A TRAVESSIA


O ônibus para perto da escola, assim que desço vejo crianças saindo eufóricas, e é estranho pensar que eu já fui uma delas. Parece que vai chover, devia ter trago a sombrinha, mas isso já não importa agora.
Ando algumas ruas até ver um portão rosa desbotado. Mas te alerto: tudo que irei ver agora é irreal, e mergulhar nesse mundo é sempre um risco, porque você pode até sair dele, mas ele não quer sair de você.
A primeira coisa que noto são as margaridas na janela, então vou me aproximando até abrir o portão. No sofá laranja encardido uma menina lê, seu cabelo é formado por cachos negros, como eu conheço esses olhos grandes que capitam até o andar de uma formiga - O almoço tá pronto. - Avisa uma voz rouca.
Na cozinha vejo uma mulher, baixa, magra, os cabelos presos. É a mesma de sempre, como eu me lembrava.
Sinto uma dor, não é meu corpo, mas sinto que algo doi, muito, é uma dor que vem e não passa, não passa. Quero gritar e não consigo, quero correr, mas minhas pernas não se movem.
Por que me abandonaste?
Fecho os olhos com força, e finjo que nada aconteceu, que estou na minha casa com meus filhos e a vida tem seu lugar. Então sinto uma gota em meu ombro, e outra e mais outra. Abro os olhos e vejo a chuva, enfim ela se libertou.



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