DE ONDE NASCEM OS VERSOS
- JEFFERSON LIMA

- 11 de abr.
- 3 min de leitura
Atualizado: 4 de mai.
“O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.”
(trecho de Autopsicografia – Fernando Pessoa)

No mês de março, estive no 8º Festival de Arte Contemporânea Beagá Psiu Poético. O Psiu Poético, como ficou conhecido, é um festival que tem origem na cidade de Montes Claros e mobiliza artistas e leitores há quase quatro décadas. Em Belo Horizonte, esse festival se espalha por diversos pontos da cidade, levando a poesia em suas mais diversas formas — declamada, cantada, em performances poéticas —, em saraus inebriantes que contagiam os presentes. Não raras vezes, alguns se aventuram pela primeira vez ao microfone aberto, para mostrar um poema autoral que estava guardado em algum canto do celular, num caderno ou até mesmo num pedaço de papel que acabou de receber, ali mesmo, alguns versos que não puderam ser contidos e transbordaram da alma. É o batismo de mais um poeta que nasceu!
Participei de três saraus incríveis, que aconteceram em diferentes templos poéticos: o Mercado Novo, o Edifício Maletta e a Casa da Floresta. Quando comparo esses ambientes a lugares sagrados, não cometo nenhum exagero ou heresia. A tarde de domingo, por exemplo, foi marcada pelo sarau na Casa da Floresta, que teve, para mim, o impacto de um rito transcendente, em que músicas, performances e poemas conectaram as pessoas a algo que estava para além de qualquer entendimento.
Cada texto, cada música, cada encenação acabaram por me remeter ao trecho de Autopsicografia, do Pessoa. A capacidade de transformar dores em expressões artísticas é um poder que me encanta e surpreende. Podem ser feridas pessoais, chagas sociais ou aquela tristeza que, de repente, invade o ser sem aparente motivo.
É aqui que o poeta opera o milagre da transubstanciação, fazendo com que cada elemento se converta em arte. Uma decepção pode ser expurgada num lindo poema de amor; uma traição sai pelos poros numa ode à fidelidade; e até a descrença se encarna em oração.
“O contrário também bem que pode acontecer,
de uma estrela brilhar quando a lágrima cair,
ou então de uma estrela cadente se jogar
só pra ver a flor do seu sorriso se abrir”
(Estrela – Gilberto Gil)
“E a mim que sou tão descuidado, não resta mais nada a fazer, apenas dizer que não entendo, meu Deus, como eu amo você.”
(A Lógica da Criação – Oswaldo Montenegro)
No entanto, há momentos em que a dor é tão lancinante que o poeta sangra. Não há como fugir — o corte é fundo, o poema vem denso, a performance é dramática e, se houver canção, será em tom menor. No fim, silêncio.
No domingo, as artistas da AJEB-MG — Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil de Minas Gerais — arrebataram o Psiu Poético com uma performance que trouxe leituras de textos sobre as muitas situações enfrentadas pelas mulheres nos tempos atuais. Foi um momento de emoção e indignação, misturadas à esperança de que os homens venham a se conscientizar.
Durante a emocionante apresentação, cada vez que uma delas lia o seu poema, era possível sentir um coração de carne pulsando e sangrando em versos para denunciar absurdos.
“não evoluo para perpetuar catástrofes
minhas escolhas assinam o prefácio
do meu futuro
– toda omissão é um vazio
inchado de pseudoimparcialidades.”
(Reciprocidade – Suzana Jorge)
Nos últimos meses, senti-me quebrantado diante de alguns rabiscos que escrevi. Ao dedicar-me ao prazeroso ofício de selecionar textos para compor a minha próxima publicação, reli alguns dos quais mal me recordava e dei de cara com o fingidor em mim. Tropecei em estrofes que carregam dores transubstanciadas em versos ora sensíveis, ora difíceis, ora felizes. Há, entre eles, aqueles que me remetem a momentos que, por serem impossíveis de apagar da memória, em versos se perpetuaram.
Ah, Pessoa, seu danado! Você matou a charada! Mas como é bom ter esse poder de transformar sentimentos em palavras e soltá-las por aí. Talvez alguém leia!
tomai e comei
de onde vem essa força
que explode em poesia e
sem que eu a controle
sobe em calafrios e mareja os olhos?
que invasor é esse
que arromba minhas fronteiras
traz à memória dores esquecidas
e põe à prova minha sensibilidade?
que alma é esta que se aloja em meu corpo
que aceita ser atacada, desafiada
levada aos extremos
para saber o que é vida?
nos escombros de meus paradoxos
em vão cavo, garimpo respostas e
ouso sorrir com olhos e lábios
sem definições nem certezas
enquanto em versos
ofereço esta carne que sangra
(Jefferson Lima)
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Que texto lindo !!! vontade de ter tido a sua experiência com os escritos das pessoas. Somos curados quando falamos de nossas dores e a escrita tem também esse objetivo de dar sentido ao que vai na alma seja seja dor ou alegria!!! Viva os poetas!!
Que bela reflexão sobre a origem dos versos e a capacidade da poesia de transformar a dor em arte! A citação de Fernando Pessoa é perfeita para iniciar essa leitura pelos saraus e pela emoção que a palavra declamada e cantada provoca. É inspirador ver como a arte pode ser um rito transcendente, conectando as pessoas e dando voz a sentimentos profundos, sejam eles de alegria, indignação ou esperança. A performance das artistas da AJEB-MG e o seu poema são exemplos tocantes dessa força transformadora. Parabéns!!!
Não conhecia este Festival! Ano que vem me avise. Só de ler seu texto fiquei com água na boca, pois deve mesmo ser uma experiência maravilhosa. E siga com seus versos. Abraços, Carla Kirilos
Meu amigo, Jefferson, que texto gostoso de ler. Poesia é um troço bonito, né? Mesmo quando fala de dor e crueldade ela chega com os traços da sensibilidade ou com os arranjos de uma concretude árida e necessária para lidar com a crueldade do mundo. Eu desconhecia que o Psiu poético nasceu em Montes Claros e há tantos anos. Muito legal saber disso. Fico feliz que esteja nessa seleção de poemas guardados para trazê-los em breve para o mundo! Tomaremos e comeremos todos! Abraços poéticos
Meu amigo, Jefferson, que texto gostoso de ler. Poesia é um troço bonito, né? Mesmo quando fala de dor e crueldade ela chega com os traços da sensibilidade ou com os arranjos de uma concretude árida e necessária para lidar com a crueldade do mundo. Eu desconhecia que o Psiu poético nasceu em Montes Claros e há tantos anos. Muito legal saber disso. Fico feliz que esteja nessa seleção de poemas guardados para trazê-los em breve para o mundo! Tomaremos e comeremos todos! Abraços poéticos