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CHUVA INUSITADA

Foto do escritor: BETH BRETAS
BETH BRETAS
6 de mai. de 2024
3 min de leitura

Tempo de chuvas torrenciais – aquelas que cruzam nosso caminho variadas vezes e nos faz abrir e fechar sombrinhas, continuadamente...


Há momentos em que ela, a chuva, anuncia chegada, outras simplesmente cai...


Tantas chuvas já caíram na minha vida, mas nunca uma de forma absolutamente surpreendente e inimaginável...


Ela chegou de frente, de forma imbatível como se viesse ao meu encontro.


Assim!


O céu era de sol fraquinho, quando desci do ônibus e ao dar uns doze passos e virar a esquina, foi como se eu entrasse em outra dimensão...


OUTRA DIMENSÃO!!

 

A Dimensão da Chuva, porque tudo escureceu, anoiteceu num abrir e fechar de olhos e ela, como temporal, tomou conta do momento. 


Perdi a noção de espaço e tempo, no meio de algo inexplicável.


E, parada com os braços para cima, meio atordoada, sem saber se seria engolida ou não, girei sobre o meu próprio corpo, retrocedi, já completamente encharcada e entrei debaixo de uma marquise – sob a mudança daquele céu que nunca conseguirei explicar.

 

E sem me atrever a pedir explicação sobre o que foi aquilo, olhava para aquela enxurrada que descia a avenida com força capaz de arrastar um vilarejo.


Tudo estava totalmente dominado pela presença forte daquela chuva tão imbatível e admirável que me encontrou na virada de uma esquina.


Na marquise, de repente, percebi um jovem com o olhar sorridente também encantado com aquela chuva.

Nos entreolhamos e sorrimos como alguém cúmplice daquele momento. 


E comentários que nada acrescentariam ao que tínhamos presenciado, verbalizamos:


- Você está de moto. Cuidado!

- Pode deixar!

- Que chuva foi essa!!

- Surpreendente, não é? Minha roupa de chuva está aqui!

- Você sabe que é mês de se prevenir!


E ele respondeu com um sorriso que iluminou seu rosto.


Desviamos nosso olhar para a chuva e ela não era mais implacável.


Voltamos a nos olhar e ele disse: 


- Tchau! A chuva está passando, já posso ir!  

- Tchau! Cuidado com o asfalto molhado!

- Vou cuidar!


E vi aquele jovem tão fofo e sorridente saindo daquela Dimensão e entrando no asfalto molhado, iluminado por faróis.


Olhei em volta, ainda sobre o efeito daquele fenômeno, e no sentido contrário à enxurrada que ia diminuindo aos poucos, subi a avenida, com o cabelo escorrendo água daquela chuva que veio ao meu encontro e, por uns minutos, me tirou a noção de tempo e despertou meu olhar poético:


“Eu não fugi das minhas tempestades.

Eu fiquei para lavar a alma.

E de chuva em chuva,

Aprendi a ser Sol.”


Quando o indizível acontece, a poesia aparece para contemplar nossas emoções e, nessa hora, o que nos resta, é admirar o poder do Universo.


Que chuva foi aquela que caiu tempestuosamente, deixando rastros azulados no céu e aquele amarelado de dia entardecendo como se me dissesse que tudo foi pintado com o mesmo pincel.


Subi a avenida sentido o poder daquela chuva tatuada no meu corpo encharcado pela roupa molhada, sentindo que a vida era uma lindeza só.


E com os olhos iluminados pelo brilho dos faróis no asfalto, cheguei em casa e tudo que eu conseguia sentir era parecido com Clarice Lispector:


“Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem das grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite.”



NAMASTÊ!





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6 comentários

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
10 de mai. de 2024

"Se os seus olhos forem bons, tudo será bom". Os imprevistos (tempestades) da vida podem abrir os nossos olhos para a beleza oculta, podem nos ensinar algo que ainda não aprendemos e até mesmo despertar o nosso olhar para a necessidade do outro versus nosso lugar de privilégio (caso das tragédias). Amo a poética do seu olhar, Beth!

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Convidado:
08 de mai. de 2024
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Você sempre arrasa!!

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Convidado:
08 de mai. de 2024
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que pintura linda de guarda chuvas coloridos surgiu desta inesperada tempestade…

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Convidado:
08 de mai. de 2024

Beth, seu texto sobre a chuva me fez lembrar do Rio Grande do Sul. Fico imaginando: a chuva que é fonte de vida, é também de tormentos e morte. Quem é o autor disso? O homem ou Deus?

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Convidado:
07 de mai. de 2024
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

É quando somos abraçados pela chuva.

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