempo das coisas. Um texto que desacelera e amplia a escuta interna.

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Michelle MKO
01 de abr.
Respondendo a

Que delícia ler seu comentário! Muito obrigada! Desacelerar e ampliar a escuta interna são, sem dúvida, caminhos importantes para a conquista da sintonia e do respeito ao fluxo e ao movimento de cada um.

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Marilialamara@hotmail.com
23 de mar.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Cada pessoa é um mundo em constante construção. Somos o que sofremos, o que vivenciamos, o que recebemos e o que conseguimos ofertar. Quando temos um encontro, pode não ser um encontro definitivo, mas sim um aprendizado. Você pode sair maior e também ter acrescentado ao seu parceiro. Mesmo desencontros nos ensinam. Quando partilhamos de uma amizade, mesmo divergindo em muitas coisas (é natural, não somos espelhos, somos únicos), escolhemos aprender e prosseguir no mesmo caminho. Meu maior anseio não é ser compreendida é compreender e entender o outro. É não colocar um peso desnecessário da perfeita integração. Não existe a metade da laranja, cada um é uma laranja inteira. Nascemos pra brilhar, e, com nossa própria luz.

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Michelle MKO
23 de mar.
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Perfeito, tia. Nada é em vão. Tudo nos acrescenta. Compreensão e acolhimento são essenciais em qualquer relacionamento. E investir em nossa luz interna fazendo de nossa própria resiliência um farol no oceano da nossa existência também é.

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José França
22 de mar.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que texto lindo, Michelle!!

(Refletindo o terceiro, quarto, quinto e sexto paràgrafo do seu texto:)


Manhãs afora, vida afora, ouve-se triste a voz so soprano. Dias afora, vida afora, ouvem-se triste a voz de barítonos e contraltos . Encontro de vozes, desencontros de vidas. Óperas de mistério, música do silêncio. Os relacionamentos abusivos são elegia para destinos decepados, réquiem para corpos caídos. Relacionar-se é uma aventura (perigosa aventura). Relacionar é estar na plateia de um tempo sem alma. É fazer uma pergunta sem resposta. Relacional é ouvir constantemente a voz do fim.


(Para o parágrafo sete até o final:) Mas quando há reciprocidade, é aplaudir de pé a gostosa melodia do sorriso, é sentir prazer na monótona melodia das horas…


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Michelle MKO
23 de mar.
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Ah, França, seu comentário abrilhanta meu texto! Quanta poesia e musicalidade nas suas palavras! E que delícia quando aprendemos a apreciar a sintonia da melodia das horas... aprendizados e vivências importantes na regência de nossas músicas de alma.

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
22 de mar.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Boa reflexão, Michelle! Sabendo que a desconexão é algo progressivo, importante estar atento (resiliência, escuta ativa, priorização da saúde mental e emocional) para quando, entre conexões e desconexões do dial, percebe-se a impossibilidade de estabilizar o sinal. Aí, é hora de trocar de estação. Beijos!

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Michelle MKO
23 de mar.
Respondendo a

Pois é, né, Jefferson? Precisamos apurar nossos sentidos para percebermos a delicadeza das nuances dessa sintonia. E quanto mais sensíveis ficamos, mais percebemos e mais podemos contribuir para a harmonia das músicas.

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