VULNERABILIDADE
- BETH BRETAS

- 2 de abr.
- 3 min de leitura

Artista Criola / Bairro da Liberdade / São Paulo
O ato de doar não pode ser inútil para você nem para o outro. Nele se realiza o que é seu e o que é do outro, porque entre o pedido e a aceitação, acontece a ação de pedir e de doar que envolvem sentimentos totalmente distintos.
Essa reflexão surgiu depois de dois pedidos que foram feitos a mim, um pós saída de show e o outro em noite de confraternização - aquelas em que você está numa mesa, na calçada de um estabelecimento e alguém se aproxima para pedir. Nesse dia, algo foi percebido por mim - a nossa verdade é o que queremos que ela seja.
Para quem pede ajuda, só a nossa apreciação é resposta efetiva, porque existe só uma resposta para a realidade do outro a ser atendida, uma resposta que respeite apenas a realidade dele que não muda, no momento do pedido. Nenhuma interpretação que surja, mudará o estado verdadeiro do pedido de alguém, onde a nossa atitude resolverá ou não a necessidade do pedido.
Não podemos ajudar o outro a nosso modo – é preciso aprender a ouvir um pedido de ajuda como ele é.
Entender isso, veio atrelado ao ato de confraternizar, numa noite em que um rapaz foi avaliado por dois pontos de vista diferentes.
Estávamos, eu e uma amiga, numa celebração natalina, quando um morador de rua se aproximou, pedindo um sanduíche. Respondi que não tinha dinheiro e ele apontou para o carrinho de lanche da esquina, dizendo só autorize a moça a liberar o pedido. Concordei, ele agradeceu e se foi. A moça sinalizou com o dedo polegar, confirmei. Momentos depois, ele gritou: MOÇA, PODE PEDIR UM REFRIGERANTE, TAMBÉM? Autorizei. ENTÃO, VAI FICAR EM TANTO, TÁ BOM? Ele gritou. Respondi que sim.
Nesta hora, comentei sobre o quanto o comportamento dele estava sendo fofo e respeitoso, por ele não acrescentar nada ao pedido, sem a minha autorização.
E bastou uns minutos a mais, para outra situação surgir. Ele gritou que não iria pegar o refrigerante, porque preferia levar dois sanduíches e queria manter o valor inicial, combinado. Autorizei, novamente admirada. Os sanduíches ficaram prontos, ele se afastou, gritando que estava indo embora e deu tchau.
A moça nervosa se aproximou com a maquininha nas mãos e comentou: Que cara folgado! Ficou me perturbando o tempo todo, pedindo para ir rápido, só que eu tinha que deixar a salsicha ficar no ponto. Ele é conhecido como maluco aqui no bairro, mas é esperto e chato, estava com um lixo na mão e me pediu para jogar fora, respondi joga você! Não sou sua empregada e me respeite! Não é à toa que estou aqui, com meu carrinho de lanches, há mais de 20 anos. Sou conhecida e respeitada. Deixa de ser folgado e, respirando fundo, encerrou os comentários, dizendo que eu tinha sido bacana dando o sanduíche que era para ser um e acabou sendo dois, mas que a estressou.
Um contexto entre calçadas paralelas, onde ao mesmo tempo, foi atribuído opiniões totalmente diferentes sobre um rapaz que estava próximo às duas pessoas envolvidas, sem que nenhuma delas soubesse o desenrolar de uma situação separada pela rua, envolvendo um único rapaz, um único pedido e duas pessoas com funções distintas responsáveis pela realização do pedido.
Pensar sobre esse momento, me fez entender que a única necessidade aqui é a do rapaz que, por fome ou por simples vontade mesmo, pediu para alguém comprar-lhe um sanduíche. Um rapaz que aos meus olhos era tão gentil e aos olhos da vendedora era tão abusado, neste triângulo composto por pessoas que não se conheciam e se tornaram dependentes, naquele pedido atrelado à ação de cada uma.
Há três verdades aqui: a do rapaz, a minha e a da moça. Verdades entrelaçadas pelo pedido por um sanduíche que se transformou em dois e somente o rapaz sabe a natureza da mudança do seu pedido. Somente eu sei a natureza da minha atitude e somente a moça poderá explicar a natureza do seu comportamento.
Refletir sobre um pedido e três comportamentos distintos me leva a pensar o quanto somos vulneráveis. O quanto estamos indefesos, desamparados, frágeis dentro das nossas próprias explicações, o quanto o rapaz se afastou carregando a própria satisfação, a moça se convenceu da própria postura e eu mergulhei na busca pelo entendimento do todo.
Uma situação em que,separados, no silêncio de cada um, somente a verdade de cada um existe e pode ser compreendida.
“E não existe a opção de não ser você mesmo.”
NAMASTÊ!
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Já presenciei situações como esta e repito um questionamento que me deixa enfurecida.
-Quem é o homem na terra? Como responder? Por que o ser humano com tanta inteligência chega a esse ponto de virar mendigo? Ou não tem inteligência? Será, meu Deus! A desigualdade social é tão desigual que derruba um cara perfeito? É perfeito, o que faltou, então? Queria tanto saber responder. Perguntar é fácil, será que a Filosofia tem respostas. Fico doida querendo uma resposta exata, que me convencesse, há solução para esse problema social ou não é problema, é ganância, é preguiça, é um cara folgado, é doença? Será o quê? Só sei que me incomoda e não aceito.
Mesmo que pontos de vista distintos o respeito não pode faltar… respeito, compreensão… diálogo.
Belo texto, querida!
Abraços, Júnia.
Como os olhares delineiam o mundo... Cada um vê e sente com base naquilo que vivenciou também. Um mesmo gesto, vários vieses. E que bom que conseguimos perceber isso para demover de nós uma visão determinista de um mesmo fato. Adorei a ilustraçao do texto! Esse sanduíche nutriu mais do que o esperado...
Que lindo texto, querida! Parabéns!
Costumo fazer o mesmo, ajudando-os a comprar um lanche, em vez de dar o 'trocado'.
Cheguei a financiar uma Coca-cola, pois achei graça na sinceridade do pedido de um jovem, que me abordou na porta da padaria.
Li o texto até o fim, mas esta frase me marcou: "Não podemos ajudar o outro a nosso modo – é preciso aprender a ouvir um pedido de ajuda como ele é."
Parabéns! Parabéns! Parabéns!