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APRENDENDO A TER ESPERANÇA

  • Foto do escritor: TEREZINHA ARAÚJO
    TEREZINHA ARAÚJO
  • há 22 horas
  • 3 min de leitura

Vivemos um tempo marcado por tensões globais, guerras, crises humanitárias, profundas incertezas políticas, desastres naturais e violências de toda ordem. As notícias chegam todos os dias carregadas de imagens de destruição, disputas de poder e instabilidade, cenas de ódio e barbárie. Diante desse cenário, experimentamos sentimentos de angústia, medo e impotência. Surge então perguntas que atravessam tanto a vida individual quanto a coletiva

Como sustentar a esperança em tempos tão incertos?


O que significa falar de esperança neste contexto?


Quando as ameaças surgem de vários lados, de longe e de perto, essas tensões tornam-se ainda mais viscerais. A sensação de insegurança via de regra desperta medos profundos, inclusive aqueles ligados à nossa própria fragilidade frente a vida. 


É como se aquilo que normalmente tentamos manter à distância como a violência, o medo, a fragilidade da vida, aparecesse de forma escancarada. É o encontro com o inominável, o indizível. O impacto dessas notícias atravessa o nosso cotidiano de maneira muito concreta, despertando angústias profundas, muitas delas relacionadas ao sentimento de desamparo que faz parte de nossa condição humana.


Imagine uma cena bastante comum: você acorda cedo, prepara o café e, antes mesmo de sair para o trabalho, abre o celular para ver as notícias do dia. Entre uma informação e outra, aparecem relatos de bombardeios, crises diplomáticas, instabilidade econômica, destruição de cidades, alagamentos, assassinato de crianças e mulheres. Em poucos minutos, já fomos atravessados por um volume enorme de informações que evocam medo, preocupação e sensação de impotência.


Depois disso, seguimos a rotina: pegamos o trânsito, respondemos mensagens, participamos de reuniões, resolvemos tarefas domésticas. A vida continua acontecendo, mas algo permanece gerando um incomodo, uma angustia, uma inquietação silenciosa.


Essas experiências mobilizam algo dentro de nós. Diante delas, muitas pessoas tentam reagir de duas formas opostas: algumas passam a evitar completamente qualquer notícia, enquanto outras mergulham em um fluxo de busca contínua de informações que aumenta ainda mais a ansiedade.


A psicanálise propõe um terceiro caminho: reconhecer e simbolizar aquilo que sentimos. Dar nome aos medos, falar sobre a angustia e refletir sobre o que essas situações despertam em nós, pode ser uma forma de elaborar essas experiências, em vez de simplesmente negá-las ou se deixar paralisar por elas. 


Assim quando a experiência ganha palavras, quando aquilo que era confuso, disperso encontra uma forma de ser pensado e elaborado, surge a possibilidade de transformação. A esperança, nesse contexto, aparece não como ilusão, mas como efeito do movimento psíquico de elaboração e ressignificação.


Outro aspecto importante é que, para a psicanálise, o sujeito se constitui sempre em relação ao outro. Somos marcados pelas experiências de vínculos, pelas histórias familiares, pelos encontros e desencontros que vivemos ao longo da vida. Muitas vezes, a esperança também nasce no encontro com alguém que escuta, reconhece e legitima a experiência subjetiva. O simples fato de ser ouvido pode reabrir possibilidades que antes pareciam fechadas.


Assim, diferente de discursos que tratam a esperança como simples otimismo ou pensamento positivo, a perspectiva psicanalítica reconhece que o sofrimento, o conflito e a violência fazem parte da experiência humana. Freud, ao refletir sobre a civilização, já indicava que a vida em sociedade é atravessada por tensões entre forças de construção e de destruição. A história humana tem sido marcada por movimentos contraditórios: criamos cultura, ciência e arte, mas também somos capazes de produzir guerras e violência.


Não esqueçamos   que enquanto houver palavra, reflexão e desejo, existirá espaço para reconstrução. Mesmo diante das turbulências, continuamos buscando caminhos para existir, para compreender o mundo e para criar novos sentidos para a vida. Saber que não temos controle sobre todas as coisas é um passo importante para não trazer uma carga excessiva e que não nos pertence.


Nesse cenário, a esperança não pode ser entendida como negação da realidade, ela não nasce da ausência de conflito, mas da capacidade de continuar desejando e significando a vida, mesmo quando o cenário parece ameaçador. 


A história nos ensina que diferentes sociedades atravessaram períodos de grande instabilidade política e social, e ainda assim produziram movimentos de resistência, solidariedade e reconstrução.


E talvez seja exatamente nessa persistência silenciosa, cotidiana e profundamente humana, que a esperança encontra sua forma mais verdadeira.


E a pergunta mais importante não é sobre o futuro do mundo, mas qual a nossa posição diante dele.


Em meio a tantas incertezas, o que, ou quem sustenta a sua esperança? 







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1 comentário

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José França
há 5 horas
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Que texto maravilhoso, Terezinha! Dá vontade de ficar lendo-o tempo todo. Falar de Esperança como o seu texto fala, é bom demais ouvir, pois nos trás um olhar diferenciado sobre a esperança. Falar de Esperança de forma profunda não de forma rasa com ouvimos e vemos todos os dias nos programas de televisão. A referência de Freud é maravilhosa. Afinal, a psicanálise tem sempre uma explicação para cada situação.


"Nesse cenário, a esperança não pode ser entendida como negação da realidade, ela não nasce da ausência de conflito, mas da capacidade de continuar desejando e significando a vida, mesmo quando o cenário parece ameaçador."


Este parágrafo é de grande ensinamento. Amei seu texto! Parabéns!

Um grande abraço.

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