Sobre provas, casulos e a Páscoa
- ILMA PEREIRA

- 7 de abr.
- 4 min de leitura

Hoje não trago uma fofoca literária. E explico por quê.
Dentre as notícias que me impactaram nesse mês de março e foram muitas — guerras, chuvas pesadas, enchentes, etc. — a que mais mexeu comigo foi a do rapaz que teve a redação da Fuvest desclassificada e que virou meme na internet.
Por que isso mexeu comigo?
Talvez por ter acompanhado filhas e sobrinhos que passaram pelo tormento — mas necessário — do Enem, ou quem sabe porque fui professora por 32 anos e corretora do Enem, ou porque me dói ver alguém sendo ridicularizado, qualquer que seja.
O certo é que queremos, de uma maneira muito cruel, que jovens imaturos decidam seu futuro aos 18 anos e quando acontece uma calamidade como não passar no Enem, no vestibular, fica a sensação de um fracasso que jamais será revertido. E, no caso do rapaz da Fuvest, ainda virou meme na internet.
Reino Unido, Canadá e outros países incentivam fortemente um ano sabático para jovens antes da faculdade com o objetivo de promover maturidade, independência, aprendizado de idiomas e experiência profissional. Mas esta não é uma realidade possível para a maior parte dos jovens brasileiros, ainda.
Então, se eu pudesse conversar com o jovem Luis Henrique, como fez brilhantemente na revista piauí (com minúscula mesmo) o jornalista Marcelo Soares, em uma carta aberta que eu gostaria de ter escrito, eu lhe diria algumas poucas palavras. É o que farei.
Luis Henrique, a vida não pode e nem deve ser definida aos 18 anos. Podemos e devemos redefini-la todos os dias, alterar pensamentos, rotas, seja aos 12, aos 18 ou 81 anos.
Aos 12 anos, uma bomba caiu sobre minha frágil cabeça. Eu fui reprovada. Nos anos 80, ainda existia a reprovação se faltasse um ponto. E realmente aquilo caiu como uma bomba sobre mim. A expressão de decepção do meu pai me doeu, afinal minha irmã mais velha era considerada a menina mais inteligente da nossa cidade. Mas o que realmente me doeu foi que cada professor, que entrava no ano seguinte, fazia questão de espezinhar meu naufragado amor-próprio, dizendo que era uma vergonha a irmã da menina mais inteligente da cidade ter tomado bomba. Até os colegas se afastaram de mim como se eu tivesse uma doença infecciosa.
Mas por que estou contando isso? Porque, Luis Henrique, todos nós erramos e você ainda vai errar muito, mas se refletir sobre o erro e buscar outra rota, saberá que o erro serviu de lição.
Se posso lhe dar uma sugestão, Luís Henrique, não leia só as redações nota 1.000 ou que foram zeradas. Leia também ficção.
Por que ler livros de ficção?
Porque vão te ajudar a compreender o comportamento humano, analisar contextos, estimular a empatia e o olhar cidadão.
Ficção não é desligar o cérebro ou perder tempo como muitos dizem.
Pelo contrário, vai te ajudar a sustentar a atenção por longos períodos, compreender múltiplas camadas de sentido, construir imagens mentais complexas e conectar narrativas com contexto histórico e social, além de oferecer alívio da ansiedade pré-prova.
Os manuais de redação vão te ensinar o “como fazer”, mas a ficção te ensinará percepção. E a percepção te ajudará a mudar sua visão do mundo e a entender os diversos “porquês” que nos rodeiam.
Voltando à famigerada bomba nos meus 12 anos, pus na cabeça que jamais passaria por aquilo de novo. Virei rata de biblioteca e a aluna que não dormia nem viajava nas aulas. Resultado: minhas notas mudaram consideravelmente, não cheguei a ser gênia como a minha irmã, mas ninguém me humilhou jamais, ganhei até o respeito e admiração dos colegas.
Ler muito e estudar com afinco me fez sair de um atoleiro e alçar voos inimagináveis. Naquela época, li “A história de Fernão Capelo Gaivota”, de Richard Bach, o que me deu um novo ânimo. Brilhar nos estudos foi minha liberdade de voo alcançada pela gaivota.
Meu jovem, sua dor vai se fazer presente por muito tempo ainda, mas escolha deixá-la num compartimento de difícil acesso, para que você possa seguir em frente. A vida nos dá oportunidade de escolher todos os dias o que vamos fazer, seja meter o pé e mudar o rumo, seja pisar com cuidado e ajustar a rota escolhida.
Coragem para mudar, fazer diferente, não é fácil. Recomeçar exige coragem. Mas é o que a vida vai exigir de você sempre, Luis Henrique. Como disse Guimarães Rosa: “O mais importante e bonito do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando”.
Na pandemia tive a felicidade de conviver com meu pai 24h por dia. Nunca mais comentamos sobre aquela bomba. Mas o meu pai teve a oportunidade de ver que, aos 50 anos de idade, tive a coragem de iniciar uma nova carreira, como escritora, e enchê-lo de orgulho.
Estamos na Páscoa, período que nos convida a acreditar, independente de sua religião, que o que parece morte definitiva é só o começo de um novo tempo. Páscoa é sobre deixar para trás o que passou e acreditar que, após o casulo, o escuro da dor, há vida, há esperança, há luz. “Não haverá borboletas se a vida não passar por longas e silenciosas metamorfoses”, como disse Rubem Alves.
Luis Henrique, assim como Elis Regina cantou:
“ São as águas de março fechando o verão esperança de vida no meu coração…” desejo que seu jovem coração seja lavado dos dissabores e, no futuro, você possa dar boas risadas dos perrengues que agora está passando.
Com carinho,
Não se esqueça de deixar um comentário, e seguir nossas redes sociais:



Que texto lindo e inspirador, Ilma! A forma como você conecta a experiência pessoal com a Páscoa e a importância da ficção é muito tocante. É um lembrete poderoso de que os "fracassos" podem ser metamorfoses para algo maior. A história da sua reprovação aos 12 anos e a sua resiliência são um exemplo para todos, especialmente para os jovens que se sentem pressionados. E a dica de ler ficção para desenvolver a percepção é valiosíssima! Parabéns pela sensibilidade e por compartilhar essa reflexão tão necessária.
Lindo ver a sua sensibilidade ao escrever. É desse tipo de acolhimento que as pessoas precisam!
Ilma, só posso dar 5 estrelas para o seu texto, pois as opções só vão até este número. São limitadas. Queria dar 50, 500, mil, milhões de estrelas. Você escreveu um curso de lição de vida. É um texto para ser lido todas as manhãs como forma de oracão e aprendizado de como amar e respeitar o próximo.
Já te falei em outros momentos que seus texto me balançam, foi um tremor em todo corpo, mas não é para menos.
O tempo passa, as gerações se sucedem, mas o olhar social não acompanha. Jovens dos anos 60, 70 e até meados de 80, amadureciam cedo... saiam de casa aos 15, aos 16, para construir algo na vida. Trabalhavam de carteira…
Ilma, quanta referência bacana no seu texto! Quando citou Guimarães Rosa achei que traria a frase emblemática dele na qual ele diz que a vida quer da gente é coragem e me surpreendi com outra. Foi interessante porque às vezes temos a tendência de completar a fala do outro a partir do nosso repertório e isso muitas vezes nos impede de aprender com outros olhares. Gostei de ler como que sua experiência desagradável no início da sua adolescência te levou a um lugar de luta e de transformação e não de entrega ao estigma que tentaram cruelmente te imputar. Sinta meu abraço e minha admiração pela sua história. Eu confesso que não estou sabendo nada desse episódio que você relatou…
Ilma, quanta sensibilidade! Em tempos de ódios e cancelamentos é exatamente de palavras como as suas que os jovens precisam ler e ouvir. Um ser humano é um oceano de tão grande, precisamos estar atentos ao que somos e ao que tentam fazer de nós. Perfeito você contar para ele sobre sua vivência com uma bomba escolar. Mostrou para ele que somos os heróis de nossa própria história e que temos o poder de fazer as mudanças sempre para melhor. Parabéns Ilma, texto sensível e de suma importância.