BURNOUT E A SUBJETIVIDADE: POR QUE ALGUMAS PESSOAS ADOECEM E OUTRAS NÃO?
- TEREZINHA ARAÚJO

- há 18 horas
- 5 min de leitura

Nos dois primeiros textos desta série, refletimos sobre a centralidade do trabalho na vida contemporânea e sobre como as transformações do mundo do trabalho têm favorecido o crescimento do burnout. Vimos que a intensificação das demandas, a hiperconectividade, a cultura da alta performance e a dificuldade de estabelecer limites criam um cenário propício ao sofrimento psíquico.
Entretanto, uma pergunta permanece: por que, em uma mesma organização, sob as mesmas metas, com o mesmo gestor e enfrentando condições semelhantes, algumas pessoas desenvolvem burnout enquanto outras conseguem manter sua saúde mental?
Essa pergunta não possui uma resposta simples. E aí está sua importância.
Durante muito tempo, prevaleceram duas explicações insuficientes. A primeira responsabilizava exclusivamente o indivíduo: ele seria pouco resiliente, emocionalmente frágil ou incapaz de lidar com a pressão. A segunda atribuía toda a responsabilidade à organização, como se todos reagissem da mesma maneira diante das mesmas condições de trabalho.
Hoje sabemos que nenhuma dessas explicações, isoladamente, é capaz de compreender a complexidade do sofrimento humano.
As vivências no trabalho não são neutras. Cada trabalhador traz consigo muito mais que competências técnicas. Traz lembranças, valores, afetos, inseguranças, sonhos e maneiras próprias de atribuir significado ao fazer laboral.
A contribuição da Psicodinâmica do Trabalho
Para Christophe Dejours, criador da Psicodinâmica do Trabalho, trabalhar nunca significa apenas executar tarefas. Toda atividade profissional exige que o sujeito mobilize sua inteligência, sua criatividade e sua capacidade de enfrentar situações que raramente estão previstas nos manuais. Existe sempre uma diferença entre o trabalho prescrito — aquilo que está escrito nas normas — e o trabalho real — aquilo que efetivamente precisa ser feito para que as coisas funcionem.
É nesse espaço entre o prescrito e o real que o trabalhador investe algo de si mesmo.
Cada decisão tomada, cada problema solucionado, cada improvisação necessária carrega um investimento subjetivo. Trabalhar é colocar algo de si naquilo que se faz.
Todos os dias, trabalhadores improvisam soluções, criam estratégias, administram conflitos, compensam falhas do sistema, ajudam colegas e enfrentam situações que jamais poderiam ser antecipadas pelos protocolos organizacionais.
Esse esforço invisível exige inteligência, criatividade e investimento subjetivo. É justamente por isso que o reconhecimento ocupa um lugar tão importante na saúde mental.
Reconhecimento não significa apenas elogios ou promoções. Significa perceber que aquilo que fazemos tem valor para alguém. Significa sentir que nossa contribuição faz diferença, que nossa criatividade é respeitada e que nosso esforço é visto.
Quando isso acontece, até mesmo o sofrimento inerente ao trabalho pode transformar-se em crescimento, orgulho e fortalecimento da identidade.
Quando não acontece, instala-se um processo silencioso de desgaste.
É justamente nesse ponto que emerge uma questão fundamental: por que pessoas submetidas a contextos semelhantes respondem de maneiras tão diferentes? Por que algumas conseguem preservar o desejo e reinventar o sentido de seu trabalho, enquanto outras adoecem profundamente?
Dadas essas diferenças, compreender o burnout em sua maior profundidade, não é vê-lo apenas como o esgotamento de um corpo que trabalhou demais, mas como o desgaste de um sujeito que, aos poucos, deixou de encontrar no trabalho um espaço onde pudesse reconhecer a si mesmo e ser reconhecido.
Essa compreensão nos convida a abandonar explicações simplistas. O burnout não é apenas consequência de agendas lotadas, metas inalcançáveis ou jornadas extensas. Ele revela uma ruptura mais profunda: a perda do sentido do trabalho, do reconhecimento e da possibilidade de o sujeito investir afetivamente naquilo que faz. Quando o trabalho deixa de sustentar a identidade e passa a ameaçá-la, o sofrimento deixa de ser apenas uma reação ao excesso de demandas e passa a atingir o próprio modo de existir.
O trabalho nunca é apenas trabalho
A Psicanálise amplia ainda mais essa compreensão. Freud compreendia o trabalho como uma das formas privilegiadas pelas quais o ser humano estabelece um vínculo com a realidade e participa da construção da cultura. Trabalhar significa transformar o mundo, e também a si mesmo, é deslocar parte da energia psíquica para atividades que produzem algo socialmente compartilhado. O trabalho, portanto, não organiza apenas a vida econômica; organiza também aspectos importantes da vida psíquica.
Embora a famosa frase "amar e trabalhar são os pilares da saúde mental" não apareça literalmente em sua obra, ela sintetiza uma ideia fundamental do pensamento freudiano: uma vida psíquica relativamente saudável depende da capacidade de investir energia tanto nos vínculos afetivos quanto nas atividades que produzem sentido e inserção social.
Mas cada sujeito investe nesse trabalho de maneira singular. Algumas pessoas encontram na profissão um importante espaço de reconhecimento. Outras buscam reparar antigas experiências de desvalorização. Algumas encontram pertencimento. Outras depositam no sucesso profissional a esperança de finalmente serem aceitas, admiradas ou amadas.
Isso nos mostra que o trabalho nunca é apenas trabalho!
Ele pode representar autonomia, sobrevivência, vocação, poder, amor, segurança, reconhecimento ou pertencimento. Esses significados não são universais; são construídos ao longo da história de cada sujeito, são singulares.
É justamente essa singularidade que ajuda a compreender por que o burnout não se manifesta de maneira uniforme.
O sofrimento possui uma história
Nenhum sofrimento nasce apenas no presente. As experiências atuais dialogam continuamente com nossa história. Uma crítica recebida no ambiente de trabalho pode ser vivida como simples orientação por uma pessoa e como profunda humilhação por outra. Uma mudança organizacional pode representar crescimento para alguns e abandono para outros. A diferença não está apenas na situação objetiva. Está também na maneira como cada sujeito atribui significado ao que vive, e isso está relacionado com sua vida pregressa.
Isso não significa que o burnout seja um problema individual, uma consequência exclusiva da história de vida.
Significa compreender que o adoecimento surge no encontro entre condições objetivas de trabalho e uma subjetividade singular.
É exatamente nesse encontro que nasce o sofrimento. Talvez o burnout seja uma das formas pelas quais a subjetividade diz que chegou ao seu limite.
Na linguagem da Psicanálise, poderíamos dizer que o trabalho toca algo da subjetividade do sujeito.
Quando o sujeito encontra espaço para criar, participar, cooperar e ser reconhecido, o trabalho pode tornar-se uma poderosa fonte de desenvolvimento humano. Mas quando se encontra apenas obrigação de produzir, a lógica da performance e a busca incessante por resultados, instala-se uma experiência de esvaziamento subjetivo.
Talvez seja esse um dos maiores impactos do burnout, quando a identidade construída ao longo da vida profissional começa, lentamente, a se fragilizar, a esgarçar.
Por isso, enfrentar o burnout exige muito mais do que ensinar técnicas de gerenciamento do estresse ou incentivar práticas individuais de autocuidado. Essas iniciativas são importantes, mas tornam-se insuficientes quando ignoram as condições concretas em que o trabalho é realizado.
Da mesma forma, modificar processos organizacionais sem considerar a singularidade das pessoas também não resolve o problema.
O cuidado com a saúde mental exige um duplo movimento: transformar organizações para que sejam mais humanas e, ao mesmo tempo, reconhecer que cada trabalhador possui uma história única, que influencia a maneira como vive, interpreta e enfrenta o trabalho
Aprendemos com a Psicodinâmica do Trabalho e a Psicanálise que não adoece apenas quem trabalha muito. Adoece, sobretudo, aquele que deixa de encontrar no trabalho um lugar onde sua humanidade possa existir.
Quando assim compreendemos, também concluímos que prevenir o burnout não significa apenas reduzir o excesso de tarefas. Significa construir ambientes nos quais o trabalhador possa ser reconhecido não apenas pelo que produz, mas também pelo sujeito que é.
O trabalho continua sendo uma das formas mais importantes de participação na vida social. O desafio da contemporaneidade é fazer com que ele permaneça sendo também uma fonte de sentido, dignidade e desenvolvimento humano, e não de esgotamento e perda de si.



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