A ARTE DO BOM SENSO “LASTRO, LEGADO E UM POUCO DE CAROLINA”
- JEFFERSON LIMA

- há 13 horas
- 6 min de leitura

“Vou apertar, mas não vou acender agora;se segura, malandro, pra fazer a cabeça tem hora”
(Malandragem dá um Tempo – Bezerra da Silva)
O excerto acima é de um samba que ficou famoso na voz de Bezerra da Silva e que me inspirou esta crônica, não antes de se amarrar aos acontecimentos cotidianos. Mas quero iniciar fazendo justiça, citando os nomes dos compositores, quase sempre esquecidos. São eles: Adelzonilton Barbosa, Popular P e Moacyr Bombeiro, que, num contexto provavelmente nada conservador, foram iluminados com esses versos.
Não escolhi um samba por acaso. A minha escolha se deu pelo seu apelo popular e por Bezerra representar o povo simples do morro. Na obra de Bezerra, até o fora da lei tem lugar, mas também recebe conselhos e puxões de orelha. É também em sua obra que encontramos homenagens a vários tipos do morro: ao malandro clássico, que vive da esperteza, mas não cruza a linha da criminalidade; às sogras, sempre com muito humor e irreverência; e, entre uma citação e outra, muitas críticas sociais e políticas. Bezerra, mesmo não compondo boa parte das músicas que cantava, era criterioso na escolha do seu repertório.
Escolhi esse samba também pelo contexto de hoje. Escrevo estas linhas na tarde da Quarta-feira de Cinzas, no calor da apuração do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro e antes de qualquer repercussão mais ampla a respeito.
Particularmente, costumo ter dois pés atrás quando se trata de homenagens. Prefiro as póstumas ou, se a homenagem for feita a alguém ainda vivo, que o homenageado já não esteja exercendo o ofício que o levou ao reconhecimento. Ou, ainda, que esteja em final de carreira, com lastro e legado já inquestionáveis.
Levando em consideração esses critérios pessoais — observemos os fatos.
Das doze escolas que desfilaram, nove escolheram homenagear alguém com relevância para o país. Dessas nove, seis optaram por pessoas que já não estão entre nós. É o caminho mais seguro e coerente. Quem já encerrou sua trajetória por aqui não interfere em nada, não tem o poder de promover alterações nos rumos dos acontecimentos.
Assim, foram homenageados por suas respectivas escolas; Rita Lee (Mocidade Independente de Padre Miguel); Príncipe Custódio (Portela); Mestre Sacaca (Estação Primeira de Mangueira); Carolina Maria de Jesus (Unidos da Tijuca); Heitor dos Prazeres (Unidos de Vila Isabel) e Rosa Magalhães (Acadêmicos do Salgueiro). Todos notáveis em suas respectivas áreas de atuação e que deixaram um legado digno de homenagem.
O ponto mais interessante foi a escolha das outras três escolas, que decidiram homenagear personalidades vivas e, todas elas, em plena atividade. Foram três escolhas completamente distintas, que merecem análise individual.
A Imperatriz Leopoldinense levou para a avenida a obra de Ney de Souza Pereira, o Ney Matogrosso. Como lastro, Ney tem o reconhecimento consolidado desde os tempos do Secos & Molhados, passando por sua profícua carreira solo. Foi eleito pela revista Rolling Stone como a terceira maior voz brasileira de todos os tempos e, pela mesma publicação, o 31º maior artista brasileiro da história. Aos 84 anos, já é dono de um legado de transgressão, resistência e autenticidade. Não costuma levantar bandeiras com discursos prontos ou frases de efeito; no entanto, ao longo de toda a sua trajetória, deixa evidente, por meio de sua obra, a mensagem que deseja transmitir.
O samba-enredo da escola exaltou esse legado em seus versos.
“Eu sou o poema que afronta o sistema,
a língua no ouvido de quem censurar,
livre para ser inteiro, pois
sou homem com H.”
(trecho do samba-enredo da Imperatriz Leopoldinense 2026)
A Unidos do Viradouro homenageou Moacyr da Silva Pinto, o Mestre Ciça. Aos 69 anos, ele é o diretor responsável pela bateria da própria escola. Seu lastro se evidencia pelas inúmeras conquistas ao longo de quase quatro décadas dedicadas ao carnaval carioca, com passagens por cinco escolas. Seu legado é marcado pela inovação no estilo percussivo e na concepção do desfile da bateria. O som e o recuo comandados por Mestre Ciça carregam sua assinatura, já consolidada como referência para as futuras gerações.
“Ciça, gratidão pelas lições que eu pude aprender
e hoje, aos teus pés,
somos todos um nessa avenida
num furacão que nunca vai ter fim.
Nossa história não encontra despedida,
se eu for morrer de amor, que seja no samba.
Sou Viradouro, onde a arte o consagrou.
Não esperamos a saudade pra cantar:
do mestre dos mestres, herdei o tambor.”
(trecho do samba-enredo da Unidos do Viradouro 2026)
Por fim, a Acadêmicos de Niterói homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Aos 80 anos, Lula, como é popularmente conhecido, exerce seu terceiro mandato como presidente do Brasil e manifesta intenção de disputar uma nova eleição. Trata-se de um homem com trajetória de vida consistente, cujo lastro biográfico daria, sem dúvida, uma boa saga literária. Quanto ao legado, este ainda se encontra em construção.
“Quanto custa a fome?
Quanto importa a vida?
Nosso sobrenome é Brasil da Silva.
Vale uma nação, vale um grande enredo.”
(trecho do samba-enredo da Acadêmicos de Niterói 2026)
A letra do samba-enredo exalta sua história até aqui. Nesse Brasil de “Silvas”, a exaltação de um “Silva” que “chegou lá”, com certeza vale um grande enredo. Mas ainda não.
A Acadêmicos de Niterói, campeã de 2025 da Série Ouro — grupo de acesso do carnaval carioca — desfilou pela primeira vez no Grupo Especial. Como toda escola que chega à elite, buscou impressionar com um grande desfile; no entanto, escorregou na casca de banana do bom senso.
O presidente ainda está em exercício e pretende disputar novo mandato. Suas decisões presentes ainda impactam diretamente a vida de todos nós, cidadãos brasileiros, e suas decisões futuras poderão interferir positiva ou negativamente em nossos destinos. Sendo assim, só será possível cravar, com segurança, se o legado deixado por Luiz Inácio é positivo ou negativo quando ele deixar a vida pública — não agora, enquanto sua história ainda está sendo escrita.
Outro ponto pouco observado pela escola foi o tom da homenagem. Uma homenagem deve funcionar como ode ao homenageado, exaltando seus feitos e legado. Não há necessidade de utilizá-la para destacar desafetos. Dentro do contexto atual, faltou esse cuidado por parte dos carnavalescos.
Por fim, faltou observar o timing. Vivemos em um país excessivamente polarizado politicamente e atravessamos um ano eleitoral. Não era o momento adequado para homenagear o presidente em exercício, muito menos enfatizar o lado opositor.
De qualquer forma, ainda que a escola tivesse optado por algo mais contido, já seria suficiente para alimentar polêmicas. As encenações do desfile, que acabaram por acirrar ainda mais os ânimos, não foram suficientes para manter a escola no Grupo Especial. Talvez fosse o momento ideal para um enredo de protesto ou crítica social. A homenagem podia esperar.
Ao final das contas, a Unidos do Viradouro levou o título com sua homenagem caseira, talvez justificando a máxima de que “menos é mais”. Já à Acadêmicos de Niterói faltou escutar o conselho implícito no samba cantado por Bezerra da Silva:
“se segura, malandro, pra fazer a cabeça tem hora”
Faltou serenidade para segurar e apertar o passo no samba para não voltar à categoria de acesso, não era momento de acender. A única coisa que ficou acesa, ao final de tudo, foram os ânimos. Acabaram por jogar contra si mesmos.
De coração mangueirense, fico feliz mesmo é quando vejo a literatura exaltada na avenida. Em 2024, a Portela ficou em quinto lugar com o enredo em homenagem ao livro Um Defeito de Cor, de Ana Maria Gonçalves. Para mim, foi como se a Portela tivesse sido a campeã daquele ano. Agora, a Unidos da Tijuca levou Carolina Maria de Jesus à Sapucaí; na minha leitura pessoal, uma campeã que terminou apenas em sétimo lugar na classificação geral.
Enfim, em louvor às mulheres, encerro esta crônica com o olhar poético de Carolina.
Hino ao Amor
(Carolina Maria de Jesus)
Todas vidas têm um drama,
Só a infância tem comédia,
Quando a gente cresce e ama
É que conhece a tragédia.
Quando no amor é correspondida,
Duplica-se a nossa ilusão.
Quando se é preterida,
Que mágoa no coração!
Quando o homem nos tem amor,
A mulher acha lindo o seu viver.
Se lhe pretere: que estertor!
Blasfema chora e quer morrer.
Quando o homem nos acaricia,
Como é sublime o mundo.
Quando fere com ironia,
Oh! Que desgosto profundo!
O néctar que se chama amor
Está no centro do coração,
em a fragrância da flor,
Produz alegria e ilusão.
Vendo-te fiquei extasiado,
Pensei que eras uma santa.
Depois de haver-lhe contemplado
Para mim ninguém te suplanta.
Contigo quero construir um lar
Com o alicerce da felicidade.
Com os meus deveres não hei de faltar.
Exijo só a fidelidade.
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Ei, Jefferson, boa noite! Assim que soube da publicação do seu texto corri aqui para ler. A temática de Carnaval não é das minhas preferidas, não tenho uma boa relação com ele, mesmo reconhecendo a importância artística que enleva nossa história e nossa cultura. Gostei de suas observações, discordei de algumas, mas isso passa pelo viés dos vieses que temos sobre tudo no mundo, não é? Achei interessante quando você diz que nem toda classificação do Carnaval corresponde necessariamente à classificação que nós mesmos damos aos enredos das escolas. Porque levar Carolina Maria de Jesus à Marquês de Sapucaí, mesmo que ela ficasse em último nos critérios técnicos já teria alcançado o máximo quando pensamos no quão pouco ela é…