LOGO ESTAREI EM CASA


Estou sentada em meu escritório, a tela do computador brilhando na minha frente, depois de tanto tempo sem escrever uma única linha. Eu sei, preciso tomar alguma medida, mas você precisa entender que as coisas não andam fáceis, especialmente com as crianças. Bem, para tentar sair desse estado, vou contar sobre uma certa noite que, de vez em quando, me vejo pensando.
Tinha acabado de completar 13 anos, e estava passando, com meu irmão, um período na casa dos meus tios. Eles moravam em um antigo sobrado em Ouro Preto, coração de Minas Gerais. Estávamos todos reunidos na sala, degustando uma sopa preparada por minha tia. Sentíamos um frio que nós, nascidos em país tropical, não experimentávamos sempre.
- Tia Helena, amanhã nós já vamos pra casa? – Perguntou Arthur, Bebericando a sopa.
- Já falamos sobre isso. -Respondeu, com seu tom ríspido. - Vocês irão passar duas semanas conosco.
- E quantos dias já foram?
- Três, Arthur.
- Ah.
- Não sei o motivo de tanta pressa pra ir embora. – Pontuou Tio Ulisses, enquanto lia seu jornal -Aqui é um ótimo lugar para crianças como vocês se divertirem!
Um forte trovão ecoou logo após sua fala, fazendo a fraca luz amarela desaparecer por um instante. Arthur teve um sobressalto, estremecendo.
-Ah, deixa disso! -Exclamou a tia Helena. - Sua irmã está adorando a estadia, não é, Diana?
Balancei a cabeça positivamente, observando aquela sopa totalmente sem gosto.
-Bem, vocês deveriam procurar algo para se entreterem. O tio de vocês adora ficar contando baboseira. Podem ficar ouvindo suas histórias enquanto lavo a louça. -Disse, levantando e recolhendo nossos pratos quase intocados.
Quando restavam apenas nós três no cômodo, olhamos para tio Ulisses com maior curiosidade. Seu longo bigode, estatura incrivelmente alta e magra despertava em nós certo asco e fascínio.
Ele deixou de lado seu jornal, ajeitou-se na poltrona.
-Muito bem, é sempre bom ter outras pessoas com quem conversar. A minha amada esposa não tem tanta paciência para longas conversas.
-Por que não conversa com seus amigos? – Perguntei, enquanto acariciava os longos cabelos de Arthur.
-Estão todos mortos.
- Sinto muito. – Disse, mas eu não sentia nada. Pouco me importava seus amigos.
- Deixa disso, é o que acontece quando o tempo passa. Agora...olhando para vocês dois, eu me lembro de uma história que ouvi quando ainda era jovem. Quando as casas...
- Você tem que falar “Era uma vez"- Disse Arthur.
- O que? Bem... era uma vez, quando as casas ainda eram poucas e os vales se estendiam em todas as direções, duas crianças estavam andando por um grande bosque. Era uma noite fria de junho, assim como essa. -Disse, nos encarando com certa malícia. – As crianças tentavam sair do bosque, mas estavam totalmente perdidas. Quanto mais andavam, mais se distanciavam do seu lar.
Arthur parecia ouvir tudo atentamente, sem nem piscar seus grandes olhos, o que só divertia mais o contador.
- Então, quando as crianças estavam prestes a desistir, uma luz surgiu em meio às árvores, junto com o som de passos se aproximando...
-Um monstro? – meu irmão perguntou, os olhos ainda mais atentos.
Tio Ulisses soltou uma risada seca.
- Bem, depende do que seria um monstro pra você...
Fiquei encarando a janela, tentando não demonstrar a minha crescente curiosidade.
- Os irmãos se abraçaram, assustados. Foi quando surgiu na frente deles... uma garota.
-Uma garota? - Arthur disse, não conseguindo esconder a decepção na voz.
- Isso mesmo. - Confirmou. - Seus cabelos castanhos eram tão longos que arrastavam no chão, cobertos por dálias de diferentes cores, usava um vestido verde como a grama. Seus olhos tinham um tom quase avermelhado que cintilava com a luz do candeeiro que segurava.
Desviei, por um instante, o olhar da janela e encontrei meu tio com os olhos semicerrados enquanto fazia a descrição, o rosto apoiado em suas mãos.
- A garota se apresentou como Alda e disse que poderia conceder um desejo a uma das crianças. O irmão mais velho então, sem hesitar, aproximou-se e desejou “ir pra casa”. Ao ouvir o pedido, Alda sorriu e afirmou que faria sua vontade. – Houve uma pausa, seguida por um estalar de língua. - O que os irmãos não contavam, era que a casa para a qual seriam levados não era o seu lar.
Então, voltei-me para ele, agora com um olhar meio vago.
- Para onde eles foram? – Meu irmão perguntou.
- Ora, para a casa da Alda, no coração do bosque. E ficaram lá por toda a vida.
- Mas, por que ela fez isso?
Tio Ulisses deu de ombros.
- Dizem que o bosque é muito solitário. Por que não arranjar alguém para amar?
- Amar? – indaguei – coisa idiota.
Ele voltou seu olhar para mim, com um semblante sério. Depois veio um riso.
- Você é jovem demais para entender o que significa amar. O amor é que motiva nossa existência, ainda que não se saiba como expressá-lo.
Passei aquela noite encarando o teto, remoendo aquelas palavras sem parar. Assim como faço agora que escrevo sobre esses fatos.
Espero conseguir mandar esse texto o quanto antes. Como disse, estou muito ocupada com as crianças. Não param de me perguntar quando vão voltar para casa, mesmo eu respondendo que a estadia deles aumentou de três semanas para um mês. Tem sido tão cansativo mantê-los por aqui. Mas eu compreendo que esse amor move minha existência.



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