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SOBRE SAIR DE UM ESTADO E ENTRAR EM OUTRO

  • Foto do escritor: BETH BRETAS
    BETH BRETAS
  • 5 de mai.
  • 3 min de leitura

Enquanto o ônibus deslizava pelo asfalto de um dia primaveril, ao som de Café Cubano, eu pensava no que havia acontecido no embarque da rodoviária de São Paulo e,  no quanto em meio ao mundo apocalíptico, ainda há salvação para o ser humano…


São aqueles momentos que exigem reflexão sobre em qual mar navegamos!


Um homem, acima de qualquer suspeita, entrou no ônibus dizendo que estava desesperado e passaria vergonha por ter que pedir nossa colaboração e compreensão, pois ele e a esposa, ao tentarem embarcar, descobriram que a filha de 6 anos precisava de passagem e eles não tinham como comprar, não podiam deixá-la para trás, que por favor, o ajudassem. 


Um passageiro passou um PIX, um casal perguntou quanto ainda faltava e ele respondeu 40,24. Ao receber o valor do casal, ele percebeu que eu aguardava a minha vez de colaborar,então, passou por mim dizendo calma, moça, você poderá nos ajudar na hora do lanche, na estrada, agora tenho que liberar minha esposa lá no guichê. Agradecendo a todos e reverenciando, desceu do ônibus. 


Uns dez minutos depois, entrou o motorista para se apresentar, orientar sobre a viagem e quando estava saindo, uma moça perguntou se ele não ia esperar pelo casal com a criança de 6 anos, ele perguntou que casal com criança, pois a lista estava completa. Nesse momento, ele escutou o que havia acabado de acontecer e pediu desculpas por não ter percebido a entrada do golpista. Uma sensação surreal envolveu os passageiros que se entreolharam com o olhar de COMO ASSIM?!!


E entre a supresa e a realidade, o episódio terminou com humor, não com revolta. 


“Não se preenche vazios com ilusões. A racionalidade tem de estar sempre à frente dos sentimentos cordiais”. - Jon Vlahrc


Respirei fundo, sentindo a esperança sobre a humanidade se manifestar em mim, ao presenciar pessoas se compadecendo com a história do outro, sem questionar ser falsa ou verdadeira, porque quando o motorista perguntou se queríamos chamar a polícia, a resposta geral foi NÃO PRECISA! 


Compreendemos, naquele momento,  que fomos roubados entre o vacilo de um instante nosso e a falsidade do homem e é só o que nos restava entender. 


O motorista nos desejou uma boa viagem, enquanto um comentário silenciou o episódio: “bem que meu marido falou sobre o choro falso dele”. 


Durante a viagem, ninguém mais comentou sobre o episódio.


Ao nos aproximarmos da rodoviária de Belo Horizonte, novamente o inesperado aconteceu: uma passageira ligou para avisar que estava chegando e perguntaram para ela como tinha sido a viagem, ela respondeu que choveu muito, choveu forte, muita neblina, correu risco, mas estava chegando tranquila. 


Eu percorri a mesma estrada, dentro do mesmo ônibus, e nada disso aconteceu! E, então, uma pergunta nasceu: qual viagem era real, a dela ou a minha?!


Essa pergunta me apresentou a seguinte resposta: as duas viagens são reais. O mar será sempre o mesmo, só a forma de navegar será diferente para cada navegante.


“Somos diferentes. Nossas experiências de vida são diferentes. Nossas histórias e sonhos são diferentes...estamos em movimento! “ - Sandra Maia


E foi assim, entre sair de um estado territorial para entrar em outro que o meu estado emocional não duvidou das experiências -  não duvidei da verdade do outro, não duvidei do propósito daquele momento que cobrou de mim aceitar que a vida se manifesta de acordo com a experiência de cada ser.


A vida é sábia e livre e não nega a necessidade individual de se expressar de cada um. 


Se no caminho, houver sentimento de desilusão, de negação, ele, o sentimento, existirá em quem estiver sentindo - na nossa falta de capacidade para aceitar que ela, a vida, se manifesta sem questionar a forma como o ser humano está lidando com a oportunidade de viver.


E durante essa viagem em que lia A Natureza da Mordida de Carla Madeira, compreendi a profundidade desta frase que se encontra na narrativa: 


“Quanta estupidez tem o poder sem sabedoria!”


Quando nossas experiências não validam a experiência do outro, nosso aprendizado se perde em julgamentos vazios, permitindo que o véu da desilusão se estenda sobre a vida que é maior do que somos.


O direito à existência não se perde nas experiências.  Ele não se envolve em escolhas humanas. Ele é pura e simplesmente a nossa grande oportunidade de manifestar a forma como sentimos a VIDA, por meio das experiências.


NAMASTÊ!







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11 comentários

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há 2 dias
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A verdade é que, para cada pessoa, uma viagem nunca é a mesma. Cada um percebe as coisas por uma visão e sentimento próprio. E isso é bom ou ruim? Não sei. Mas gostei de ler seu texto e perceber os diferentes sentimentos que brotaram em mim. Beijocas, Carla Kirilos

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José França
há 5 dias

Enquanto uns veem a janela, outros veem a paisagem. O constructo do real é indivualista. Há diferenças profundas entre ver e olhar. Quanto à experiência do "roubo", eu também já passei por isso e creditei na consciência do sujeito que é capaz de um ato como este. Ou ao

Velho chavão popular: Melhor ter para doar a quem não merece, do que precisar inventar mentiras para pedir.

Gostei muito do texto. Parabéns!

Um abraço.

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
08 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Cada experiência é única e cada um constrói sua história de paisagens diversas; ora áridas, ora verdejantes... a dor e a delícia de ser... pontos delicados desse bordado belo e humano! Beijos!

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06 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Gostei demais! Ter a serenidade de respeitar-se e respeitar a existência de cada um, independente de qual seja, é de uma grande sabedoria!

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Convidado:
06 de mai.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Que lindo!! Gostei demais!! Parabéns!

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