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O MILAGRE DA GENTILEZA

  • Foto do escritor: JEFFERSON LIMA
    JEFFERSON LIMA
  • há 2 dias
  • 4 min de leitura

“Apesar de você, amanhã há de ser outro dia,você vai ter que ver a manhã renascer e esbanjar poesia. Como vai se explicar, vendo o céu

clarear de repente, impunemente? Como vai abafar nosso coro

 a cantar na sua frente?” 

(Apesar de Você – Chico Buarque de Holanda)



Nos últimos meses me dediquei à leitura do livro Os Miseráveis, um clássico do romantismo francês, escrito pela pena humanista de Victor Hugo (1802-1885) e publicado em 1862. Na extensa obra, repleta de contextos históricos da época, como a Batalha de Waterloo e a Insurreição de Paris de 1832, Victor Hugo penetra no cerne dos paradoxos humanos.


Ao acompanharmos a vida de Jean Valjean a partir do ponto em que nos é apresentado, somos confrontados com questões profundas que mexem com os nossos próprios valores, percepções e julgamentos.


Valjean ficou preso por 19 anos. Cinco, pelo furto de alguns pães, e o restante, em regime de trabalhos forçados, devido às várias tentativas de fuga. As quase duas décadas de prisão foram suficientes para tornar quase impossível a sua ressocialização. Logo na saída, percebeu que a sua reintegração na sociedade não seria nada fácil, dadas as primeiras recusas para uma hospedagem ou até mesmo para conseguir alimentos. No entanto, a única porta que se abriu para um prato de comida e uma noite de sono, mudaria a sua vida para sempre.


Monsenhor Bienvenu, o bispo de Digne, acolheu o moribundo com um prato de comida e uma cama quente para dormir; um homem bom, que acolheu como acolheria a qualquer um dos filhos de Deus, sem qualquer questionamento. Com o coração endurecido pelos anos de reclusão e pela crueldade das pessoas, Jean Valjean fugiu de madrugada, levando as pratarias da casa do bispo. Pela manhã, detido por policiais e reconduzido à residência episcopal, não só foi perdoado, como recebeu mais dois castiçais de prata. Monsenhor Bienvenu afirmou aos homens da lei que os objetos eram um presente e que, por descuido, os castiçais de prata haviam sido esquecidos. Ao se despedirem, o bispo disse nos ouvidos de Jean Valjean: Meu irmão, lembre-se de que já não pertence ao mal, mas sim ao bem. É sua alma que acabo de comprar; furto-a aos maus pensamentos e ao espírito de perdição para entregá-la a Deus.


Pronto. Um milagre se operou ali. Em outras palavras, o bispo repetia a ordem de Jesus à mulher que acabara de escapar de um apedrejamento: Eu não te condeno; vá e não peques mais. A partir daquele dia, Jean Valjean passou a ser, para os outros, uma fonte de cuidado, um porto seguro — ainda que ele próprio estivesse sempre em perigo. E o mais importante, também passou a ser uma fonte de perdão – que o diga o inspetor Javert, que não suportou tamanha grandeza de caráter, resignação, gentileza e amor que emanavam daquele fora-da-lei.


Victor Hugo foi muito feliz ao parafrasear o texto do Evangelho de São Lucas logo no início do livro:


“Mas lembre-se que haverá mais alegria no céu pelo rosto lavado em lágrimas de um pecador arrependido, do que pelas cândidas vestes de cem justos.”

(Os Miseráveis – 1ª parte, Livro II)


Se no século XIX Victor Hugo nos apresentou a redenção pela misericórdia, no Brasil do século XX a mesma lógica reaparece, agora grafada nos muros do Rio de Janeiro.


Nos idos de 1960, em Niterói, após um incêndio acometer o Gran Circus Norte Americano, matando centenas de pessoas, inclusive crianças, José Datrino cria um jardim para, a partir daquele lugar que viu uma tragédia, proferir palavras de consolo para as pessoas. O jardim ficou conhecido como Paraíso Gentileza, enquanto José Datrino se transformou no Profeta Gentileza.


Mais tarde, nas suas andanças pela cidade do Rio de Janeiro, o Profeta Gentileza espalhava a sua mensagem de que Gentileza Gera Gentileza. Até hoje vemos a sua mensagem escrita em camisetas, cadernos, muros, enfim, a mensagem se espalhou pelo país e se mantém viva. O princípio que opera, na prática, é aquele aplicado pelo Monsenhor Bienvenu e replicado por Jean Valjean.


Lenine cantou:


A vida é tão rara, tão rara...Mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma,Mesmo quando o corpo pede um pouco mais de alma,Eu sei, a vida não para...

(Paciência – Lenine)


Me pego pensando nesses momentos em que o corpo pede um pouco mais de alma e todas as histórias citadas anteriormente me vêm à lembrança. Creio que são nos momentos em que damos maior vazão à nossa alma, que transbordamos amor, empatia e perdão.


Quando o corpo pede um pouco mais de alma, abrimos mão dos nossos desejos em prol de ver brotar um sorriso em outro rosto. Deixamos de fazer por nós para suprir a necessidade de alguém. Quando o ser é menos corpo e mais alma, a gentileza recebida se transforma em gentileza repartida e o fardo de dores que porventura carregamos, torna-se pílulas, distribuídas em palavras, em um abraço, em um olhar, em um silêncio acolhedor que cura.


Mas o que torna o final feliz, é saber que a centelha divina habita em todo ser humano e, não importa quão apagada esteja a chama, ela está disposta a brilhar tão logo encontre alguém que transborde gentileza e dê vazão à alma.


Por fim, me emociono ao reconhecer que somos, todos, ora miseráveis esperando um olhar, uma mão e uma palavra virem ao nosso socorro, e ora portadores da gentileza que, estendida a outros, resgatará vidas da miséria gerando mais gentileza, formando assim um ciclo virtuoso, uma corrente do bem, capaz de alterar destinos e melhorar esse nosso mundo.


Adélia Prado escreveu: não se faz poesia apenas com palavras: poemas, sim, mas quem precisa deles?


Parafraseando Chico Buarque, apesar de nós mesmos, sempre haverá outro dia que, sem explicação e impunemente, esbanjará poesia.


Versemos!







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25 comentários

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há 11 horas

Querido Jefferson, ainda nao lí o Victor Hugo e portanto, gostei de encontrar aqui uma sinopse da história que, com certeza, me levará daqui à pouco até ele. Mas, o que mais gostei foi você ter alimentado o meu dia. Ainda como uma Jean Valjean antes da redenção, aprendendo a arte de dar ouvidos à essência da alma, busco boa comida pra comer num cantinho quente alimentando a vida. Bom que você escolheu as boas palavras, uma das centelhas divinas, porque alguém, assim como eu, precisará delas. A sobremesa está servida.🙏🏽

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Clarice Soares Barreto
há 12 horas
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Ah, meu amigo poeta! Que bom ser contemplada ao cruzar teu caminho! Recomendações a Mauro Brandão, que nos apresentou.

Sua escrita é um bálsamo para a alma e para os espíritos que derivam para lugar algum.

Do livro Os Miseráveis, que você conseguiu extrair o que há de melhor e me instigar à leitura, você nos reportou a uma tragédia de 1961, ano do meu nascimento: o incêndio do famoso circo brasileiro, de nome americano, no centro de Niterói, que entregou à morte cerca de 500 vidas, majoritariamente crianças. Da tragédia ao senhor Datrino, o Profeta Gentileza, que transformou o local no jardim da poesia gentil, cujos escritos foram apagados, mas eternizados na música “Gentileza”, de Marisa Monte e Arnald…

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
há 12 horas
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Acho que uma crônica talvez seja isso mesmo, Clarice, uma conversa com o leitor. Um dedim de prosa da boa, com café e pão de queijo. Gratidão pela leitura!

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Convidado:
há um dia
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

O mandamento " Amai-vos uns aos outros como eu vos Amei" do Mestre Jesus se fosse seguido, seriamos mais simples e felizes. Grata por renovar esta mensagem de forma poética. Nos recordando do Profeta Gentilza

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
há 13 horas
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Gratidão pela gentileza da leitura e comentário. Sigamos sendo gentis!

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Michelle MKO
há um dia
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Amei seu texto, Jefferson! Uma intertextualidade que atravessa séculos e gerações lembrando que o bem, a caridade e a gentileza são ações atemporais e que se fazem necessárias em todo tempo e lugar. Não li o livro Os Miseráveis de Victor Hugo, agradeço pela sinopse mais que sensível e atraente! Uma das minhas próximas leituras! Abraços fraternos, meu amigo!

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
há 13 horas
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Obrigado, Michelle! Tenho certeza que quando fizer a travessia das muitas páginas desta obra, também será sensivelmente tocada! Bjs

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Convidado:
há um dia
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

A obra os Miseráveis sempre me inquietou! Monsenhor Bienvenu exercia o perdão conforme os preceitos bíblicos e não estamos acostumados com isso. Adorei ler seu texto e refletir novamente sobre esta obra e seus princípios! Abraços, Carla Kirilos

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
há 13 horas
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É realmente inquietante, Carla! É uma obra linda e que, em muitos momentos, nos confronta. Abração!

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