LIVRO
- BETH BRETAS

- há 1 dia
- 5 min de leitura

Esse objeto sempre esteve presente na minha vida. Sou filha de um homem amante de biblioteca, que separava um quarto cheio de variadas narrativas, um bem decorado, com uma mesa de oito cadeiras no centro e duas estantes que recebiam exemplares, todos os meses. E, por incrível que pareça, amando como amo fotografar, não tirei uma foto dessa biblioteca tão particular de um pai que me deixou como herança uma forte identificação com a literatura - quando entro em ambiente cercado por livros, confortavelmente, me entrego, porque aquele amigo que entende perfeitamente o que me toca, pode ser um livro.
“Quando um livro é bom às vezes as pessoas mergulham na história, e o livro acaba virando o melhor amigo do ser humano.”
Andei refletindo sobre o livro, não sobre o conteúdo, mas sobre esta coisa compacta, formada por folhas e linhas e letras e que carrega sua personalidade própria, independentemente dos textos que registra.
Esse objeto que aceita a nossa interferência em cada capítulo ou cada parágrafo ou trecho de uma história. Essa coisa concreta que pode receber nossas anotações, nosso sublinhar, nosso dobrar, nosso rasgar, nosso rabiscar. Esse objeto que nos fornece a possibilidade de manifestação dentro da história – tempo real da leitura – e que podemos carregar nas mãos ou dentro de uma bolsa ou colocar numa prateleira, ou cabeceira…
Que podemos dar de presente, que podemos indicar, que podemos desindicar, porque para ele, o livro, atribuímos grande poder:
- ...é o livro da minha vida.
- ...é o livro que mudou minha vida.
- ...é o meu livro de cabeceira...
Brianna Labuskes, em A Bibliotecária Dos Livros Queimados, nos diz sobre um poder magistral encontrado nos livros, o poder de criar a possibilidade de nos colocarmos na cabeça de outra pessoa, que talvez nunca iremos encontrar, mas que nos conecta à magia de escritor/leitor, produzindo uma comunicação não presencial.
“Quando alguém queima um livro, está tentando cortar os fios que nos conectam.”
Brianna Labuskes
E essa conexão vai além de escritor/leitor, porque o livro possui um pouco de cada personalidade que o tocou, durante a elaboração do projeto que definiu qual o tema, a capa, a imagem, a cor, a textura, o tamanho da fonte…
E dentro de todo um contexto que um livro possa se encontrar, não podemos negar, a ele, a sua personalidade própria, que vem por meio do fato de ser um objeto, batizado por um título, que dialoga de variadas formas conosco, como neste diálogo em que a protagonista fala para o amigo que o sentimento que ela acreditava ser amizade havia se transformado em amor, explicando a nova percepção por meio do livro que acreditava tanto conhecer:
“ Eu tinha um livro comigo. Como é um livro muito antigo, como é um livro muito bom, todas às vezes em que me sentia cansada, feliz ou vazia, eu o tirava pra ler. Eu decorava as frases do livro, porque lia várias vezes. Mas ultimamente o livro está um pouco estranho pra mim. Quando leio as frases que eu tinha sublinhado, não sei por que raios as sublinhei. É o livro que li e reli várias vezes, mas agora eu fico vendo frases novas que não tinha visto. E agora percebo que as frases que perdi eram muitas. Parece que estou lendo um livro novo.
O amigo respondeu que os livros são bons assim e que reler um livro que leu aos 10 anos, não será a mesma coisa, não é porque o livro mudou, mas porque alguma coisa mudou na leitora.
(Romance Is a Bonus Book – Temp.1 – Ep.9 / Netflix)
Esta série explora o ambiente de uma editora e, nesse episódio, a protagonista percebe na leitura dos gestos, das ações, o amor não declarado por palavras, do seu melhor amigo - um relacionamento que muda de amizade para amor, na metáfora do livro que lemos tantas vezes, a ponto de ficarmos cegos para outras interpretações que possam se encontrar nas páginas tantas vezes lidas.
INDICO.
Qual é o seu livro de cabeceira, eleitor(a)?
Meu livro de cabeceira foi batizado com o nome de CIDADELA - Saint-Exupéry - a história se passa no deserto do Sahara. Nesse lugar a construção se faz por meio do coração do homem fundador, que percebeu, no silêncio da paz interior, a forma universal como deveria liderar e fundar uma Cidadela. É um livro sobre filosofia de vida, sobre o amor, sobre o respeito ao indivíduo e à humanidade, sobre a busca do sublime: "Só vale alguma coisa a vida que é trocada por algo superior a si."
Páginas e mais páginas de muita sabedoria!
“Quando era jovem, andei na caça do jaguar. Abria covas para jaguar, habitadas por um cordeiro, cheias de estacas e cobertas de erva. De madrugada, quando eu voltava, encontrava lá o corpo do jaguar. Para tu inventares a cova do jaguar, com as suas estacas, o seu cordeiro e a sua erva, é questão de conheceres os costumes do jaguar. Mas se não souberes nada do jaguar e eu te pedir que estudes uma cova para o apanhar, não serás capaz de a inventar.” - Saint-Exupéry
Se você fosse batizar um livro, contar uma história, que história gostaria de contar, leitor(a)?
Eu gostaria de ser capaz de contar esta de Rubem Braga:
“Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está doente naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse -- "ai meu Deus, que história mais engraçada!
[...] Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa, enlutada, doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso...
[...] Que o comissário do distrito, depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas mulheres colhidas nas calçadas e lhes dissesse – por favor, se comportem! Diabos! Eu não gosto de prender ninguém!”
Salve! Salve! Rubem Braga!
Sinto nesse nosso objeto de analise, a criação de um espaço amplo e gentil, onde a escrita se manifesta, nele, também por meio de registros de som, melodia, voz.
“Se falo que hoje, amanheci escutando uma versão linda de Ave Maria, citada no livro que estou lendo, ao dizer o título da música, você já escuta a melodia”.
Ao pensar sobre essa lindeza de objeto, penso também no risco do desaparecimento que o ameaça, como aconteceu em 10 de maio de 1933, onde 25.000 exemplares foram queimados em praça pública, na Alemanha, como forma de eliminação de dogmas - uma eliminação que continua acontecendo.
Como? Não por meio de fogueiras, mas por meio de um mundo renovado pela inteligência que se diz emocional.
Já pensaram sobre isso?
Esse texto, na verdade, além de contemplar o hobby do meu pai, também contempla o Blog Bendita Existência que há um ano, lançou o seu primeiro livro: Bendita Existência – O Essencial do Existir – espaço que registra a essência da vida de cada colunista que se uniu em torno de um propósito: encontrar o valor da sua presença no mundo.

Gratidão ao meu pai por me deixar essa belíssima herança – o gosto eterno por livros.
À Rubia e ao Blog Bendita Existência, Feliz Aniversário para o nosso livro!
NAMASTÊ!
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Parabéns a todos do blog Bendita Existência!!!
Gratidão Beth! Que lindo texto!
Cada livro uma emoção, uma oportunidade de crescer...
💐🦋
Parabéns a todos do blog Bendita Existência!!!
Sim, livros penso agora que deveria ser a paixão, o amor de qualquer ser! Porém como todo amor, como toda paixão, ele se torna perigoso, porque em alguns momentos mesmo sendo o meu escolhido não o entendo. Essa verdade vale tanto para o livro-amor-amor quanto para o livro-amigo. Lindo texto!!!!!
Que primor, Beth! Como um apaixonado por livros, que também tem uma biblioteca particular em constante formação, viajei durante a leitura do seu texto. Que bons livros nos atravessem no estradar da existência! E que o Bendita tenha a sua estação para florescer outra bela obra!
Livro é tudo de bom!! E parabéns ao Bendita Existência.