CINQUENTA TONS, CONTOS DE FADAS E OUTRAS NARRATIVAS
- JOSÉ FRANÇA

- há 1 dia
- 9 min de leitura
UMA LEITURA DO LIVRO CINQUENTA TONS DE CINZA À LUZ DOS CONTOS DE FADAS E OUTRAS NARRATIVAS

Meu primeiro contato com o livro Cinquenta Tons de Cinza ocorreu em outubro de 2012, durante um seminário sobre edições promovido pela Rede Globo de Televisão, que reuniu alguns dos mais importantes editores e livreiros do país. Na ocasião, ouvi várias críticas negativas em relação à obra, que já era um best-seller mundial.
A contundência das críticas despertou em mim um desejo quase incontrolável de conhecer o livro. Como cheguei a Belo Horizonte muito tarde naquela noite, no dia seguinte fui a uma livraria, comprei um exemplar e iniciei a leitura. Logo em seguida, dei continuidade e li também os dois outros volumes da sequência.
A análise que apresento é de minha autoria e, até onde sei, inédita. Para mim, Cinquenta Tons de Cinza pode ser lido como um conto de fadas às avessas. A ideia de o homem salvar a mulher é antiga na literatura — basta retroceder até as Novelas de Cavalaria medievais. No Humanismo, o objetivo do cavaleiro já não era o Santo Graal, mas a Donzela; ou seja, houve uma transferência do divino para o humano, do sagrado para o profano.
Como a relação sexual ainda era vista como profanação do corpo feminino, o Graal — cálice sagrado que recebeu o sangue de Cristo — pode ser interpretado como o útero da donzela que, após ser salva, entrega-se ao cavaleiro, recebendo o sêmen numa relação antropomórfica. Esse viés cultural deu origem ao “donzelismo”, que, mesmo após a revolução feminina do século XX, não foi completamente superado, como se vê no fascínio que muitas mulheres ainda sentem por “vencedores” — lutadores, atores, cantores e, mais recentemente, influenciadores digitais.
Anastasia Steele é uma espécie de Bela Adormecida; não necessariamente bela, mas adormecida. Ela é retratada como jovem inocente e sem experiência amorosa, lembrando princesas clássicas frágeis ou ingênuas. De repente, é descoberta por Christian Grey, que surge como um príncipe moderno: rico, bonito, misterioso e poderoso, exercendo fascínio sobre todos ao seu redor. Ele a salva da invisibilidade, despertando-a de seu sono. Mas, ao contrário dos contos tradicionais, não é apenas ela que está em jogo: Grey, que parecia príncipe, revela-se um homem perturbado. A literatura dos contos de fadas não oferecia essa leitura, pois sempre terminava com o “felizes para sempre”.
O apartamento luxuoso de Grey funciona como espaço mágico, inacessível ao comum dos mortais, tal qual o castelo dos contos. No lugar do contrato mágico — feitiço da bruxa, bênção da fada ou promessa do príncipe — há o contrato de dominação e submissão, que redefine a relação e cria regras ríspidas, como um pacto encantado. O amor, que nos contos é a grande aliança entre príncipe e princesa, aqui se converte em prazer de um e dor do outro. Se houver prazer para ambos, será pela via dolorosa.
O inverso do conto de fadas se dá porque não há final feliz tradicional. Em vez de casamento e “felizes para sempre”, a narrativa mergulha em conflitos emocionais, poder e desejo. O príncipe não salva a donzela; ao contrário, coloca-a diante de dilemas e vulnerabilidades. Apesar de Anastasia ser resgatada de uma existência sem significado grandioso, ela é confrontada com uma realidade nova, aparentemente encantada, mas que, por trás das cortinas, revela-se sombria: Christian Grey transforma-se numa fera, um monstro capaz de perversão para satisfazer seus desejos.
O amor não é puro e idealizado, mas marcado por práticas sexuais abusivas, violentas, não convencionais, por controle e tensão psicológica — o oposto da inocência dos contos clássicos. A jornada é de desconstrução: em vez de a heroína se transformar em princesa, ela precisa decidir até onde aceita ou rejeita esse “mundo encantado” sombrio. Cinquenta Tons de Cinza pode ser visto como um conto de fadas invertido porque pega a estrutura tradicional — mocinha, príncipe, castelo, pacto — e a vira de cabeça para baixo, explorando poder, desejo e limites em vez de idealizar o amor romântico.
No conto A Bela e a Fera, a Bela representa pureza, bondade e a capacidade de ver além das aparências. A Fera, condenada a viver sob forma monstruosa, guarda dentro de si um coração humano e vulnerável. Com coragem e inteligência, a Bela desperta nele o amor verdadeiro, quebrando a maldição. Mas, na inversão que proponho, o espelho se desfaz: a Bela, em vez de enxergar a essência, seria alguém obcecada pela superfície, incapaz de ver além da aparência. A Fera, ao contrário, não seria um ser monstruoso com bondade oculta, mas alguém aparentemente belo e encantador, que esconde dentro de si a verdadeira monstruosidade — egoísmo, crueldade e manipulação, como Christian Grey. A mensagem central se inverte: não é o amor que revela a beleza interior, mas a ilusão que mascara a feiura real. O “felizes para sempre” se desfaz quando Anastasia percebe que a aparência a enganou.
Seguindo esse paradigma, vemos também em O Silêncio dos Inocentes e em sua sequência, Hannibal, uma inversão semelhante. O Dr. Lecter é um canibal perigoso, preso em segurança máxima, mas que intimida até os policiais e seguranças. A investigação recai sobre a jovem e inexperiente agente Clarice. Ao chegar, ela chama a atenção de Lecter por ser assediada por um interno vizinho. Quando este comenta sobre o cheiro íntimo dela, desperta no médico um desejo masculino reprimido pelo distúrbio psicótico que o levava aos atos antropofágicos. Assim, mais uma vez, o “monstro” fascina e atrai, invertendo a lógica dos contos de fadas. Claro!
Ele sai em defesa dela e estrangula o assediador, atraindo-o para a grade da cela. A partir desse momento, inicia-se a cumplicidade entre eles, condição de “salvamento”. Vai se desenrolando um respeito mútuo e um grande fascínio. Ela facilita a fuga dele, e ele retribui fornecendo as informações necessárias para que ela consiga localizar e matar Buffalo Bill, garantindo o sucesso da missão e, por extensão, de sua carreira.
No segundo filme, quando Mason Verger, por vingança, quer jogar Lecter para os javalis, Clarice aparece e o salva. Na luta, ela leva um tiro. Dr. Lecter a toma nos braços, retira a bala e costura o ferimento. Nesse momento, ele poderia tê-la devorado. Mas não a matou porque, apesar de ser um assassino frio e calculista, desenvolveu uma relação complexa de fascínio, respeito e até afeto por ela. Ao retirar a bala, demonstra que não a vê como vítima, mas como alguém especial, diferente das pessoas que despreza e elimina. Ele a vê como mulher, embora saiba que não pode ficar com ela. A cena da cirurgia é simbólica: ele poderia deixá-la morrer, mas escolhe salvá-la, mostrando que ela ocupa um lugar único em sua vida, por antes ter-lhe salvo a vida. Nasce entre eles um sentimento mútuo.
Desenvolveu-se uma relação quase romântica: muitos críticos interpretam que Lecter nutre uma forma distorcida de amor por Clarice. Eu vejo a humanização do vilão, pois, ao salvá-la, sua atitude mostra que, mesmo em sua monstruosidade, não é totalmente desprovido de humanidade. Ao poupar Clarice, a história ganha profundidade, pois o público percebe que ela é a única capaz de penetrar em sua mente sem ser destruída. Clarice representa para ele algo raro — inteligência, coragem e respeito — qualidades que despertam uma ligação que vai além da violência. O amor distorcido também é amor. E é esse amor que salva os dois; não os livrando da paranoia antropofágica, mas garantindo a sobrevivência física de ambos.
Em outra narrativa, o texto As meninas e o fio de cabelo fala sobre como a adolescente Sherazade cura o Sultão Xariar da misoginia extrema e dos transtornos de controle de impulsos desenvolvidos por sucessivas traições, salvando as mulheres de seu reino. Agora é a vez de Penélope salvar Ulisses, seu marido e rei de Ítaca. Ulisses amava tanto as guerras que ultrapassou os limites do homem. Apesar de os gregos terem a guerra no sangue e no cérebro desde o nascimento, em Ulisses esse amor pelos combates tornou-se obsessão. Lutou dez anos contra os troianos e os venceu usando a inteligência ao construir o cavalo de madeira; depois venceu o Ciclope, as Sereias, os Lestrigões, Cila, a feiticeira e tantos outros. É nesse ponto que entra em cena Penélope.
Ela espera pelo marido durante vinte anos. Nesse tempo, tece e destece um tapete dizendo que é para a mortalha de seu sogro. Na verdade, é uma teia que metaforiza a astúcia e a resiliência feminina usadas para manter viva a esperança e resistir à pressão social e política. O dia é a ilusão de conformidade; a noite é a verdadeira resistência. Esse enredo é um truque elaborado para afastar os príncipes pretendentes. O trabalho de construção e desconstrução do tapete é analisado não apenas como símbolo de fidelidade, mas de amor, por representar a essência do corpo feminino que se faz na fertilidade e se desfaz no ciclo menstrual na espera do amado. Fazendo-se e desfazendo-se num amor que se dissolve na dúvida e se refaz na certeza. Enquanto Ulisses lutava contra monstros no mar para saciar sua sede de guerra, Penélope lutava contra os monstros da sociedade enquanto esperava pelo marido, o herói e guerreiro, para saciar sua sede de amor.
Quando Ulisses enfim chega a Ítaca, enfrenta mais uma batalha: a luta para que Penélope o reconheça. Para premiar todo o esforço de Penélope durante vinte anos, Atena, deusa da sabedoria, pede que Nix (Noite) lance uma noite longa para compensar o tempo perdido. Para Ulisses, essa noite prolongada representa os dez anos de desvios, tempestades, tentações e esquecimentos. É a jornada interior de autodescoberta, a perda da identidade e a luta constante para retornar à essência verdadeira: seu lar, a Ítaca sonhada, representada pelo corpo vibrante da esposa.
Na segunda década, a noite é interpretada como o amadurecimento do herói, o início da cura. É a superação da dor, da saudade e da dúvida. É o momento da renovação. Uma nova etapa na vida dos dois, após vinte anos de separação. É o fim da longa e dolorosa espera. Quando Aurora, percebendo que Ulisses já está curado, rasga o véu da noite com seus longos dedos da cor do arrebol, um lindo dia amanhece para o casal. É a vitória da força e da resiliência feminina. É a vitória do amor sobre o poder, as guerras e o ego masculino. Da paciência sobre a bravura. Flâmulas ao vento.
No final do primeiro livro, Anastasia rompe com o contrato e termina com Christian. Mas ela é uma mulher contemporânea. E a Branca de Neve pôde fazer isso? Não. E se descobrisse que, após o casamento, o príncipe que a salvou e casou-se com ela fosse também um dominador, um egocêntrico ridículo, ciumento de forma doentia por ela ter passado várias noites com os sete anões? E se a Bela Adormecida, despertada por um beijo, descobrisse que seu príncipe fosse um homem violento que a agredisse, assim como aos filhos? E se a Fera da Bela, desencantada, após a cama se tornasse uma fera real, proibindo-a, encarcerando-a com abusos e pressão psicológica?
Já pensou se o príncipe da Cinderela fosse procustiano e, depois de algum tempo, a reduzisse ao seu molde? E quando ela ficasse com os seios caídos de amamentar filhos, ele crescesse o olho nas damas de companhia ou nas camponesas jovens e bonitas, trazendo-as para o palácio e obrigando a esposa a assistir? Restaria a ela apenas chorar e pedir à fada madrinha que o transformasse em sapo de verdade, com a condição de que feitiço algum o retornasse à condição humana.
Perguntas como essas poderiam ser feitas em análises mais aprofundadas, mas todas ficaram silenciadas no “foram felizes para sempre”. A tradição judaico-cristã europeia medieval anulava a mulher: solteira, era filha sem voz; casada, ela deixaria de existir. Após o casamento, formava-se um silêncio sombrio: estava tudo resolvido.
No livro Cinquenta Tons Mais Escuros, Anastasia Steele volta para Christian Grey movida pelo amor. Ela toma conhecimento da história dele: a mãe dependente química que se suicidou; os abusos físicos e emocionais sofridos na infância. À medida que as descobertas se revelam, ela adentra em seu problema até perceber que ele é um doente, um sadomasoquista. Mas, como o ama, inicia-se o processo de cura. A jornada que se abre através do afeto culmina em uma ode à redenção. O que antes era um jogo de sombras e controle transmuta-se em entrega absoluta, onde o casamento não é o fim, mas o florescer de uma nova identidade compartilhada.
A narrativa exalta a metamorfose de um homem outrora fragmentado, que encontra no olhar resiliente de Anastasia a coragem para abandonar suas armaduras de aço e se permitir vulnerabilidade. Entre os cenários idílicos da Europa e a intimidade do lar, o romance atinge sua plenitude: o desejo visceral de Christian funde-se à devoção, enquanto Ana assume o papel de guardiã de sua alma, provando que o amor é a única força capaz de domar os demônios mais persistentes. O amor é o medicamento eficaz para transformar o monstro em príncipe. Finalmente curado.
O clímax emocional — a alta do hospital — reside na aceitação do inesperado: o exercício da paternidade, símbolo máximo da libertação de Christian, transformando suas feridas de infância em legado de cuidado e proteção. O desfecho é triunfo do espírito sobre o trauma, selando uma união onde a paixão é eterna e a liberdade é encontrada na mútua entrega. No amor romântico, mútuo e verdadeiro. Passaporte para um real e verdadeiro final feliz. Ou melhor, sem final: enquanto for saudável e prazeroso para os dois. O amor em sua universalidade.
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Genialidade é a palavra para esse texto! O que me impressiona em cada texto seu, José, é esse entrelaçar genial de temas que perpassam literaturas diversas, inclusive de tempos tão distantes. É preciso uma grande e sensível mente para enxergar e interligar detalhes de alta complexidade de forma tão coerente. Perfeito! 👏🏽🌻
Professor França comprovando que a literatura, seja ela contemporânea, clássica ou até mesmo os contos de fada que escutávamos ou líamos na infância, podem ser interpretados muito para além das letras - as entrelinhas são riquíssimas! Mas para além disso, é importante também saber que as interpretações, não raras vezes, podem ser antagônicas, a depender da experiência pessoal do leitor, pois cada um, com o seu olhar e o seu contexto, extraem de uma história uma mensagem única.
França, seus textos são aulas de história. A intertextualidade que você costura entre narrativas de épocas e gêneros distintos nos leva a mergulhos em profundezas da alma humana. As análises comparativas que você traça são peculiares e trazem muito da sua sensibilidade em perceber o mundo, inclusive o literário.