DE ONDE NASCEM OS VERSOS
- JEFFERSON LIMA

- há 22 horas
- 3 min de leitura
“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.”
(trecho de Autopsicografia – Fernando Pessoa)

No mês de março, estive no 8º Festival de Arte Contemporânea Beagá Psiu Poético. O Psiu Poético, como ficou conhecido, é um festival que tem origem na cidade de Montes Claros e mobiliza artistas e leitores há quase quatro décadas. Em Belo Horizonte, esse festival se espalha por diversos pontos da cidade, levando a poesia em suas mais diversas formas — declamada, cantada, em performances poéticas —, em saraus inebriantes que contagiam os presentes. Não raras vezes, alguns se aventuram pela primeira vez ao microfone aberto, para mostrar um poema autoral que estava guardado em algum canto do celular, num caderno ou até mesmo num pedaço de papel que acabou de receber, ali mesmo, alguns versos que não puderam ser contidos e transbordaram da alma. É o batismo de mais um poeta que nasceu!
Participei de três saraus incríveis, que aconteceram em diferentes templos poéticos: o Mercado Novo, o Edifício Maletta e a Casa da Floresta. Quando comparo esses ambientes a lugares sagrados, não cometo nenhum exagero ou heresia. A tarde de domingo, por exemplo, foi marcada pelo sarau na Casa da Floresta, que teve, para mim, o impacto de um rito transcendente, em que músicas, performances e poemas conectaram as pessoas a algo que estava para além de qualquer entendimento.
Cada texto, cada música, cada encenação acabaram por me remeter ao trecho de Autopsicografia, do Pessoa. A capacidade de transformar dores em expressões artísticas é um poder que me encanta e surpreende. Podem ser feridas pessoais, chagas sociais ou aquela tristeza que, de repente, invade o ser sem aparente motivo.
É aqui que o poeta opera o milagre da transubstanciação, fazendo com que cada elemento se converta em arte. Uma decepção pode ser expurgada num lindo poema de amor; uma traição sai pelos poros numa ode à fidelidade; e até a descrença se encarna em oração.
“O contrário também bem que pode acontecer,
de uma estrela brilhar quando a lágrima cair,
ou então de uma estrela cadente se jogar
só pra ver a flor do seu sorriso se abrir”
(Estrela – Gilberto Gil)
“E a mim que sou tão descuidado, não resta mais nada a fazer, apenas dizer que não entendo, meu Deus, como eu amo você.”
(A Lógica da Criação – Oswaldo Montenegro)
No entanto, há momentos em que a dor é tão lancinante que o poeta sangra. Não há como fugir — o corte é fundo, o poema vem denso, a performance é dramática e, se houver canção, será em tom menor. No fim, silêncio.
No domingo, as artistas da AJEB-MG — Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil de Minas Gerais — arrebataram o Psiu Poético com uma performance que trouxe leituras de textos sobre as muitas situações enfrentadas pelas mulheres nos tempos atuais. Foi um momento de emoção e indignação, misturadas à esperança de que os homens venham a se conscientizar.
Durante a emocionante apresentação, cada vez que uma delas lia o seu poema, era possível sentir um coração de carne pulsando e sangrando em versos para denunciar absurdos.
“não evoluo para perpetuar catástrofes
minhas escolhas assinam o prefácio
do meu futuro
– toda omissão é um vazio
inchado de pseudoimparcialidades.”
(Reciprocidade – Suzana Jorge)
Nos últimos meses, senti-me quebrantado diante de alguns rabiscos que escrevi. Ao dedicar-me ao prazeroso ofício de selecionar textos para compor a minha próxima publicação, reli alguns dos quais mal me recordava e dei de cara com o fingidor em mim. Tropecei em estrofes que carregam dores transubstanciadas em versos ora sensíveis, ora difíceis, ora felizes. Há, entre eles, aqueles que me remetem a momentos que, por serem impossíveis de apagar da memória, em versos se perpetuaram.
Ah, Pessoa, seu danado! Você matou a charada! Mas como é bom ter esse poder de transformar sentimentos em palavras e soltá-las por aí. Talvez alguém leia!
tomai e comei
de onde vem essa força
que explode em poesia e
sem que eu a controle
sobe em calafrios e mareja os olhos?
que invasor é esse
que arromba minhas fronteiras
traz à memória dores esquecidas
e põe à prova minha sensibilidade?
que alma é esta que se aloja em meu corpo
que aceita ser atacada, desafiada
levada aos extremos
para saber o que é vida?
nos escombros de meus paradoxos
em vão cavo, garimpo respostas e
ouso sorrir com olhos e lábios
sem definições nem certezas
enquanto em versos
ofereço esta carne que sangra
(Jefferson Lima)
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…Porque poetizar é poder transbordar o que não cabe em palavras, mas das palavras precisa. É poder ir um pouco além das regras, ancorado pela licença poética.
Namastê!
Adorei a metalinguagem que serviu de base para a evolução do texto. um poeta falando sobre o fazer poetico de um grande poeta (Fernando Pessoa), do próprio fazer poético bem como a foto e o relato do Psiu Poético. Não só a metalinguagem, mas este poder de transubstanciação do poeta me encanta. "Ser poeta é ser mais alto, é ser maior que homens". Este é um célebre verso da poetisa portuguesa Florbela Spanca que define o poeta como um ser que, através da poesia, transcende a mediocridade humana, vivendo intensamente entre a dor e o prazer, entre o tédio e arrebatamento. Outro ponto que me chamou atenção é a leitura do espaço da poesia, onde acontece a poesia como lugar…
Muito bom texto, Jeff! Pessoa é o máximo. Genial! Não à toa é meu poeta preferido. Quanto à nós, sigamos celebrando a vida e a arte de versar sobre os acontecimentos que nos movem por dentro!
Jefferson,
Que linda homenagem ao Psiu Poético que nos presenteia, todos os anos, com o melhor da poesia contemporânea. E ouso dizer, meu caro Jefferson, você é um daqueles poetas raros, caros, que poucas vezes encontramos na vida.
Grande abraço,
Ilma