UMA CRÔNICA COMO RICOCHETE


Pretendo redigir esta crônica em primeira pessoa, recurso que, por vezes, tenho deixado de lado nos textos anteriormente publicados neste blog. É importante esclarecer que não há, de minha parte, a intenção de produzir ensaios. Nenhum dos textos publicados em Bendita Existência deve ser compreendido como tal: tratam-se, antes, de textos literários, frutos da imaginação do autor, enriquecidos por conhecimentos acumulados ao longo de décadas de leitura, estudo e prática da escrita.
Atualmente, experimento uma modalidade de crônica distinta daquela consagrada pela tradição escolar, em que o gênero é frequentemente apresentado como um relato breve de acontecimentos cotidianos, filtrados pelo olhar subjetivo do cronista. Embora já tenha publicado textos nesse formato, minhas crônicas tendem a se estruturar a partir de eventos literários, artísticos ou temáticos, privilegiando sobretudo questões de relevância social ou filosófica, igualmente atravessadas por minha perspectiva pessoal.
O conceito de literatura que orienta minha produção textual ancora-se na tradição clássica: a literatura como arte da palavra, que mobiliza a linguagem de forma estética e criativa para expressar sentimentos, recriar a realidade e comunicar a experiência humana. Essa última dimensão permite compreender definições contemporâneas que ampliam o escopo da literatura, concebendo-a como tudo aquilo que um povo escreve sobre si e sobre o mundo. Daí decorre o uso corrente de expressões como “literatura médica”, “literatura jurídica”, “literatura esportiva”, “literatura política” e ainda “literatura jornalística”, que evidenciam a pluralidade de práticas discursivas abrigadas sob o termo.
A literatura, enquanto manifestação artística, constitui a arte da palavra falada e escrita. Nesse sentido, considero pertinente o conceito platônico de arte como uma cópia distorcida da realidade, situada em três níveis da verdade pura: as Ideias (inteligibilidade), as aparências (sensibilidade) e a imitação (a arte). Assim, a literatura pode ser compreendida como mímesis do real, isto é, uma imitação da natureza. Para mim, esse é o conceito mais abrangente da literatura, pois ela se configura como ficção, recriação da realidade e reinvenção do mundo. Além disso, há uma definição estética segundo a qual aquilo que se apresenta diante dos olhos e agrada, proporcionando prazer, aproxima-se da arte contemplativa — uma forma de expressão e vivência artística que desacelera a mente, promove a presença no momento presente e privilegia o bem-estar interior em detrimento da produção comercial ou da busca por resultados.
Essa última definição apresenta um viés distinto daquele defendido por Jean-Paul Sartre em O que é literatura?. Para o filósofo, “a literatura em prosa é um ato de engajamento e uma forma de ação no mundo que utiliza a linguagem como instrumento de revelação e de apelo à liberdade do leitor”. O conceito de arte engajada, entretanto, é relativo: o escritor não está obrigado a produzir uma obra vinculada a compromissos sociais, a causas políticas ou a bandeiras ideológicas. Trata-se, antes, de uma escolha estética e ética do artista.
Esta perspectiva crítica já havia sido dirigida aos poetas simbolistas, frequentemente chamados de “poetas da torre de marfim”, em alusão ao seu afastamento das questões sociais de sua época. Convém lembrar, contudo, que o primeiro objetivo da arte é proporcionar prazer estético. A função de criticar, formar ou transformar pode ser entendida como uma escolha consciente do autor ou como uma consequência natural de sua criação.
Aprecio receber críticas, sobretudo porque compreendo a literatura a partir da perspectiva umbertiana da obra aberta. Em A poética da obra aberta, Umberto Eco considera a intencionalidade como pressuposto fundamental desse conceito. Ao construir uma leitura popular da concepção do escritor e filósofo italiano, compreendo o texto como uma casa em permanente construção: possui a estrutura de concreto, mas carece de paredes, muros ou grades. Trata-se de um espaço aberto, no qual qualquer pessoa pode entrar e habitar sem restrições. A obra, nesse sentido, é pública. O leitor, ao adentrar esse espaço, realiza interpretações conforme seu repertório, podendo mobilizar perspectivas históricas, sociológicas, filosóficas, psicanalíticas, políticas ou literárias. Assim, o texto se abre à crítica e ao diálogo, tornando-se um campo de múltiplas leituras e respostas.
Nenhuma obra nasce com a pretensão de ser universal: tal ambição seria excessivamente presunçosa por parte do autor. A universalidade é conquistada pela relevância da temática abordada e pela sua capacidade de ressoar em diferentes contextos. Por essa razão, minha preferência sempre se inclinou ao realismo temático. Obras épicas e clássicas, como Os Lusíadas, de Camões, ou a Ilíada, de Homero, partem de marcos históricos e geográficos específicos, como as grandes navegações portuguesas ou a Guerra de Troia, mas elevam tais acontecimentos a reflexões atemporais sobre coragem, destino e poder. Como sintetiza a máxima: “Se queres ser universal, começa por cantar a tua aldeia”. Nada mais local do que Camões evocando o sábio grego ou o guerreiro troiano para ver os feitos dos portugueses; contudo, ao fazê-lo, alcança uma dimensão universal.
Se hoje dispomos de novelas, séries e minisséries, é porque, em algum momento, existiu o Satyricon, uma espécie de novela clássica que estabeleceu um núcleo narrativo centrado na figura do protagonista, estrutura que permanece observável, ainda que adaptada, nos avanços das formas narrativas contemporâneas. No Decameron, de Boccaccio, o homem é colocado diante da morte, na incerteza de estar ou não contaminado pela peste negra, ou seja, na tensão entre vida e morte. Já em A Divina Comédia, de Dante, o ser humano confronta os mistérios do além — purgatório, inferno e paraíso —, temas que, embora vinculados ao imaginário medieval, continuam a suscitar reflexões atuais. Em Otelo, de Shakespeare, o eixo dramático é o ciúme doentio e destrutivo, associado à manipulação e à insegurança. Em Hamlet, por sua vez, o conflito central reside na tensão entre o dever de vingança e as dúvidas morais e existenciais. Essas temáticas conferem às obras mencionadas um caráter universalizante, capaz de transcender o contexto histórico em que foram produzidas.
Não compartilho da crítica que atribui às editoras o poder exclusivo de determinar quais livros serão lidos ou permanecerão relevantes. A escolha, em última instância, é do leitor. Nesse sentido, alinho-me ao pensamento de Sartre: em A Náusea, o autor afirma que o livro não funciona por si só, sendo apenas um conjunto de marcas no papel até que alguém o leia. A leitura, portanto, é um ato de criação conjunta. Se o leitor permanece passivo ou se o texto não o instiga a pensar, a engrenagem literária deixa de operar. O livro, esquecido em uma gaveta ou repousando numa estante, não transforma o mundo; só adquire significado quando alguém o toma para ler. Assim, embora as editoras possam selecionar o que publicar, sem leitores não há circulação, sem circulação não há vendas, e sem vendas não há continuidade da publicação. Nos próximos parágrafos, veremos exemplos que ilustram essa dinâmica.
Não simpatizo com a crítica que sustenta que apenas as editoras determinam quais obras permanecem relevantes. Há autores e obras que, apesar de sua importância histórica e literária, foram relegados ao esquecimento. Cito três exemplos. O primeiro é Coelho Neto, fundador da cadeira n.º 2 da Academia Brasileira de Letras e defensor das causas abolicionista e republicana. Junto a Afrânio Peixoto e Viriato Corrêa, escreveu O Mystério, considerado o primeiro romance policial brasileiro. Apesar de sua notoriedade, foi duramente combatido pelos modernistas e acabou mergulhado em um verdadeiro ostracismo intelectual e literário. Autor de 116 livros, hoje praticamente não é lido, o que evidencia como o posicionamento contra a modernidade contribuiu para sua marginalização.
O segundo exemplo é Pablo Neruda, poeta chileno internacionalmente reconhecido e laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1971. Sua obra Canto Geral pode ser interpretada como uma ode ao comunismo, dando voz aos sonhos da América Latina. Contudo, com as transformações políticas e econômicas ocorridas nas décadas seguintes, como a abertura da China ao capital ocidental, a perestroika na Rússia e a queda do Muro de Berlim, essa obra perdeu parte de sua força de recepção. Hoje, embora não esquecida, encontra-se descontextualizada, já que o espectro do comunismo, frequentemente evocado em discursos políticos contemporâneos, não corresponde mais às condições históricas que inspiraram Neruda.
O terceiro exemplo é Carolina Maria de Jesus, autora que ganhou notoriedade com Quarto de Despejo. Após o sucesso inicial, sua obra caiu no esquecimento. Durante meus anos de formação acadêmica, na década de 1980, não tive contato com sua produção, nem no ensino médio nem na graduação, apesar de haver edições publicadas pela série “Vagalume” da Editora Ática. Carolina voltou aos holofotes na virada do século, impulsionada pelas pesquisas sobre literatura afrodescendente. Recordo-me de acompanhar esse movimento na UFMG, quando professores passaram a orientar seus alunos sobre sua obra. O resultado foi a redescoberta de uma autora cuja relevância havia sido negligenciada, demonstrando, como afirmou Sartre, autor de O existencialismo é um humanismo, que a literatura só se realiza plenamente quando encontra leitores.
O linguista suíço Ferdinand de Saussure foi o primeiro a propor, de forma sistemática, a distinção entre sincronia e diacronia, conceitos originalmente desenvolvidos para o estudo da Linguística em suas aulas que deram origem ao Curso de Linguística Geral em 1916. Essas categorias, contudo, foram rapidamente absorvidas pela Teoria e Crítica Literária no século XX, sobretudo por movimentos influenciados pelo Estruturalismo. O Formalismo Russo e o Estruturalismo da Escola de Praga, com teóricos como Roman Jakobson e Jurij Tynjanov, aplicaram os eixos saussurianos ao estudo da literatura, inaugurando novas perspectivas analíticas.
A abordagem sincrônica passou a considerar o sistema literário, ou uma obra específica, em um recorte fixo no tempo, privilegiando as relações internas entre seus elementos sem se preocupar com as origens históricas. Já a abordagem diacrônica voltou-se para a evolução das formas literárias, dos gêneros, dos estilos e da própria linguagem ao longo do tempo, permitindo compreender a literatura como processo histórico em constante transformação.
Convém lembrar que, ao aplicar a perspectiva diacrônica na leitura de uma obra, afasto-me das categorias apriorísticas e, simultaneamente, aproximo-me das convenções construídas historicamente pelos estudos e pelas pesquisas acumuladas ao longo do tempo. Nesse sentido, a diacronia permite compreender a literatura como processo dinâmico, em constante transformação, em vez de como sistema estático. O universalismo, frequentemente reivindicado como atributo inerente às grandes obras, revela-se, na verdade, uma convenção cultural e crítica: não é dado de forma natural, mas construído pela recepção, pela tradição interpretativa e pela relevância que determinados textos adquirem em diferentes contextos históricos.
Sem os conceitos atuais de relação entre obra e contexto, sobretudo no âmbito da literatura moderna, seria impossível compreender como textos locais ou situados em circunstâncias específicas podem alcançar dimensão universal. Assim, a leitura diacrônica não apenas ilumina os vínculos entre literatura e sociedade, mas também evidencia que a universalidade é resultado de um processo de legitimação cultural. Conclui-se, portanto, que a obra literária, ao ser analisada diacronicamente, revela sua historicidade e, ao mesmo tempo, sua capacidade de transcender o tempo, tornando-se objeto de múltiplas interpretações que se renovam conforme os horizontes críticos de cada época.
Para encerrar, é pertinente destacar que, de acordo com Antônio Cândido, existe uma relação dialética entre localismo e universalismo. O crítico defende que não há oposição excludente entre ser local e ser universal; ao contrário, quanto mais o autor mergulha com profundidade e rigor crítico em sua realidade particular, maior é a possibilidade de alcançar a universalidade. Essa concepção dialoga diretamente com a teoria bakhtiniana da dialogia do discurso, segundo a qual todo dizer é sempre resposta a outro já enunciado, seja para reafirmar ou refutar. Assim, quando afirmo que as epopeias clássicas e diversas outras obras se tornam tematicamente universais dentro de uma perspectiva diacrônica, reconheço que tais ideias não surgem isoladamente, mas se constroem a partir de leituras, estudos e reflexões acumuladas por diferentes autores, professores e críticos ao longo do tempo.
Dessa forma, a literatura se revela como espaço de constante interação entre o particular e o universal, entre o passado e o presente, entre o discurso próprio e o discurso alheio. A universalidade, portanto, não é um atributo dado, mas uma construção que emerge do diálogo histórico e crítico, reafirmando que quase toda obra pode ser, ao mesmo tempo, local em sua origem e universal em sua ressonância.
Boa leitura.



Uma análise refinada, repleta de nuances de extrema relevância. Se fosse citar tudo, não caberia em um comentário. Mas posso citar a reflexão que me tomou ao ler a parte sobre obras de extremo valor que caíram no esquecimento. "O livro, esquecido em uma gaveta ou repousando em uma estante, não transforma o mundo." O que me fez pensar em quantas obras podem estar por aí esquecidas e poderiam acrescentar tanto aos diálogos atuais. Sua análise passa pelo viés de vários autores e obras, como quem tece uma trama de raciocínio e se estrutura em material relevante para se compor. Uma verdadeira aula!
Obrigada por tanto, José!