HORIZONTE
- ANA BEATRIZ

- 23 de abr.
- 2 min de leitura

Era uma quarta-feira: uma metade de laranja, o oposto do mundo, o avesso do estômago. Era quarta-feira, o centro de Belo Horizonte era monstruosamente harmônico, dentro da natureza das coisas. Em cada esquina uma vida pulsava, almas que no fundo vagavam meio sem rumo.
Ela era apenas mais uma nesse compasso: baixa, cabelos pranchados, batom borrado e esmalte descascado. Segurava, além dos resultados dos exames, sacolas de coisas que mais tarde ela olharia sem saber o porquê comprara, era coisa do momento.
Parou um pouco para respirar. Maldita dor nas juntas! O corpo parecia ter se tornado um crisalida, mas o médico daria um jeito! Não vivera cinquenta anos para depois entregar a face. Era só remendar algumas coisas que essa dor aliviava. Mas quando pensava isso não sabia ao certo a qual dor se referia...era muita coisa num corpo de meio século.
Olhou sem pretensão para a loja a sua frente, se deparou com um vestido no manequim, daqueles de donzelas que tomam Coca-Cola e tiram fotos de si mesmas como se pintassem a próxima Monalisa. Era perfeito. E era azul, o que apertava onde mais doía. Azul era a cor do manto da imagem de nossa senhora, a qual ela um dia coroara com um amor sem nome.
Olhava o vestido e via outras imagens, fragmentos de uma vida quase passada. Não sei ao certo o que ela viu, mas muita coisa aconteceu nesses instantes, uma vida se manifestando na calçada.
Ela sempre ganhava pouco e recusava o que lhe ofereciam. Era criada com um quase-nada que para ela era apenas existir. E então ela queria. Queria mais do que quando estava na sétima série e não tinha tênis, queria mais do que quando sua mãe não pôde costurar uma saia bonitinha para ir à igreja, queria mais do que quando quis alguém que tirasse ela de seus abismos, que depois se tornaram até que confortáveis.
Ela queria muito. Mas o tempo escorria como o suco da laranja, o mundo se contorcia e o estômago precisava de alimento.
Segurou firme as sacolas e continuou a andar.
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Ana, você escreve a verdadeira crônica intimista. O leitor não sabe se o fato que serve para a reflexão é real ou fruto da consciencia do narrador. É um lindo texto. Parabéns!
Adoro suas crônicas! São tão intimistas e dialogam tanto com nossas vozes internas... uma delícia de ler...
A precariedade profana de um cotidiano que beira o grotesco, possibilitando uma sublime e sagrada reflexão da existência humana.
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Era quarta-feira, o centro de Belo Horizonte era monstruosamente harmônico, dentro da natureza das coisas. Em cada esquina uma via pulsava, almas que no fundo vagavam meio sem rumo.
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Ela queria muito. Mas a vida escorria como suco de laranja...
A efemeridade das pessoas, das coisas, da vida... eternizadas nas linhas filosóficas desta pequena crônica de Ana Beatriz.
Parabéns a esta brilhante autora.
No centro de todas as coisas, as coisas se tornam profundas, ali não há escassez e a fome da vida, das coisas se torna infinitamente extenso.
Lindo texto!
Namastê!
E assim é a vida tantas vezes... Nos negamos, nos anulamos e seguimos... Confortados, conformados e, não poucas vezes, culpados, sem sabermos por qual pecado.