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TÃO PERTO. TÃO LONGE.

Foto do escritor: CARLA KIRILOS
CARLA KIRILOS
há 4 horas
3 min de leitura

Eu fui para San Diego com um propósito muito claro: estudar inglês. Fazer um programa de imersão em uma faculdade americana que recebe estrangeiros que querem aprimorar o inglês.


Aos 67 anos, decidi voltar para a sala de aula, enfrentar minhas barreiras com a língua e me permitir viver uma experiência que exigia investimento, disposição e, principalmente, coragem para sair da minha zona de conforto.


Não fui fazer turismo. Fui estudar. Fui aprender. Fui me desafiar. Enfrentar uma jornada de 4 horas diárias de aula focada na língua americana.


E, como acontece tantas vezes quando nos dispomos verdadeiramente a aprender, acabei descobrindo que algumas das maiores lições não estavam nas páginas dos livros.


Estavam do lado de fora da sala de aula. Sim, porque conhecer mais sobre a cidade onde eu estava também fazia parte da programação.


Por isto, durante minha permanência em San Diego, fui conhecer a região da fronteira com o México. Não atravessei o muro. Não fui a Tijuana. Fiquei do lado americano, olhando para uma cidade que estava ali, tão próxima, e para uma estrutura que materializava uma separação que, até então, eu conhecia apenas por imagens e notícias.


E foi tocante!


Porque há coisas que a gente entende com a cabeça, mas só sente quando os olhos encontram a realidade.


Eu sabia que existia um muro. Sabia que havia uma fronteira. Sabia que, naquele lugar, histórias de milhares de pessoas se cruzavam — ou deixavam de se cruzar.


Mas estar diante dele foi diferente.


Ali, o muro deixou de ser uma imagem de televisão, uma fotografia de jornal, uma notícia distante. Tornou-se concreto. Tornou-se presença.


E eu não conseguia deixar de pensar nas pessoas. Em quem nasceu de um lado e tem alguém que ama do outro. Em quem olha para aquele muro sabendo que, poucos metros além dele, existe uma cidade, uma família, uma oportunidade ou uma vida que talvez nunca possa alcançar.


"O estrangeiro que peregrinar convosco será para vós como o natural entre vós, e o amarás como a ti mesmo." (Levítico 19:34).


Não é um texto sobre política migratória. É um texto sobre onde termina o "nós" e onde começa o "eles" — e sobre a ordem, antiga e incômoda, de apagar essa linha.


E pensei: em pleno 2026, eu havia atravessado milhares de quilômetros para estudar uma língua que nasceu em outra cultura. Estava ali, tentando aprender novas palavras, novas expressões, novas formas de me comunicar.


E, diante daquele muro, pensei em uma palavra que nenhuma aula de inglês conseguiria explicar completamente: Humanidade


Vivemos em um tempo em que uma mensagem atravessa o planeta em segundos. Podemos conversar com alguém do outro lado do mundo, conhecer culturas que nossos avós talvez jamais tivessem a oportunidade de conhecer.


A tecnologia derrubou distâncias que pareciam impossíveis.


Mas nós continuamos construindo muros.


Alguns são feitos de concreto e aço. Como o que eu vi ao vivo. Outros não precisam de material algum — são erguidos dentro de nós toda vez que decidimos que o outro é uma ameaça antes de ser uma pessoa.


Talvez tenha sido essa a maior lição que trouxe dessa viagem.


Meu propósito em ir para San Diego foi estudar inglês. Mas voltei pensando em outra linguagem: a linguagem que usamos quando decidimos como olhar para o outro.


Porque uma coisa é proteger fronteiras. Outra é permitir que o medo nos faça esquecer que, do outro lado de qualquer fronteira, existem pessoas que amam, que sonham, que sofrem, que simplesmente desejam uma oportunidade de viver.


Não saí daquele lugar com respostas.


Saí com uma pergunta que o texto bíblico de Levítico parece ter deixado em aberto há mais de três mil anos:


Em que momento o medo do outro ficou maior do que o mandamento de amá-lo como a nós mesmos?


Talvez a humanidade não esteja falida. Talvez esteja apenas diante de uma escolha que precisa ser feita todos os dias — entre afastar e aproximar, entre julgar e compreender, entre construir muros ou abrir caminhos.


E o primeiro deles, talvez, já esteja sendo aberto agora — nesta pergunta que você acabou de ler.











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