UMA VINGANÇA ELEGANTE

Fofocas literárias, mas que só lhe farão bem!
Eu sou Ilma Pereira e aqui te coloco a par das fofocas do mundo literário.

Dia desses, conversando com uma querida leitora, Clarice Barreto, ela me pôs uma pulga atrás da orelha: o escritor Thomas Mann havia se vingado do também escritor russo Dostoiévski.
Na mesma hora, lembrei-me de uma frase icônica sobre vingança, proferida pelo inesquecível Seu Madruga, no seriado Chaves, para o personagem Quico: “ A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena”.
Feitas as contas, Thomas Mann nasceu 6 anos antes da morte do russo, o que tornaria impossível tal feito. Então, como seria possível?
Um dito popular ensina que a vingança é um prato que se come frio. Ou, para ilustrar com mais ênfase, Confúcio sentenciou: “Antes de embarcar em uma jornada de vingança, cave duas sepulturas”.
Mas me conta uma coisa: já se vingou de alguém? Acredita que um escritor pode promover uma vingança literária, se vingar de alguém em seus escritos, em seus livros?
Enquanto você pensa, vamos conversar um pouco sobre o que é a vingança. O desejo de se vingar é originado no chamado “circuito da raiva” do cérebro. Quando somos feridos, o sistema nervoso reage com agressividade e, ao buscar a retaliação, o cérebro ativa o sistema de recompensa, o que explica por que o ato de vingar pode gerar uma falsa sensação de alívio ou um prazer momentâneo.
Então vamos aos fatos:
Em 1866, o escritor russo Dostoiévski brindou o mundo com o livro “O jogador". Ele era viciado em jogos, então pôde escrever com muita propriedade sobre a ilusão do controle e o ciclo emocional da compulsão por jogos. E, nesse mesmo livro, o escritor faz uma crítica social e psicológica aos alemães. Na narrativa, fica claro que, enquanto os russos possuíam um espírito expansivo e apaixonado, os alemães, em contraste, eram excessivamente racionais, materialistas e focados em produzir uma boa herança.
Dostoiévski retrata essa prática não como uma virtude, mas como uma obsessão mesquinha sem espaço para a generosidade ou a grandeza da alma.
Na última coluna, eu lhes apresentei o escritor alemão Thomas Mann, cuja mãe, Júlia Mann, era brasileira e o influenciou em sua escrita. O alemão era fã de Dostoiévski. Ele reconhecia o escritor russo como um "gigante" da literatura e um mestre inigualável na exploração das profundezas da consciência humana e da patologia.
58 anos depois do lançamento do livro “O jogador”, Mann publica “A Montanha Mágica”, livro que estou lendo com o grupo de leitura “O ato de ler”. A história se passa em um sanatório em Davos, nas montanhas suíças, onde os endinheirados iam se curar de tuberculose.
Adivinha quem eram os hóspedes do barulho? Acertou quem disse os russos. Eles são retratados como barulhentos, mal educados e… fornicadores.
É ou não é uma divertida e elegante vingança literária?



Muito interessante essa comunicação que só a literatura permite 😅
Oi Ilma, o título de seu texto é dos que mexem comigo. "Uma vingança elegante."deve ser dessas tão sutis para poucos perceberem.
Muito interessante essa fofoca literária sobre a possível conversa entre Thomas Mann e Dostoiévisck através de A montanha mágica. Ainda não li O Jogador e estou subindo a montanha junto contigo no mesmo grupo de leitura. Mas, como li outras obras desse extraordinário escritor russo, considero que, seja por vingança ou por admiração, Thomas Mann escreveu uma obra à altura do outro. Parabéns pelo belo texto.
Gostei dessa vingança, simplesmente brilhante! E a ficção permite essa trolagem com sutileza e estilo. Agora, sobre ser vingativa... Não sei bem se essa seria a palavra, mas eu gosto de fazer pegadinhas com quem apronta! 🤭 Meu sistema de recompensa vibra! 🤣🤣🤣
Apesar de não queremos cavar nossa própria sepultura…a vingança pode nos cutucar de vez em quando…lendo o texto, temos ideias de como reagir! Parabéns. Ilma! Sempre nos instigando à reflexão com seus textos!✨