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SUA PRESSA, MEU DESASSOSSEGO?

  • Foto do escritor: RUBIA ARCE Admin Blog
    RUBIA ARCE Admin Blog
  • 28 de mar.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 29 de mar.


Passos largos... Passos curtos... E uma infinidade de caminhantes a passear. Tropeça-se aqui e cai-se acolá. Estendem-se tapetes por onde nunca mais poderia querer passar.


A alguns, interessa menos o destino, e mais os passos que serão dados, porque sabem que alguém, em algum momento, nas pegadas deixadas, pode querer pisar. Onde pisar, por onde passar, qual caminho escolher… Isso importa? Muito. Deveras importará a quem se importa. 


Caminhante observadora que sou e debruçada sobre os estudos da Neurociência, a cada dia grita-me a urgência de apreender a autorresponsabilização.


Eu? Responsável? Tu? Responsável? Reflito em demasia sobre tal tema que me atravessa as convivências. Qual seria o mundo se cada um assumisse a responsabilidade que lhe cabe diante do que lhe aborda a vida?


Dia desses, atendi um aluno que chegou esbaforido à minha sala da universidade - havia perdido todos os prazos de agendamento de um trabalho que deveria ter realizado até novembro do ano passado. Estamos praticamente em abril, e ele adentra minha sala com a seguinte demanda: 


―Gostaria de realizar a parte prática do trabalho aqui no polo. 

―Você fez o agendamento? Perguntei.

―Não. É que eu não consegui agendar. 

―Por que não? Retruquei. 

―Acho que está fora do prazo. 


Abri a plataforma e lá estavam todos os prazos expirados desde o ano passado, e a disciplina já com status REPROVADO. 


Tive que dizer a ele o óbvio, que ele não poderia realizar a prática naquele dia. E ele iniciou uma série de justificativas para eu burlar as regras da instituição a favor dele. Disse que morava distante, que para ele voltar seria difícil, que não custava nada deixá-lo realizar a prática e depois, quando ele fosse repetir a disciplina, faria o agendamento e ficaria como se ele tivesse comparecido ao polo no dia do agendamento. Saiu reclamando porque não foi atendido como gostaria.


Senso de autorresponsabilidade altamente prejudicado, atitudes que provocam exposição de outras pessoas ao desgaste de serem culpabilizadas, a todo custo, pelas desventuras resultantes de suas próprias escolhas de vida. Urgências oriundas da total falta de planejamento, emergências partidas da má estruturação causa das inúmeras decisões mal pensadas. Descontrole exacerbado.


Não. Não há controle absoluto. E nem se deve tentar alcançá-lo. Minha reflexão está voltada para a postura que algumas pessoas assumem na alternativa: aconchegar-se no solo quentinho da vítima do mal acaso, culpando a sorte, o destino, Deus e as pessoas, esperando serem eternamente “salvas" de sua própria mediocridade. 


Trazendo para a perspectiva cotidiana, lidamos com pessoas assim o tempo todo. Acompanhamos pessoas de todas as áreas da nossa vida tentando sobreviver a uma existência caótica construída a partir de suas próprias atitudes. 


E tudo isso ressoa, enrijece relações, quebra relacionamentos, porque não se pode assumir o lugar de salvador para sempre. Não se pode ser o que sempre deve ter empatia, entender, compreender, ajudar. E quando alguém, por conta da desordem criada por ele próprio, assume o lugar da pessoa que "sempre precisa”, os que estão ao seu redor buscando uma vida equilibrada, tomando melhores decisões sobre sua própria vida, fatalmente vão precisar assumir o lugar do que salva.


A urgência de alguém mal organizado sempre parece mais importante que a paciência de quem está fazendo tudo certo. 

Vic Brow


O encontro com um ensinamento valioso da vida se dá quando entendemos que - parafraseando a própria Vic - cada vez que cedemos para esse tipo de comportamento das pessoas, sinalizamos que o desespero delas é mais importante que a nossa paz. 



Agradeço por ler até aqui!

Com amor.

Até a próxima!






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11 comentários

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Eliane Souza
Eliane Souza
05 de abr.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que reflexão profunda e necessária! É incrível como você consegue traduzir em palavras essa dinâmica tão comum do dia a dia, onde a falta de planejamento de um acaba virando a urgência e o desassossego do outro. A parte sobre a autorresponsabilização e a tendência de alguns em se colocar como vítima é um espelho para muitas situações que vivenciamos. Um texto para ler e reler, e aplicar no cotidiano!

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José França
02 de abr.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Texto repleto de brilhantismo. Eu, que sou professor, precisava fazer deste texto uma oração matinal. O tempo todo sou abordado com exemplos como este do texto. Uma prova que não sabe porque deixou de fazer, mas acha que sou obrigado a repeti-la no tempo dele, aquilo que ele mesmo não fez no próprio tempo. E, asim, vários exemplos. E o final parece que foi escrito para mim. Como resultado, no apagar das luzes da ribalta, eu sempre renuncio a minha paz, na prática da sala de aula, em troca do comportamento autoirresponsável do outro. E assumir estas operâncias é permitir que a autoirresponsabilidade do outro conecta-se à autoirresponsabilidade minha, ao saber que a inoperância do outro, diante da minha empatia…

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RUBIA ARCE Admin Blog
RUBIA ARCE Admin Blog
02 de abr.
Respondendo a

José, você sempre tão generoso com as palavras a respeito do que escrevo! Nós, diplomáticos, costumamos ter dificuldades em colocar limites, mesmo porque, provocar autorresponsabilização nos outros é algo muito dolorido para eles, acostumados a serem salvos o tempo todo. Tenho aprendido a duras penas que minha paz é inegociável. Gratidão por comentário tão sincero! 🌻

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Michelle MKO
01 de abr.

Nossa, Rubia! Seu texto veio em uma hora tão oportuna para mim! Muito obrigada! Ando às voltas com essa questão da autorresponsabilização de uma maneira cada vez mais consciente. Adultizar áreas da minha vida que ainda têm resquícios de uma criança ferida ciente de que sou uma mulher de quase meio século, não mais aquela criança frágil e vulnerável. E, em paralelo, acriançar outras partes de mim que foram tão brutalmente arrancadas da infância que não viveram a leveza e a magia de ser criança. Que meus movimentos promovam um desassossego necessário e transitório para mim, não aos outros.

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RUBIA ARCE Admin Blog
RUBIA ARCE Admin Blog
02 de abr.
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Ah, que lindo, Michelle! Muito bom saber que algo em você se move para melhor ao refletir junto comigo! Obrigada por depoimento tão honesto e cheio de valor!🌻

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Convidado:
29 de mar.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Para mim, uma das coisas mais difíceis da vida é lidar com a irresponsabilidade dos outros e, consequentemente, com os danos que isto pode causar. Fechou seu texto com perfeição. Parabéns! Beijocas, Carla Kirilos

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RUBIA ARCE Admin Blog
RUBIA ARCE Admin Blog
29 de mar.
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Sem dúvida alguma, um grande desafio, Carla.

Obrigada por comentar!🌻

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
29 de mar.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Seja deliberada - por desorganização ou displicência - ou ocasional, pois imprevistos acontecem, é imprescindível que cada um se sinta responsável pelas próprias quebras de um compromisso. E é tão fácil detectar quando a condição de vítima é uma constante e quando um pedido de desculpas é genuíno, por uma falta pontual. A primeira é muito desgastante! Parabéns pelo texto, Rúbia!

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RUBIA ARCE Admin Blog
RUBIA ARCE Admin Blog
29 de mar.
Respondendo a

Jefferson, eu acredito que a maioria não seja deliberada, as pessoas não têm intenção de ser desorganizadas, o problema começa com a postura que assumem quando esperam que alguém se vire para atender à demanda criada por esse comportamento. E ficam bravas e magoadas quando recebem um não. 🤦🏽‍♀️ Obrigada por comentar!

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