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PARA TODAS AS IDADES

  • Foto do escritor: JEFFERSON LIMA
    JEFFERSON LIMA
  • 9 de out. de 2025
  • 5 min de leitura


“Já não se vê pipas coloridas pelo ar,

trazendo a esperança que as crianças voltaram do espaço,

que as crianças voltaram a brincar.

Já não se lê lindas poesias nos jornais,

trazendo a esperança que os poetas voltaram do exílio,

que os poetas voltaram a sonhar.”

(Janires)


Hoje me peguei cantarolando essa linda canção de Janires, composta em 1987 e gravada no primeiro álbum da Banda Azul — e que seria sua última gravação, pois o compositor faleceu antes que o LP fosse lançado. Era uma época em que a música cristã no Brasil ainda conservava linhas poéticas da melhor qualidade.


Lembrar de Coração Azul — esse é o título da canção — me proporcionou uma viagem saborosa aos tempos de infância. Já contei aqui, em uma das crônicas passadas, sobre o meu Ferrorama XP 400, que era um brinquedo já bastante tecnológico para a época. Hoje, porém, minhas memórias foram para os momentos mais lúdicos e puros da criança que fui.


Cresci como um menino solto, brincando na rua com todo tipo de brinquedos e jogos. O preferido era o arco: uma rodinha metálica empurrada por um ferrinho em formato de gancho. Eu era considerado o mais habilidoso na arte de “rodar arco” pelas ruas do bairro Satélite, em João Monlevade. O brinquedo era meu fiel companheiro para ir buscar pão ou para atender a qualquer demanda de minha mãe. Era mais comum me ver conduzindo a rodinha barulhenta pelas ruas do bairro, que pedalando minha Monareta de cor “bonina” — sim, esse nome de cor – “bonina” – ainda era conhecido nos anos 80.




E como não lembrar da brincadeira de “finca”? Cada menino portava um pedaço de ferro bem afiado ou até mesmo uma faca pontiaguda, surrupiada da cozinha da mãe, para fincar no chão úmido após as chuvas, riscando linhas em disputas cheias de estratégia, gritaria e confusão. Naquele tempo, nenhum de nós cogitava usar aquele objeto perigoso para resolver desavenças. Éramos inocentes, e temíamos a repreensão, seja dos próprios pais ou dos vizinhos. Na comunidade, todos se sentiam no direito de corrigir os filhos uns dos outros — e isso não era um problema.


Brincávamos ainda de “controle” ou “três toques”: um futebol improvisado com dois na linha e um no gol — geralmente o portão de algum vizinho. Nos primeiros minutos, não se importavam, mas depois, cansados dos gritos e das boladas no portão, reclamavam, e íamos, então, incomodar outro.


Entre bola, arco, rouba-bandeira, queimada, polícia e ladrão, bolinhas de gude, pique-esconde, carrinhos de rolimã e tantas outras brincadeiras, havia algo que me encantava especialmente: as férias de julho e os fins de semana de agosto, quando o vento trazia de volta as pipas, que então chamávamos de papagaios — nome que, confesso, prefiro.


Ainda vivi os dias em que não se usava cerol. Gostava de confeccionar papagaios grandes e coloridos, empinando-os com centenas de metros de “Linha 10”, enrolada cuidadosamente em uma manivela de madeira. Foi assim durante toda a infância, até que, já no início da adolescência, surgiram as primeiras linhas adulteradas com cola e vidro moído, feitas para cortar as linhas dos outros papagaios. A partir daí, a disputa se instalou. Como eu gostava mesmo era de ver o meu papagaio apenas colorindo o céu, encerrei meu ciclo com essa brincadeira. E, quase sem perceber, também minha infância começava a se despedir: os interesses mudavam e as brincadeiras ficavam para trás. Mas eu não deixei de brincar.


Foi nesse período que mergulhei nas aulas de música, onde aprendi teoria musical e pratiquei clarinete e saxofone — este último se tornaria meu instrumento da vida. Já brincante da leitura, comecei também a escrever poemas, em que derramava paixões, sonhos e desilusões adolescentes, quase sempre rasgados logo em seguida.


Tocar sax e escrever se tornaram meus brinquedos favoritos. O sax me acompanharia por décadas de intensa atividade musical; hoje, com as demandas cotidianas, ficou como passatempo esporádico. Já a escrita continua sendo o espaço onde a criança se une ao adolescente para bagunçar as ideias do homem adulto e produzir algo prazeroso.


Também não posso esquecer a fase das tintas e pincéis. Volto a essa diversão de vez em quando, e ela me traz uma imensa alegria. Brincando com cores e texturas, entre o cheiro da tinta e a escolha do melhor pincel, o tempo escorre sem que eu perceba.



A canção de Janires, com a qual iniciei este texto, tem uma segunda parte, na qual ele se lamenta e tenta justificar a ausência das pipas coloridas e da poesia nos tempos atuais:


“Também, de que adianta pipas coloridas pelo ar,

se as pessoas não querem mais ver?

Também, de que adianta lindas poesias nos jornais,

se as pessoas não querem mais ler?”


Sou tentado a concordar com o poeta. Hoje, às vezes, acham graça quando deixo vir à tona meu lado mais lúdico, sonhador ou de menino travesso que gosta de gargalhar e não perde a chance de uma boa bagunça.


Veio-me à memória um sarau, em tempos de pandemia, realizado numa quinta-feira à noite em frente à igrejinha da Pampulha, em BH. Ainda era período de distanciamento, mas, já vacinados com a primeira dose, nos arriscamos num encontro ao ar livre. Ilma Pereira, querida amiga e “fofoqueira literária” deste blog, junto a duas colegas poetas, embarcaram na minha sugestão pós-sarau: “vamos brincar no Minhocão do Parque Guanabara!” Naquele instante, fomos crianças outra vez, rindo alto e nos divertindo, como se as preocupações daqueles dias tivessem se reduzido a nada.


E aqui evoco a poesia de Fernando Brant e Milton Nascimento, Bola de Meia, Bola de Gude, que o nosso querido Bituca tão lindamente cantou:


Há um menino, há um moleque

Morando sempre no meu coração

Toda vez que o adulto balança

Ele vem pra me dar a mão

(...)

E me fala de coisas bonitas

Que eu acredito que não deixarão de existir

Amizade, palavra, respeito

Caráter, bondade, alegria e amor

Pois não posso, não devo, não quero

Viver como toda essa gente insiste em viver

E não posso aceitar sossegado

Qualquer sacanagem ser coisa normal

Bola de meia, bola de gude

O solitário não quer solidão

Toda vez que a tristeza me alcança

O menino me dá a mão

(...)


Finalmente, lembro-me das palavras de Jesus, que afirmou que o Reino dos Céus pertence a quem tiver em si a pureza das crianças (Mateus 18:3 e 19:14). Algo quase impossível, mas que devemos buscar em algum cantinho interior, onde a nossa criança se esconde — e trazê-la a brincar.

Um feliz Dia das Crianças para a molecada de todas as idades! Brinquemos!


A vida é uma criança, um carrossel de esperança

Amor e paz é o que queremos

Venha com a gente e cantaremos

O nosso mundo é colorido e como é lindo

Igual uma bola de sabão, é de ilusão

Nosso caminho é florido e nossa vida tem sabor de emoção(...)


Vem, eu quero te mostrar

Existe um lugar pra gente ser feliz

Vamos juntos caminhar, correr, sorrir, brincar

Cantar e pedir bis

(Carrossel de Esperança - Paulo Massadas / Iracy Pereira / Mihail Plopschi)


Gente, é para ler cantando!


Façam de conta que não tem ninguém olhando e, se tiver, não tem problema, chame para ler e cantar junto!





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14 comentários

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12 de out. de 2025

A infância que silencia em nós, mas não nos abandona, basta ouvir uma música, assistir a um filme, ver um vídeo sobre brincadeiras infantis, que ela grita: Ainda estou aqui, tentando sustentar o adulto que você é... parabéns Jefferson, lindo texto. Obrigado por compartilhar páginas da sua infância. E pelo visto, feliz. Valeu. Um abraço.

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
12 de out. de 2025
Respondendo a

Obrigado por ler meus rabiscos infantis... Que a infância não nos abandone!!!

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Beto Nicou
Beto Nicou
11 de out. de 2025

Jefferson, que doce travessia pelas lembranças!

Ao ler sua crônica, senti como se estivesse caminhando de mãos dadas com minha própria infância. Temos histórias que se entrelaçam, brincadeiras idênticas, a mesma liberdade de menino solto pelas ruas, empurrando com destreza uma haste e um círculo metálico, como quem guia sonhos sobre o asfalto.

Engraxava sapatos com orgulho de pequeno trabalhador, e como vivia quase o dia inteiro pelas calçadas e becos, meus pais nem sempre percebiam meus sumiços. Três vezes embarquei, clandestino e aventureiro, num trem de ferro rumo a Raposos, com amigos que compartilhavam a sede de mundo. Na terceira, uma vizinha delatora revelou o segredo à minha mãe… e recebi uma surra daquelas. Mas foi um “carinho” justo,…

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
11 de out. de 2025
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Gratidão pelo comentário poético e nostálgico, Beto!

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Convidado:
10 de out. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

O texto nos convida a recordar o nosso tempo mágico: a infância. Revi brincadeiras que fazia com o meu irmão. A melhor lembrança que tenho são os passeios de bicicletas que iam cada vez buscando na pequena cidade territórios desconhecidos.


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Jefferson Lima
Jefferson Lima
10 de out. de 2025
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As lembranças da infância nas cidades do interior são impagáveis, né? Reviver essas memórias faz a gente sorrir sozinho e ficar feliz com nossa bendita existência.

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Convidado:
10 de out. de 2025
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Parabéns Jeferson!!! A poesia no olhar, a poesia na memória, a poesia na escrita... e, sobretudo, a poesia em cada gesto de quem transforma o cotidiano em arte.

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
10 de out. de 2025
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Sim! A vida sem poesia seria insípida! Ela nos salva!

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Convidado:
10 de out. de 2025

Adorei, Jefferson. A criança que fui e que ainda anda de mãos dadas comigo cabe tanto neste texto! Só nao toquei arco pelas ruas, mas ví muitos sendo levados de forma extraordinária. O barulho que faziam pelas pedras da cidade me encantava. Balançar no bambuzal também. E viver nas gangorras? Pura alegria. Seu texto foi lembrança alegre para a adulta mais que madura que vive em mim, e para criança que, com alegria, teima em me fazer companhia. Só quero saber hoje, onde andam as estrelas que naquele tempo, viviam mais próximas de nós?😍😘

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Jefferson Lima
Jefferson Lima
10 de out. de 2025
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Que delícia de comentário! Amo quando o adulto deixa a criança se expressar de maneira tão bonita. Que essa criança sapeca que mora aí, nunca deixe de sorrir!

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