ELAS SE VESTIRAM DE HOMENS NA LITERATURA
- JOSÉ FRANÇA

- há 23 horas
- 8 min de leitura

A literatura mexe nas feridas do mundo, como a existência difícil das mulheres num mundo que lhes é hostil, e que sempre se apresentou como um espaço inóspito. O tempo, representado por séculos e milênios, nunca deixou de ser bárbaro, selvagem e rude. Mas, ao invés de serem caladas, as mulheres usaram a inteligência, a criatividade, a sagacidade e a competência para responder à realidade e se colocar em atitude de protesto e resistência.
Platão desenvolve, na sua obra universal A República, com maior ênfase nos livros III e X, a teoria de que a literatura, especificamente a poesia e a tragédia, é mímesis, ou seja, imitação do real. Com base nessa teoria, universalmente conhecida, a realidade é o espelho da literatura: esta se espelha naquela. Os personagens são criados de acordo com o filtro do autor, que é homem de seu tempo e de seu espaço. Portanto, em literatura e em filosofia não existe opinião, existe pesquisa, análise e interpretação.
Para fundamentar ainda mais este texto, pode-se visitar a teoria da dialética histórica de Marx, em que interpreta a história como um processo dinâmico impulsionado pelas contradições materiais e pelas lutas de classes. Essa base econômica molda a cultura e a política. A realidade material determina a consciência e as relações sociais, invertendo o cogito cartesiano: a existência precede a essência. De acordo com esse pensamento marxista, não é o pensamento que faz a história, é a história que faz o pensamento.
Analisando por este paradigma, nenhuma obra e nenhum autor podem ser analisados, estudados ou interpretados sem se ater ao tempo em que escreveu, ao espaço onde escreveu, às suas origens e à sua militância dentro de seu grupo social. Segundo as teorias citadas acima, o homem é produto de seu tempo e de seu lugar. Toda essa gama de “vivencialidades” é chamada de situacionalidade que, segundo o linguista americano Roman Jakobson, toda fala, todo discurso só pode ser analisado mediante o contexto em que foi dito ou escrito, ou seja, a situação. Ainda de acordo com o linguista, é preciso observar a intencionalidade, pois toda criação parte de uma intenção e, dentro dessa intenção, o emissor escolhe a função que vai predominar em sua produção. Sem esses princípios, qualquer colocação sobre a obra e o autor é mera doxa, ou seja, opinião.
Voltando à abertura desta crônica: o ser humano sempre procurou uma saída, mesmo sabendo que algumas situações são verdadeiros labirintos. As mulheres desenvolveram efeitos bem elaborados de dissimulação, o que fez muitas, por vezes, terem de se disfarçar, vestirem-se como homens para enfrentar o mundo brutal no qual estavam inseridas. E se colocaram como contestação e enfrentamento. Numa guerra, as armas da inteligência podem ser mais eficientes que as da força. E para ilustrar esta narrativa, selecionou-se alguns dos melhores exemplos de mulheres que se disfarçaram de homens na literatura ao longo dos tempos.
O primeiro caso é Bradamante, guerreira épica da famosa epopeia Orlando Furioso, de Ariosto. Ela é personagem de uma das narrativas que circulam muito pelo mundo. O uso de armaduras fez com que fosse tomada por um guerreiro e enfrentasse várias batalhas. Caso parecido é o de Valéria, da Irmandade Vermelha: nas narrativas de Conan, a jovem Merina precisa fugir quando seu tio a promete em casamento com um homem que ela não amava. Para ter sucesso na empreitada, na fuga, disfarça-se de homem e assume um lugar na temida Irmandade Vermelha dos Piratas.
Doroteia, a moça encontrada por Dom Quixote e Sancho Panza vestindo roupas masculinas, revela-lhes a necessidade de tais disfarces depois de ter sido seduzida e desvirginada pelo filho de um homem rico e abandonada na porta de um meretrício. Temendo por sua vida como mulher desonrada, não vendo outra saída diante dos abusos constantes, e negando-se a se tornar prostituta, passa a vagar disfarçada de homem. Britomart, personagem emblemática da poesia épica do século XVI, em A Rainha das Fadas, de Edmund Spenser, não só veste armadura masculina como também se torna uma grande guerreira. Depois de vencer várias batalhas, ela se torna rainha no castelo das amazonas. Algumas interpretações dizem que ela se apaixona por uma mulher, além das muitas aventuras que enfrenta como homem.
Violet Adams, no romance steampunk Sociedade dos Meninos Gênios, traz uma abordagem que não é mera fantasia: o afastamento das mulheres dos estudos e das ciências. É justamente o que faz a menina se disfarçar de seu irmão para poder entrar numa prestigiada sociedade de gênios; sua luta não é apenas para provar que podia, mas também para representar todas as mulheres. Assim também é Éowyn. A vingança é um dos motores dessa nobre guerreira de Rohan em O Senhor dos Anéis. Incapaz de aceitar a negativa de Théoden em permitir sua ida à guerra, ela se disfarça de homem assumindo a identidade de Dernhelm, um guerreiro misterioso na tropa que parte em direção a Gondor.
Rosalinda é uma das heroínas mais conhecidas de Shakespeare. Geralmente admirada por sua resiliência, sagacidade e beleza, Rosalinda é uma personagem vital em Como Gostais. Na peça, ela se disfarça de pastor, com o nome de Ganimedes. Frequentemente vista ao lado de sua amada prima Célia, esta personagem também é uma amiga fiel, líder e estrategista. Ela permanece leal à sua família e amigos ao longo de toda a história, não importa quão perigosas sejam as consequências. Ela talvez seja um dos exemplos mais lembrados do célebre dramaturgo inglês.
Deixando a literatura estrangeira e surfando nas ondas da literatura nacional, na imortal obra universal de João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, o primeiro a provar a lâmina do punhal foi Riobaldo. É lembrado aqui que Diadorim, Maria Diodora, na tentativa de vingar a morte de seu pai, sendo filha única, encontrou como forma de alcançar o assassino entrar no cangaço. Ela o fez. Mas, para isso, precisou vestir-se de homem e usar a estratégia para sobreviver. E assim ela conquistou o coração de Riobaldo e abalou seu aspecto psicológico, fazendo-o elaborar uma dúvida na própria cabeça: sendo ele um homem muito macho, como poderia estar apaixonado por outro homem?
O que sobrou em Diadorim, faltou em Riobaldo. Tantos foram os momentos em que ela tentou fazê-lo perceber que era uma mulher, mas ele não percebeu nenhum. Quando andavam por vários dias sem encontrar água, ao se depararem com um riacho, corriam todos e pulavam no ribeirão para se banhar. Diadorim aproveitava o momento de entusiasmo da turma e desaparecia. Bem mais tarde, aparecia de banho tomado e penteado. Quando chegavam a algumas cidades e iam todos para a zona boêmia, Diadorim sempre se queixava de uma forte dor de cabeça e não ia.
Um dia, os dois, conversando envolvidos na forte amizade que os unia, ela confessou a Riobaldo que era rica, que herdara uma grande fazenda e que, quando a epopeia chegasse ao fim, levaria-o para ser seu capataz. Era como se estivesse convidando-o para ser seu marido. Escondida nas entrelinhas destas falas e incidentes estava a felicidade de Riobaldo. O consolo dele por ter os olhos vendados a estas oportunidades foi dito pelo poeta paraibano Zé Ramalho: “que ninguém tem o mapa da alma da mulher”. Mesmo que o jagunço tivesse esse mapa, não conseguiria decifrá-lo, pois enquanto um cérebro foi formado no enigma e no mistério, o outro foi moldado na dúvida e na incerteza.
No sertão de Guimarães Rosa, entre veredas e batalhas, nasce um amor que não ousa dizer seu nome. Riobaldo, jagunço e narrador, carrega no peito uma paixão que o atormenta e o ilumina: Diadorim, companheiro de armas, presença firme e misteriosa. E nestas instâncias do companheirismo, nasce um amor feito de silêncio e de olhares, de cumplicidade nas estradas poeirentas e de uma ternura escondida sob a aspereza da vida jagunça. Riobaldo sente o fogo da paixão, mas teme o interdito: como amar um homem, quando tudo ao redor lhe ensina que isso é pecado, desvio, impossibilidade? Mais que isso: não só a sociedade, mas a própria consciência dele erguia esta barreira.
Diadorim, por sua vez, guarda o segredo que sustenta toda a trama: é mulher, mas veste-se de homem para viver no sertão e lutar ao lado dos jagunços, pois seu objetivo é vingar a morte de seu pai. O disfarce é sua proteção, mas também sua condenação. O amor entre os dois floresce na sombra, sem nunca poder se revelar plenamente. O destino, na universalidade bela das páginas rosianas, é marcado pela metáfora dos quatro punhais: o primeiro punhal é para Hermógenes, o objeto da vingança; o segundo é para Diadorim, que morre com um punhal cravado no peito; o terceiro é para Riobaldo, introduzido no mais fundo do coração, pois foi quem mais sentiu nas entranhas; e o quarto é para ele também, mas este é cravado no cérebro.
Somente na morte, quando o corpo de Diadorim é desnudado, Riobaldo descobre a verdade. E então, o que era tormento se torna tragédia: o amor que poderia ter sido vivido em plenitude revela-se tarde demais. Era tarde para viver, mas cedo para entender que estivera com a felicidade nas mãos e a deixou escorrer por entre os dedos. Quis o destino que, no momento em que seu grande amor mais precisou dele, estivesse numa cama com uma terrível crise renal. Os laços do fadário escreveram em linhas vermelhas de sangue o final doloroso de um conto de fadas que terminou no sertão, sem jamais conhecer as veredas.
No sertão, a poeira levantava como véu sobre os caminhos. Riobaldo seguia, jagunço endurecido, mas com o coração inquieto. Ao seu lado, sempre, Diadorim: firme, silencioso, olhar que dizia mais do que palavras. Entre batalhas e veredas, cresceu um amor escondido. Riobaldo sentia, mas não compreendia. Como amar um homem? O sertão não permitia. O desejo se tornava tormento, e o silêncio, companheiro. Diadorim guardava o segredo como quem guarda a própria vida. Só na morte o véu se rompeu: era mulher. E Riobaldo, ao descobrir, viu que seu amor era possível, mas, naquele momento, impossível. O sertão ficou maior, mais vazio. O romance deles não se cumpriu em vida, mas se eternizou na memória e na palavra. Amor inexequível, mas eterno.
O romance de Diadorim e Riobaldo é, assim, um canto de amor impossível, mas também um retrato da força dos sentimentos que desafiam convenções. É local e universal. É humano e divino. É imanente e transcendente. É poesia e tragédia escondidas no sertão, é dor e beleza, é o mistério humano que Guimarães Rosa soube transformar em eternidade.
E finalizando esta crônica reflexiva, é muito apreciado citar o teórico russo, filósofo da linguagem Mikhail Bakhtin, que, ao desenvolver o conceito de dialogismo, apresentou, na polifonia do discurso, a intertextualidade e seus tipos presentes nas obras literárias e nas artes. Um desses tipos de intertextualidade é a carnavalização da linguagem que consiste no disfarce, na liberdade de tempo e de espaço do herói, que morre e renasce, que vai do céu ao inferno, que se constrói, destrói-se e se reconstrói.
E olhando para as mestras do disfarce, símbolo maior da simulação, nascentes inesgotáveis de enigmas, fontes incessantes de mistérios, esta crônica se coloca como contribuição para mostrar que todo ato de ler deveria ser interpretado como se fosse três dias de um carnaval de muita festividade e alegria, com muita música, ritmo, embalo e serpentina; Arlequim, Pierrô e Colombina.
Uma verdadeira celebração da vida. E que, no final de cada obra, na apoteose de cada leitura, a estrela da beleza, da emoção, da sensibilidade continue brilhando no céu da quarta-feira de cinzas, na mente de cada leitor. E que fiquem bailando suave, caindo leve na avenida do coração coloridos confetes de saudades.
Não se esqueça de deixar um comentário, e seguir nossas redes sociais:




Faço minhas as palavras da Michelle, França. Seus textos são sempre uma aula de Literatura. E aulas da melhor qualidade. Parabéns! Abraços, Carla Kirilos
"... todo ato de ler deveria ser interpretado como se fosse três dias de um carnaval..."
Chego ao fim da leitura como alguém que acaba de assistir ao desfile da escola campeã, que abriu alas com contexto histórico, vindo a ala da filosofia, da literatura clássica e, por fim, arrebatando as arquibancadas com esse imenso carro rosiano!
Estou feliz por iniciar minha sexta-feira com sua crônica, professor!
França, a cada texto seu eu saio maior e mais conhecedora da literatura universal. Sinto como se eu consumisse de maneira indireta e terceirizada muita riqueza e muita pluralidade de repertório do que você compartilha conosco. Mais uma vez você traz seu olhar sensível sobre o feminino, dessa vez enredado pelas narrativas de autores do Brasil e do mundo. Muitas das personagens citadas eu nunca tinha ouvido falar, o que corrobora o que disse há pouco sobre sair maior e mais consciente de cada partilha de seus textos. Interessante que você constrói seu texto não somente a partir de uma enumeração simbólica de mulheres que na literatura tiveram que se vestir de homens para serem aceitas em determinados espaços, mas…