BOY SOBER: MOVIMENTO SOCIAL DE MULHERES HÉTEROS E O COMPORTAMENTO AFETIVO OBSERVADO NA ATUALIDADE
O que esse movimento social de mulheres héteros sinaliza sobre o comportamento afetivo observado na atualidade?
Vocês já ouviram falar no movimento Boy Sober? Confesso que não o conhecia e que de cara já esbarrei na dificuldade de compreender o termo devido ao desconfortável emprego de um estrangeirismo forçado - mas isso fica para uma outra discussão linguística que não vou ter aqui e agora. Na esteira das minhas curiosas pesquisas e leituras sobre relacionamentos conheci esse movimento e achei interessante analisar a proposta dele. Vamos embarcar nessa jornada de conhecimento comigo?
Por Michelle MKO

Antes de tudo, vamos começar pela explicação do termo Boy Sober que, em uma tradução livre, seria uma espécie de sobriedade de homem, um tipo de detox de homem. Na prática é dar uma pausa voluntária dos encontros românticos, das paqueras e até do sexo casual. Isso seria uma espécie de celibato definitivo? Não chega a esse ponto, vamos lá, mas, é uma escolha que tem como principal motivação a autopreservação emocional e a pausa do amor romântico por parte de uma parcela significativa do público feminino, ainda que temporariamente.
Sabemos que nossa sociedade é muito centrada na noção de que a completude existencial e a felicidade de uma mulher são atingidas a partir da experiência de um relacionamento romântico. Expressões do tipo “metade da laranja”, “tampa da panela”, “alma gêmea”, entre outras representam essa percepção social da necessidade de um romance para se constituir uma existência plena, como se não fosse possível ser inteira sozinha. É como se fosse impraticável uma vida feliz fora dessa configuração de casal.
Os contos de fadas que o digam, afinal, muitas meninas crescem querendo encontrar seu príncipe encantado e viverem felizes para sempre. Mas poucas questionam na vida adulta esse papel social de subserviência da mulher na relação, essa atribuição de cuidadora e abnegada de suas próprias necessidades. Já os homens nas histórias - e muitas vezes na vida real - têm como único papel, escolher a mulher e ganhar um reino de devoção como pagamento por isso. Aliás, um homem mais velho e solteiro é visto como um solteirão convicto, um garanhão ou um bon vivant que curte a vida. Já a mulher que não se casa é criticada, taxada como infeliz e irrealizada, é chamada de solteirona, algumas pessoas usam expressões do tipo de que elas “ficaram para a titia”, ou de que vão virar “uma velha dos gatos ou dos cachorros”. É como se à mulher fosse imposto o papel de se casar e de cuidar de sua família até morrer. Os fatores socioculturais alimentam essa entrega excessiva ao parceiro e trazem como retorno a aprovação social e muitas vezes fazem com que essas mesmas mulheres evitem conflitos relacionais.
O que tem levado mulheres a tomarem a decisão de viverem um período de detox de homens? E somente mulheres héteros têm tomado essa decisão ou mulheres lésbicas e bissexuais também estão testando essa nova configuração social de não investirem em um relacionamento romântico?
Conversando com amigas, partindo de experiências pessoais, lendo relatos nas redes sociais e em matérias que abordam a temática, tenho percebido que esse detox de relacionamento romântico tem ultrapassado a margem da heterossexualidade. Isso porque, dentre as motivações para esse tempo nos namoros estão as frustrações amorosas, os traumas de relacionamentos abusivos ou até mesmo o cansaço de ter que fazer dessa busca uma jornada nos aplicativos de relacionamentos e nas saídas com a finalidade de se conhecer alguém. E, vamos combinar, esses problemas relacionais não se restringem às relações heterossexuais, né? Há desilusão amorosa entre casais de mulheres, bem como relações abusivas e dificuldades de garimpo em aplicativos de namoros entre mulheres também!
A revista americana Time publicou em fevereiro de 2024 uma reportagem na qual se observava que jovens da geração Z estavam diminuindo a busca de parceiros nos aplicativos de namoro nos Estados Unidos. Entre círculos de conversas é muito comum mulheres relatarem uma profunda preguiça de conhecerem parceiros e parceiras em aplicativos devido à superficialidade das interações, o nível de exigência e a baixa contrapartida emocional que oferecem. Porque amar envolve trabalho, sobretudo para a mulher que precisa gerenciar as próprias emoções e as dos parceiros, antecipar os possíveis conflitos de interesses, observar as mudanças de humor do outro, propor DRs quando necessário, medir interesses e disponibilidades, entre outras demandas. Só de citar algumas delas já fiquei cansada. E você?
Mas, diante desse cenário pouco animador no campo dos romances existe algum problema em se buscar viver um relacionamento romântico? De forma alguma! Quem nunca o fez que atire a primeira pedra! A questão aqui não é criticar a busca por uma parceria amorosa, mas levantar questionamentos que podem ser pertinentes na análise da construção de uma vida emocional saudável.
Acho que o primeiro ponto a ser observado é que, na multiplicidade de papéis sociais que exercemos - filhas, mães, amigas, profissionais, estudantes e parceiras românticas - quais são os papéis que recebem mais atenção, energia e cuidado da nossa parte? Quais relacionamentos nossos estão sendo nutridos e qual a intensidade e a qualidade dessa nutrição? Nossas necessidades individuais estão sendo respeitadas ou estão se perdendo em detrimento das do casal ou até das exclusivamente de nossos parceiros? Nós nos permitimos efetivamente nos dedicar mais a nós mesmas e a outros prazeres que não os ligados ao relacionamento romântico? Nosso autocuidado e nosso autoprazer estão sendo atendidos? O tempo para nós mesmas está em dia? Acreditar que uma única pessoa possa suprir todas as nossas demandas emocionais e sociais é uma crença fora da realidade que pode levar a frustrações em um relacionamento de qualquer natureza, inclusive e principalmente no romântico.
Acredito que pensar em uma descentralização do amor romântico seja um movimento importante para a saúde emocional, sobretudo para nós mulheres. Tal desconstrução pode ser uma espécie de meio do caminho para quem acredita que o detox de relacionamento romântico seja uma medida extrema.
É importante que a mulher possa investir em sua própria autonomia e que dissocie de parceiros românticos a validação exclusiva de seus sonhos e realizações pessoais. Amigos são importantes para trocas sociais, para a construção de afetos genuínos e fortalecimento de vínculos emocionais e, muitas mulheres, seja por escolha pessoal ou até por imposição dos parceiros, se afastam dos amigos para concentrarem suas energias exclusivamente no casal. Outro hábito infeliz de muitas de nós quando estamos em um relacionamento romântico é o abandono de rotinas de autocuidado, de prática de hobbies e de tempo para a vivência da solitude. Precisamos nos perguntar o que estamos deixando de viver para caber na vida do outro. Que espaço e intensidade de energia estamos dispostas a conceder na nossa vida para o amor romântico?
E você, já parou para refletir sobre seus relacionamentos românticos? Como está girando a sua roda de amigos? Suas emoções estão sendo consideradas e suas necessidades estão sendo respeitadas nos seus namoros? Você se sente abastecida emocionalmente nas suas relações amorosas? Acredito que responder essas perguntas pode ser uma boa análise das relações românticas que já existem e um bom roteiro para pensar em quem vai ocupar o nosso coração daqui para frente.




Michelle, gostei muito do seu texto! Acho especialmente interessante a maneira como você transforma uma discussão sobre comportamento afetivo em uma reflexão mais ampla sobre autonomia feminina, relações de gênero e estruturas sociais. Seu engajamento político é perceptível e, ao meu ver, torna suas reflexões ainda mais relevantes. Pelo que venho acompanhando recentemente no blog, você é uma das grandes comunistas daqui, e isso também se manifesta na maneira como aborda questões que, embora pareçam individuais, são atravessadas por contradições sociais e relações de poder.
Acredito que você tem potencial para se desenvolver como uma excelente ensaísta. Como possibilidade de aprofundamento, penso que o diálogo com pesquisas e referências teóricas poderia conferir ainda mais densidade às suas reflexões, que já…
Este seu texto de Michelle sobre o movimento Boy Sober (tantas expressões estrangeiras: sugar daddy, sugar baby, sugar mommy, baby boomer... esta é só mais uma) faz uma reflexão instigante sobre a autonomia feminina e a desconstrução da centralidade do amor romântico. Ele evidencia como fatores socioculturais ainda pressionam mulheres a se realizarem apenas em relações afetivas, mas também mostra o surgimento de uma resistência saudável a esse padrão.
Para mim, sua análise amplia o debate ao incluir experiências de diferentes orientações sexuais, revelando que o cansaço emocional e as frustrações não são exclusivos das relações heterossexuais. (Faz-me lembrar Karin Boye, poetisa sueca.) Ao propor a descentralização do amor romântico, seu texto aponta para a importância do autocuidado, da amiz…
Oi Michele, vejo o tema que você aborda muito polêmico, importantíssimo que merece um estudo profundo, uma conscientização plena por parte não só da educação, mas da sociedade em geral. A mulher do século XX e XXI corre atrás de sua independência em todos os sentidos e isso interfere na forma de amar, porque o parceiro não aceita. 👨👩👦👦A mulher de hoje não tem mais tempo para manter o amor romântico tradicional. Acho lindo, só que não encaixa. O tempo mudou e como você disse em seu texto "amar envolve trabalho, sobretudo para a mulher"
Não sei, acho também que o relacionamento perde. Às vezes, o casal trabalha tanto que não tem tempo para amar.
-Será que os bens materiais…
Michelle, gostei muito do seu texto. Não conhecia o termo estrangeiro - e confesso ter uma certa birra disso - no entanto acredito que esse posicionamento que vem crescendo vem a reboque da maior busca por autoconhecimento e, principalmente, da melhoria da saúde mental, da consciência de que ninguém precisa se manter em um relacionamento onde não se sente bem, ou de uma forma que seja incômoda, apenas para satisfazer o outro. E que nós, em nossos relacionamentos, possamos não apenas enxergar, mas prestar atenção no outro e na qualidade do que estamos vivendo juntos. Beijão!
O Tema é interessante! Muitas mulheres estão escolhendo a solitude,para ter seu emocional saudável. Por observar os relacionamentos que são muitas cobranças e até mesmo, ela esquece que precisa ter o seu tempo para si. VIver em solitude não é egoísmo e sim escolher o melhor para sua vivência.
Parabéns Michelle!