top of page

FOLHAS DE PAPEL EM BRANCO

Foto do escritor: MARIA ANÉSIA
MARIA ANÉSIA
há 1 dia
2 min de leitura

Um escritor, desses que escreve primeiro com a cabeça, abriu a gaveta de sua escrivaninha para pegar uma folha de papel, um rascunho. Fez uma cara feia! Feia, talvez não. Arregalou os olhos, franziu as rugas da testa, e em um monólogo solitário, se expressou surpreso.


- Será quem colocou essas folhas de papel aqui?


- Quem colocou não importa. Importa é esse material fascinante, novinho e de que tanto preciso agora.


E sorriu de satisfação. O material seria o par confidencial de suas palavras ainda não escritas - código que se casa bem com qualquer papel em branco. Analisou uma por uma e concluiu.


- Puxa vida, folhas de papel em branco é comigo mesmo.


Viu que eram consistentes, diferentes cores, brancas, amarelas, verdes, azuis, pretas…


- Sei que muitos não dariam a menor importância. Todas limpas, vazias, nenhum sinal, um vocábulo sequer.


- Aí se engana, meu cara. E as cores?


- Branco pelo que conheço, simboliza paz. E quanta paz o mundo precisa. Dá um pulo na Ucrânia. Aquele povo está à mercê da sorte.


- Óh que tormento, meu Deus! É bomba, fogo, poeira, mortes, prédios tombados ao chão, dor, lágrimas…


- Correm os olhos na Palestina e pertinho de você, as favelas do Rio de Janeiro. Não é rio que corre água, corre sangue todo dia e todo dia, e nenhum é diferente. Os botões murcham sem direito a florescerem. Talvez seriam as árvores que mais sombra descem ao mundo, homens que acabariam com a violência. Não.


- Onde está a paz?


O verde, o amarelo, o azul lembram a bandeira brasileira - símbolo de respeito, grandeza e soberania do país.


- Preto, eu que penso assim. Solidão, tristeza, luto, sentimento inevitável nas almas, sem exceção. É quando uma parte da gente vai primeiro.


Nisso, a babá passa empurrando o carrinho com um bebê dentro. A criança, uns quatro meses de vida, está saudável, feliz, sorrindo, olha o escritor - ele vê duas uvas verdes brilhando e que o fazem parar, pensar intensamente.


- Joãozinho é uma folha de papel em branco. Pode ser branca ou preta.


Pegou as ditas folhas, uma em cada mão, e as comparou. Eram iguais.  


Recordou de uma frase que as pessoas dizem por aí. Frase equivocada.


"Criança é o futuro da nação"


- Futuro nada! Joãozinho está em branco. Frágil, inocente, leve que voa com qualquer vento. Apenas é uma criança bela, vazia, à espera de ser preenchida de amor, nutrientes para o corpo crescer forte, educação de qualidade, serenidade para a mente tranquilizar, empatia porque vai conviver com gente. Quem faz o futuro somos nós,  homens e mulheres feitos, preenchendo essa folha branca ou preta conforme suas necessidades.


E pegou uma das folhas em branco e escreveu nela um lindo poema de amor. A poesia reinava ali no vácuo. 










Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação*
bottom of page