UMA MANHÃ INEXORÁVEL
- JOSÉ FRANÇA

- há 2 dias
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A manhã de um dia longo. Com esta frase eu começo esta crônica e aproveito para fazer referência ao grande músico Ringo Starr, da Banda Beatles que, em 1964, pronunciou, depois de um dia inteiro de gravações, a frase: “A hard day’s night”, “Noite de um dia duro”, que se tornou o título do famoso Long play. Lembro-me que um dia entre tantos dias em que eu saí de casa cedo para trabalhar, presenciei um fato que marcou profundamente as minhas retinas cansadas, tomando de empréstimo as palavras de Carlos Drummond de Andrade. Sei que se eu viver 100 anos (não espero viver tudo isso), jamais me esquecerei do espetáculo gravado em meu cérebro. Uma manhã de um dia comum que dura por uma vida inteira.
Recordo-me que, na época, eu morava no bairro São Francisco, em Belo Horizonte e trabalhava em Vespasiano. Todos os dias eu saía de casa por volta de cinco e meia da manhã e descia uma rua bastante íngreme que me levava até o ponto de ônibus. Como era final setembro, o horário de verão ainda não havia começado e, por isso, nessa hora, o dia já estava claro. A brisa soprava leve e fria sentindo saudades do inverno que acabara há poucos dias, numa espécie de adolescência que ainda guarda as doces lembranças da infância. A aura brincava animando os pássaros que acordavam sonolentos e varria as folhas que caíam durante a noite.
Como sempre, eu descia a rua e, naquele dia, caminhava deliciando-me com o bafejo da aragem mansa dos primeiros dias da primavera que chegava enamorada do perfume das flores das laranjeiras que recendia forte, oriundo do pomar que ocupava um terreno do lado de baixo da via. No enlace amoroso com o perfume e a meiga viração, vi que uma garota se aproximava subindo vagarosamente. Ela parecia ter mais ou menos uns doze anos de idade e carregava duas sacolas: uma em cada mão. Quando já estávamos quase nos encontrando, eu deixei o passeio para ela e fui para a calçada e continuei descendo.
Eu estava mais ou menos a uns trinta metros rua abaixo, quando alguma coisa tocou o meu cérebro e, inconscientemente, virei para trás e deparei com uma das mais emblemáticas cenas da minha vida. Assim que eu voltei o olhar, tomei conhecimento do conteúdo da sacola. O plástico rasgou e uma garrafa grande de coca cola caiu (naquele tempo ainda não havia garrafa pet) e se transformou em dezenas de pequenos fragmentos no meio de cacos maiores. Deu dó ver o líquido que desperdiçava apenas com um objetivo: umedecer os lábios ressecados do passeio de cimento, impedidos pelo chapéu do muro de apreciar as delícias do orvalho que caíra durante a madrugada.
O susto foi imenso e a menina ficou sem entender o que estava acontecendo. E ainda pasma pelo choque, ela deixou a outra a sacola encostada no muro de uma casa e tentou, sem sucesso, salvar alguma coisa do refrigerante ou retirar os pedaços maiores da matéria cortante. Nesse momento, talvez com a colaboração inocente da brisa, a sacola se abriu e dois sacos de leite (que ainda não era comercializado em caixinha) rolaram passando sobre os cacos de vidro e os fragmentos produziam centenas de tetas esguichando leite em todas as direções, e alguns jactos chegavam a quase um metro de altura.
Eu não consegui ver nenhuma reação da garota que parecia estar em outra dimensão. Seus lábios não produziram nenhum som. Ela não xingou. Não lamentou. Não se desesperou. Seus olhos fixaram na cena. Era a confluência de dois rios: um de águas escuras, outro de águas claras. Eu também não conseguia sair do lugar. Assim como os da menina, meus olhos também estavam atados ao espetáculo. O tempo havia parado para nós. Estávamos os dois ali, um em frente ao outro, inertes, enfeitiçados por uma ação, encantados, prisioneiros no espaço, na eternização do momento e do fato que nos unia para sempre na duração real.
Até hoje não consegui uma palavra, uma frase capaz de dar um significado digno ao olhar daquela menina. Hoje, distante no tempo e no espação, entendo a minha falta de reação: Não a conhecia. Então, como perguntar alguma coisa? Oferecer a ela dinheiro para comprar os itens novamente? Não. Isso não seria possível. Meu dinheiro era a conta da passagem. Ela teria mais dinheiro para comprá-los outra vez? O pai ou mãe dela brigariam com ela? Havia uma criancinha que ficaria sem leite naquele dia? Ela mesma ficaria sem o café da manhã ou o lanche na hora do recreio? São questões que me perseguem por 40 longos anos; e que nunca encontrarão respostas.
Ainda vejo os olhos verdes da menina, assustados e incrédulos. Ela não estava acreditando que aquilo estivesse acontecendo. Não. Não podia estar acontecendo. Há noites em que sonho com aquele olhar e tenho pesadelos por não ter conseguido palavras capazes de abarcar o significado da cena e oferecer à garota uma frase de conforto e animação. Não sei se incapacidade minha ou da língua portuguesa. Precisava sair dali, mas meus olhos se recusavam deixar a obra-prima do acaso. Sabia que a aquele momento se eternizaria em mim, mas eu não podia me perenizar nele. Haveria vida depois daquele instante e além do panorama em que cacos de vidros e sacola plástica produzem úberes que derramam dores na consciência e revela a impotência humana diante da crueza bela dos fatos.
As ondas resultantes do jorrar do leite formavam arco-íris de tristeza nos olhos da menina que continuava presa no asfalto pela cola da incredulidade, esperando o lado surpresa da vida colocar uma pergunta: Como um fato daquele poderia acontecer? Questão para Chronus, deus do tempo, dar a resposta. Quantas vezes a história do ser humano na terra foi capaz de produzir um episódio desses? Os olhos piedosos da menina diante dos produtos que se desapareciam nas pedras escuras do calçamento lembra-me o olhar cheio de dor da Virgem Maria com Jesus no colo, incapaz de acreditar que seu filho pudesse estar ali morto em seus braços, mediante tamanha ignorância, − Ele que era Santo e Deus − como no quadro “Pietá” de Michelângelo.
A cor escura da coca ao misturar-se com o branco do leite criava um terceiro tom que unido aos olhos verdes da menina e o amarelo pálido de seus cabelos formavam uma cor indecifrável, semelhante ao sol que nascia, naquele instante, vermelho qual fogo, como que houvesse chorado a noite toda, por baixo das nuvens escuras e, juntos, pintavam o arrebol que, sobre as montanhas de Sabará, produzia um conjunto de matizes e formava o mais belo horizonte ou, simplesmente, a fusão dos quadros “A Cabana” e “A Noite Estrelada” de Van Gogh. Porque o amanhecer ainda carrega pedaços da noite.
E aquela manhã de primavera tornou-se a mais longínqua estação da minha frágil e insignificante existência. Ela, para sempre, viverá em mim.



A cena que paralisa; a lembrança que nunca se apaga, tanto pela dramaticidade do acontecimento quanto pela incapacidade de ser útil no momento. A paralisia daquele instante, tal como o ato de escrever essa crônica, são evidências da humanidade do seu coração, professor. Não sabemos por quais caminhos trilhou a menina dos olhos verdes, mas depois de ler sobre aquele acontecimento singular, meu coração deseja que ela esteja por aí, vivendo uma vida próspera e feliz, alheia ao fato de ter sido eternizada por aquele rapaz que contemplou a sua tristeza numa manhã de primavera.
França, há coisas que acontecem de forma marcante, tão marcante que tiram de nós o poder da ação. São coisas que vão muito além da nossa capacidade de compreender o motivo pelo qual participamos da experiência do outro - experiência em que estamos dentro do cenário alheio, somente como observadores e é como observador que devemos entender o momento da partilha, onde cada um sairá do cenário levando um aprendizado diferente.
Namastê!