UMA VINGANÇA ELEGANTE
- ILMA PEREIRA

- há 2 dias
- 2 min de leitura
Fofocas literárias, mas que só lhe farão bem!
Eu sou Ilma Pereira e aqui te coloco a par das fofocas do mundo literário.

Dia desses, conversando com uma querida leitora, Clarice Barreto, ela me pôs uma pulga atrás da orelha: o escritor Thomas Mann havia se vingado do também escritor russo Dostoiévski.
Na mesma hora, lembrei-me de uma frase icônica sobre vingança, proferida pelo inesquecível Seu Madruga, no seriado Chaves, para o personagem Quico: “ A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”.
Feitas as contas, Thomas Mann nasceu 6 anos antes da morte do russo, o que tornaria impossível tal feito. Então, como seria possível?
Um dito popular ensina que a vingança é um prato que se come frio. Ou, para ilustrar com mais ênfase, Confúcio sentenciou: “Antes de embarcar em uma jornada de vingança, cave duas sepulturas”.
Mas me conta uma coisa: já se vingou de alguém? Acredita que um escritor pode promover uma vingança literária, se vingar de alguém em seus escritos, em seus livros?
Enquanto você pensa, vamos conversar um pouco sobre o que é a vingança. O desejo de se vingar é originado no chamado “circuito da raiva” do cérebro. Quando somos feridos, o sistema nervoso reage com agressividade e, ao buscar a retaliação, o cérebro ativa o sistema de recompensa, o que explica por que o ato de vingar pode gerar uma falsa sensação de alívio ou um prazer momentâneo.
Então vamos aos fatos:
Em 1866, o escritor russo Dostoiévski brindou o mundo com o livro “O jogador". Ele era viciado em jogos, então pôde escrever com muita propriedade sobre a ilusão do controle e o ciclo emocional da compulsão por jogos. E, nesse mesmo livro, o escritor faz uma crítica social e psicológica aos alemães. Na narrativa, fica claro que, enquanto os russos possuíam um espírito expansivo e apaixonado, os alemães, em contraste, eram excessivamente racionais, materialistas e focados em produzir uma boa herança.
Dostoiévski retrata essa prática não como uma virtude, mas como uma obsessão mesquinha sem espaço para a generosidade ou a grandeza da alma.
Na última coluna, eu lhes apresentei o escritor alemão Thomas Mann, cuja mãe, Júlia Mann, era brasileira e o influenciou em sua escrita. O alemão era fã de Dostoiévski. Ele reconhecia o escritor russo como um "gigante" da literatura e um mestre inigualável na exploração das profundezas da consciência humana e da patologia.
58 anos depois do lançamento do livro “O jogador”, Mann publica “A Montanha Mágica”, livro que estou lendo com o grupo de leitura “O ato de ler”. A história se passa em um sanatório em Davos, nas montanhas suíças, onde os endinheirados iam se curar de tuberculose.
Adivinha quem eram os hóspedes do barulho? Acertou quem disse os russos. Eles são retratados como barulhentos, mal educados e… fornicadores.
É ou não é uma divertida e elegante vingança literária?



Cara Ilma, que belo e perspicaz passeio pelos descaminhos da alma humana!
A sua provocação nos lembra que a literatura é, afinal, o único tribunal onde o anacronismo deixa de ser um erro biográfico e se torna uma virtude artística. Thomas Mann não precisou coincidir no tempo com Dostoiévski para "vingar-se" dele; bastou-lhe a imortalidade do texto
Vingança ou não, foi uma escrita muito sagaz.
Ei, Ilma. Estou adorando ler estas fofocas literárias. E olha que esta é de bichos grandes. Thomas Man e Dostoiévski. Vingança ou não, você falou de duas grandes obras de dois mosntros sagrados da literaria mundial. Enquanto você nos brinda com fofocas lindas assim, nós aprendemos mais e mais da Literatura Universal que eu tanto amo.
Obrigado. Parabéns pelo texto. Um abraço.
Li "O Jogador" e estou lendo "A Montanha Mágica" com "O Ato de Ler", onde somos companheiros de leitura. Percebo que o Mann usa a nacionalidade para identificar os hóspedes, sem, no entanto, exercer qualquer juízo de valor em relação ao país de origem. Já o Dostoiévsky, em sua obra, faz questão de rotular, não somente em relação aos alemães, mas também em relação aos ingleses. O texto do russo, hoje em dia, seria facilmente taxado de preconceituoso, o que não vejo no texto do alemão. Em defesa de Dostoiévsky, acredito que em sua obra ele faz uma comparação entre os costumes russos e os costumes europeus, que eram um tanto distintos. A mim não parece que Thomas Mann tinha…
Considero a vingança um desperdício de energia. Não creio que Mann tenha feito isto