O UNIVERSALISMO E O LOCALISMO NA LITERATURA - DOS PRIMÓRDIOS ATÉ O MODERNISMO


Desde o início de minha imersão nos estudos literários, uma questão que sempre se destacou foi a tensão entre o universalismo e o localismo (ou regionalismo), frequentemente concebida como a oposição entre literatura universal e literatura local. Mesmo antes do advento da imprensa, responsável por ampliar a circulação e a universalização do conhecimento, já se observava nas grandes epopeias a presença de temas cosmopolitas. Essas obras não se restringiam a contextos particulares, mas narravam a trajetória do ser humano no universo, refletindo sobre sua existência, seu devir e a consciência de estar no mundo.
Não apenas a tradição literária ocidental, mas também a oriental, apresenta obras que transcendem os limites do regionalismo e se afirmam como universais. O Mahabharata, por exemplo, além de seu conteúdo filosófico-devocional, narra os eventos e as consequências da guerra de Kurukshetra, configurando-se como uma reflexão sobre a busca pelo poder. De modo semelhante, o Ramayana e o Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia) abordam questões de cosmogonia e antropogonia, constituindo discursos fundadores de mundos e de povos que necessitaram demarcar seus espaços tanto no plano geográfico quanto no existencial. Essas narrativas, ao construírem sentidos sobre a condição humana, ultrapassam os limites do localismo e se projetam para a universalidade, revelando preocupações que dialogam com diferentes culturas e épocas.
No âmbito oriental, destaca-se a coletânea As Mil e Uma Noites, cuja narrativa aborda, entre outros aspectos, a questão do feminicídio: a violência sistemática contra mulheres pelo simples fato de serem mulheres. Contudo, a obra também evidencia a força, a inteligência, a coragem e a criatividade feminina, representadas na figura de Sherazade, cuja palavra adquire valor simbólico de cura e transformação. A temática, longe de ser exclusiva da tradição árabe, reflete problemas universais que atravessam culturas e sociedades, reafirmando a condição da mulher como protagonista de resistência e de afirmação existencial. Nesse sentido, Sherazade pode ser compreendida como arquétipo da mulher em escala global, representando a luta contra a opressão e a afirmação da vida por meio da narrativa.
Transpondo para o universo grego, observa-se a relevância das obras teogônicas, cosmogônicas e antropogônicas, especialmente a Teogonia de Hesíodo. Este texto constitui um marco na tradição literária ao narrar o surgimento dos deuses e a formação do cosmos, estabelecendo uma correlação entre divindades e elementos celestes, como os planetas. A obra apresenta uma estrutura que divide o mundo em três domínios: o reino da terra (Olimpo), o reino do mar (Oceano) e o reino dos mortos (Hades). Além disso, descreve os conflitos entre linhagens divinas pelo poder, conhecidos como Titanomaquia, que simbolizam a luta pela ordem e pela hierarquia no universo. Assim, a Teogonia ultrapassa os limites do regionalismo, oferecendo uma visão universal sobre a vida e o mundo.
No segundo livro de Hesíodo, Trabalhos e Dias, encontra-se o mito da criação do homem, cuja dimensão universal permite estabelecer paralelos com outras tradições. O homem prometeico aproxima-se do homem adâmico, uma vez que ambos são moldados a partir do barro. Mesmo os castigos que lhes são atribuídos revelam semelhanças, ainda que com diferenças estruturais: o homem de Prometeu atravessa sucessivas idades até alcançar a Idade do Ferro, momento em que adquire consciência do sofrimento e da morte, configurando uma espécie de perda do paraíso. O diálogo com o texto bíblico é evidente, sobretudo na repetição da universalização do preconceito contra a mulher. Se na narrativa bíblica Eva, ao comer o fruto proibido e induzir Adão a fazê-lo, ocasiona a punição de toda a humanidade, na obra de Hesíodo é Pandora quem, ao abrir a caixa repleta de males, dissemina-os pelo mundo. Em ambos os casos, a mulher é responsabilizada pela introdução do sofrimento humano, instaurando um discurso que inaugura o preconceito contra a figura feminina no imaginário ocidental.
Na tradição literária grega, a Ilíada e a Odisseia constituem obras fundamentais que revelam a tentativa do homem de afirmar sua condição na humanidade, ainda que submetido às determinações dos deuses e do destino. O indivíduo, concebido como figura manipulada pelas forças divinas, busca afirmar-se por meio de feitos heroicos e batalhas sangrentas, procurando preencher o vazio de uma existência marcada pela ausência de liberdade. Nesse contexto, a guerra e o heroísmo tornam-se instrumentos de resistência contra a condição de marionete dos habitantes do Olimpo. A narrativa homérica, portanto, não apenas descreve confrontos militares, mas também reflete sobre a luta existencial do ser humano em sua busca por autonomia e sentido. Além disso, essas epopeias configuram-se como discursos universais, pois tratam da tensão entre liberdade e destino, da fragilidade humana diante do poder transcendente e da tentativa de inscrever a experiência individual na memória coletiva. Assim, a literatura homérica ultrapassa os limites do tempo e do espaço, oferecendo uma reflexão que permanece atual na compreensão da condição humana.
Na Odisseia, observa-se uma reconfiguração da representação feminina em contraste com a visão depreciativa presente em Trabalhos e Dias, de Hesíodo, onde as mulheres são descritas como “raças de víboras malditas”. Homero, por sua vez, evidencia o poder e a complexidade da figura feminina, retratando-a como bela, inteligente, sagaz e criativa. Penélope, nesse sentido, pode ser compreendida como uma espécie de Sherazade ocidental: ambas alcançam seus objetivos por meio da coragem, da astúcia e da perseverança. Enquanto Sherazade salva o gênero feminino e, por extensão, o reino através da força narrativa, Penélope assegura a sobrevivência de sua casa e de seu marido por meio da engenhosa estratégia do tecido interminável. Assim, a literatura homérica confere à mulher um papel ativo na construção da ordem social e simbólica, subvertendo a condição de passividade atribuída em outras tradições.
A Eneida de Virgílio, por sua vez, pode ser lida como um discurso fundador da cultura latina, sobretudo quando considerada em diálogo com a Ilíada de Homero. Esta epopeia narra a jornada de Eneias, príncipe troiano que, após a destruição de Tróia, empreende uma longa viagem até o Lácio, onde se une a Lavínia, filha do rei Latino. Dessa união, segundo a tradição, descende Reia Sílvia, mãe dos gêmeos Rômulo e Remo, cuja sobrevivência é assegurada pela célebre Loba do Capitólio. Rômulo, posteriormente, torna-se o fundador de Roma, estabelecendo o mito de origem da civilização romana. Nesse sentido, a Eneida articula narrativas que transcendem o localismo, configurando-se como textos universais que tratam da fundação de povos e da legitimação de culturas.
Já em contexto cristão, destaca-se Os Lusíadas, de Camões, cuja universalidade se manifesta na celebração do antropocentrismo renascentista. A obra reflete uma concepção de mundo que se consolida a partir da substituição das teorias platônicas pelas aristotélicas, promovendo a retomada dos valores greco-romanos e a valorização da experiência humana. Esse movimento intelectual contribuiu para o avanço do humanismo, acelerou a crise do feudalismo e inaugurou o que se convencionou chamar de aurora do capitalismo. O conjunto de transformações culturais e sociais ao longo de cerca de três séculos culminou no Renascimento, marcado pela invenção da imprensa, que possibilitou a universalização do conhecimento e promoveu a transição da Idade Média para a Idade Moderna. Assim, Os Lusíadas inscrevem-se como obra paradigmática da literatura universal, ao articular a expansão marítima portuguesa com a afirmação do homem como medida central do mundo.
Em Os Lusíadas, Camões propõe um deslocamento dos valores tradicionais da epopeia clássica, ao substituir os heróis gregos e latinos pela exaltação dos feitos portugueses. A obra configura-se como discurso fundador da identidade nacional, narrando a jornada marítima que culminou na abertura da rota para as Índias e na expansão do comércio. Trata-se de um registro que insere o povo luso no cenário internacional, destacando sua capacidade de conquistar mares, dominar territórios, difundir o idioma e a religião, além de acumular riquezas que despertaram a atenção das demais nações europeias. As grandes navegações do século XVI, nesse sentido, representam o auge do antropocentrismo renascentista, ao colocar o homem como protagonista da história e agente da transformação do mundo.
A partir do século XVII, entretanto, observa-se o declínio das epopeias como gênero literário. Obras como Jerusalém Libertada, de Tasso, e Orlando Furioso, de Ariosto, ainda foram produzidas, mas não alcançaram o mesmo impacto. Muitos estudiosos atribuem essa perda de relevância à incompatibilidade da epopeia com a lógica emergente do capitalismo, o que favoreceu a ascensão do romance como forma literária dominante. Após Dom Quixote, de Cervantes, o espaço para o herói épico praticamente desaparece, uma vez que os grandes feitos universais já haviam sido cantados. As tentativas posteriores, centradas em fatos menores e desprovidos de universalidade, não encontraram sustentação para se perpetuar como obras de referência.
No século XV, o teatro vicentino, embora retratasse aspectos da sociedade portuguesa de sua época, abordava temas universais que permanecem atuais, como a ambição, a ganância e a hipocrisia social. O mesmo se pode afirmar das obras shakespearianas, cuja permanência no repertório mundial se deve justamente à universalidade de seus temas. Questões como crise existencial, conflitos familiares, dúvida, suicídio, amor trágico, ciúme e obsessão pelo poder traduzem dilemas que transcendem épocas e espaços, reafirmando a condição humana como núcleo da literatura. A força dessas obras reside na capacidade de espelhar sentimentos e conflitos que continuam a interpelar o leitor contemporâneo, independentemente de sua cultura ou contexto histórico. Por isso, tanto o teatro vicentino quanto o legado de Shakespeare exemplificam como a literatura, ao tratar de temas universais, mantém sua relevância e atualidade ao longo dos séculos.
Com o Arcadismo, observa-se a recriação de espaços idealizados e a valorização da natureza como cenário literário, em consonância com o ideal de simplicidade e equilíbrio herdado da tradição clássica. Já no Romantismo, a ênfase desloca-se para o nacionalismo e o regionalismo, conferindo destaque às narrativas que descrevem características locais e reforçam identidades culturais. Apesar dessa centralidade do espaço e da nação, lampejos de universalismo permanecem perceptíveis em obras que transcendem fronteiras, como Fausto, de Goethe, os poemas de Lord Byron e O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. Essas produções revelam que, mesmo em períodos de forte valorização do particular, a literatura continua a dialogar com questões universais da condição humana, como a busca por sentido, os dilemas existenciais e os conflitos passionais. Assim, o contraste entre o local e o universal não se configura como oposição absoluta, mas como tensão produtiva que enriquece a tradição literária e amplia sua capacidade de significação.
O Realismo, por sua vez, retoma de forma contundente os temas universais, explorando o ceticismo, o pessimismo, o niilismo, o ateísmo, o existencialismo e o determinismo social. Autores como Tolstói, Dostoiévski e Machado de Assis exemplificam essa tendência, ao problematizar a condição humana em sua complexidade psicológica e social. No caso brasileiro, a tríade machadiana — Quincas Borba, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro — evidencia tais características, ao mesmo tempo em que dialoga com o regionalismo e com as especificidades da sociedade carioca do século XIX. Mais adiante, obras como Os Sertões, de Euclides da Cunha, reafirmam a dimensão universal ao retratar o homem diante da guerra, da fome e da miséria, revelando o declínio da condição humana em sua luta pela sobrevivência. Nesse contexto, o Realismo consolida-se como um movimento que, além de representar a realidade social, insere-a em um quadro filosófico mais amplo. Essa capacidade de unir o particular ao universal garante ao Realismo uma relevância duradoura, tornando-o um dos momentos mais fecundos da literatura mundial.
Na contramão do realismo e do Naturalismo surge o Simbolismo, movimento literário e artístico do final do século XIX, aborda temas universais que refletem a busca pela transcendência e pelo mistério da existência. Entre eles, destaca-se a espiritualidade, que procura ir além da realidade material e alcançar dimensões ocultas da alma. Outro tema recorrente é o subjetivismo, valorizando os sentimentos íntimos e as impressões pessoais em detrimento da objetividade. O Simbolismo também explora o inconsciente e os sonhos, revelando mundos interiores e visões enigmáticas. A morte e o destino humano aparecem como reflexões inevitáveis sobre a finitude e o desconhecido e recaem sobre a natureza atmosferas de mistério. A musicalidade da linguagem é outro traço, aproximando poesia e música para intensificar emoções. O Simbolismo também expressa o desejo de evasão, fuga da realidade concreta para mundos imaginários, o que levou a expressão “torre de marfim”. Há, ainda, uma constante inquietação existencial, marcada pela busca de sentido em meio ao enigma da vida.
Muitas obras locais acabam sendo esquecidas porque estão profundamente ligadas ao contexto cultural e histórico de uma região específica, o que limita sua circulação e reconhecimento fora daquele espaço. Elas refletem costumes, tradições e valores particulares que, embora ricos, não encontram eco universal. Já as obras consideradas universais conseguem ultrapassar fronteiras, pois abordam temas atemporais como amor, morte, fé, liberdade e destino humano. Enquanto as produções locais podem perder força com o passar do tempo, as universais permanecem vivas, dialogando com diferentes gerações e culturas.
Essa diferença mostra como a literatura e a arte podem ser tanto testemunhos de uma comunidade quanto expressões de experiências humanas comuns. O esquecimento das obras locais não significa falta de valor, mas sim a dificuldade de alcançar públicos diversos. Por outro lado, as universais se tornam referências globais, inspirando novas leituras e interpretações. Assim, o contraste entre o efêmero e o duradouro revela a pluralidade da criação artística. Cabe a você, escritor, decidir em qual das tendências vai inserir a sua obra e a você, leitor, escolher as obras de sua preferência. Sejam obras locais ou universais o mais importante é ler.



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