E ELAS SE VESTIRAM DE HOMEM …E COLOCARAM SEUS NOMES NA HISTÓRIA.
- JOSÉ FRANÇA

- há 11 horas
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Apesar de ser um tema universal, inicia-se esta crônica pela senda do localismo. No devir constante da existência, a história apresentou-se de forma cruel às mulheres, mas, navegando em mares opostos, elas feriram profundamente a narrativa com o punhal da sagacidade, da inteligência, da esperteza, da malícia, dos mistérios e do enigma e, por não dizer, da beleza. Como tão bem afirma o narrador Bentinho no drama universal machadiano Dom Casmurro, o olhar de Capitu é o olhar da grandeza que reúne substantivos abstratos e todos os adjetivos que podem ser usados como atributos à mulher: “Olhar de cigana oblíqua e dissimulada.”
Pelas encantadoras plagas brasileiras, levando em conta vales, serras, planícies e litorais, as mulheres estiveram presentes singrando a terra de encanto de forma clara e distinta, como as ideias cartesianas, ou de maneira enigmática e obscura, como nos contos de Edgar Allan Poe, mas não obliviadas pelo despontar e desaparecer dos milênios. No entre surgir e exsurgir dos séculos, inúmeros pais que tiveram apenas filhas, ou cujos filhos homens mais velhos casaram-se e foram morar distantes, pensando no envelhecimento e no desamparo das filhas, vestiam-nas de meninos e ensinavam-lhes práticas como manuseio de armas, trato com animais, treinamentos em serviços pesados, além de vícios masculinos como jogos, tabagismo e alcoolismo. Tudo isso era pensado como meio de proteção, pois elas nasceram em um mundo cruel, covarde e violento, em épocas que a sociedade legitimava apenas o sexo masculino. Assim, muitas ficaram tatuadas nas páginas da história.
Em comum com aquelas que não tiveram escolha, outras decidiram agir sob disfarces masculinos para realizar o que desejavam. Longe de serem raras, em diferentes culturas, mulheres passaram por homens para ir à guerra, praticar esportes, trabalhar, escrever e até mesmo criar os próprios filhos. Ao longo da história, diversas adotaram trajes masculinos – prática conhecida como cross-dressing – como estratégia para contornar restrições sociais, lutar em guerras, sobreviver ou exercer profissões e atividades intelectuais proibidas como ler, escrever livro ou atuar no teatro George Eliot (Mary Ann Evans), George Sand (Amandine Dupin) e as irmãs Brontë, que assinaram como Currer, Ellis e Acton Bel, são alguns dos exemplos. Direitos que ela julgavam ter, mas que a sociedade machista, retrógrada e obsoleta as negava. Estavam à frente do tempo delas.
Vestidas de silêncio e sombra, ocultando cabelos sob chapéus, endurecendo o timbre da voz e aprendendo a caminhar com passos firmes, não encenavam teatro, mas sobrevivência. Para muitas, não era escolha, era necessidade. Ainda assim, cada gesto era também rebeldia. Ao longo dos séculos, encontraram no disfarce masculino uma estratégia para atravessar fronteiras invisíveis, ultrapassar limites, quebrar barreiras, conquistar espaços negados, elaborar discursos, escrever histórias e construir sua própria trajetória. Os séculos testemunharam mães que vestiam suas filhas como menino protegendo a vida delas e arriscando as suas, em sociedade que não aceitavam mais de uma filha na família, as que nasciam deveriam ser mortas.
No Brasil, Maria Quitéria de Jesus tornou-se símbolo dessa coragem. Disfarçada de homem, lutou na Guerra da Independência com uma farda improvisada que escondia sua condição feminina. Foi condecorada por D. Pedro I e entrou para a memória nacional como heroína. Outras seguiram caminhos semelhantes: Maria de Oliveira, conhecida como “Maria Soldado”, combateu na Guerra do Paraguai vestida de homem, revelando sua identidade apenas após o conflito. Joana Vieira também marchou sob o disfarce masculino, provando que não se tratava de um caso isolado, mas de uma prática recorrente. Já Maria Felipa de Oliveira, líder de mulheres negras e indígenas na Bahia, não precisou de máscara: incendiou embarcações portuguesas e mostrou que a resistência feminina podia assumir múltiplas formas.
Fora do Brasil, brados semelhantes ressoaram. Deborah Sampson, nos Estados Unidos, alistou-se como soldado na Guerra da Independência e lutou até ser ferida. Margaret Ann Bulkley, que viveu como Dr. James Barry no Reino Unido, disfarçou-se de homem para estudar medicina e tornou-se uma das primeiras cirurgiãs do Império Britânico. Catalina de Erauso, a “Monja Alférez” da Espanha, fugiu do convento e viveu como homem, tornando-se soldado nas Américas. Nadezhda Durova, na Rússia, combateu contra Napoleão e foi reconhecida como heroína. Shabana Basij-Rasikh, no Afeganistão dos anos 1990, fingiu ser menino para frequentar a escola sob o regime talibã e hoje é educadora e líder social. Hua Mulan, ainda que envolta em lenda, simboliza milhares de mulheres que se disfarçaram para proteger suas famílias e pátrias.
Essas histórias revelam que o disfarce não apagava a identidade feminina, mas a multiplicava e construía um legado para o futuro. Cada uniforme, cada calça larga, cada chapéu pesado era mais do que uma roupa: era uma armadura contra a exclusão, contra o machismo estrutural, contra todos os abusos e violências sofridas ao longo da história. Ao vestir-se de homem, essas mulheres vestiam-se de um novo tempo. Vestiam-se de futuro. Não buscavam apenas sobreviver, mas afirmar sua humanidade em mundos que lhes negavam espaço, vez e voz.
Entretanto, a invisibilidade não pode ser esquecida. Muitas permaneceram anônimas, apagadas da memória oficial, lembradas apenas em fragmentos ou em lendas. A história, escrita majoritariamente por homens, registrou seus feitos como curiosidades, raramente como parte central da narrativa. Foi-lhes negado o direito de protagonismo. O disfarce, que permitiu existir, também roubou o reconhecimento pleno. Tornaram-se sombras na margem dos livros, ecos que só recentemente começam a ser ouvidos.
A memória histórica, portanto, é também um campo de disputa. Ao resgatar essas trajetórias, não apenas se honra indivíduos, mas se questionam os mecanismos que silenciam vozes. O gesto de vestir-se de homem, que antes era sobrevivência, hoje se revela como metáfora: mostra como a sociedade obrigava mulheres a ocultar sua identidade para serem aceitas. O que era máscara torna-se denúncia. E, hoje, transforma-se em exemplo. Exemplo deixado por Joana, menina que sonhava estudar numa época e região em que uma mulher que sabia ler era considerada perigosa. Usando a roupa e o nome do irmão, tornou-se monge e, por sua inteligência, chegou a cardeal. Foi eleita papa e governou a Igreja sob o nome de Papa João VIII.
Nesse ponto, a poesia encontra a crítica. Lembrar dessas mulheres é mais do que narrar fatos: é devolver-lhes o direito de existir como símbolos de resistência. É reconhecer que a liberdade tem mil formas de se vestir, e que cada disfarce foi, em si, um poema escrito com o corpo. Corpo que, por baixo das roupas masculinas, encanta, deseja, sonha e, se houver oportunidade, realiza-se, pois ousadia e coragem não faltaram. Em muitos casos não foi apenas luta, foi pura poesia. Poesia da mais alta qualidade e do mais profundo lirismo. Sob um chapéu quebrado na testa, há um sorriso que revela as belezas e os mistérios do universo, como tão bem cantou o poeta paraibano Zé Ramalho:
“A mulher tem na face dois brilhantes
Condutores fiéis do seu destino
Quem não ama o sorriso feminino
Desconhece a poesia de Cervantes”
Hoje, ao evocar Maria Quitéria, Maria Soldado, Joana Vieira, Maria Felipa, Deborah Sampson, James Barry, Catalina, Nadezhda, Shabana e Mulan, não se fala apenas de passado. Fala-se de um presente duradouro. Fala-se de permanência. O eco de seus passos disfarçados lembra que a luta pela igualdade ainda não terminou. Está em pleno desenvolvimento. A sobrevivência foi poesia; a coragem foi armadura; e a memória, quando resgatada, é também justiça.
Mas é uma luta que precisa continuar, para que nenhuma mulher precise mais vestir-se de homem para ser respeitada, reconhecida e aceita. Uma luta que varra das sociedades todas as barreiras e interditos, todas as injustiças e exclusões, para que todo espaço feminino seja o espaço do desejo da mulher e que seus sonhos possam alcançar a dimensão de toda a sua virtude, capacidade, inteligência, graça e beleza.
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França, que texto maravilhoso! Aliás, a cada texto seu eu saio maior e com mais aprendizado. Você é um professor nato porque conduz sua narrativa com a pedagogia da observação dos fatos históricos sem contudo perder o lirismo da sensibilidade que você traz na alma. E não bastassem todos esses adjetivos e atributos você é ainda um ferrenho defensor dos direitos das mulheres, trazendo em sua bagagem docente e literária essa luta que deve ser de todos, todas e todes. Ver você, um homem sensível e com olhar atento à dignidade feminina, me faz ter esperança de que não há somente redpills por aí. De que nem todos os homens são misóginos. Que mais homens sigam seu legado e se…