FOLHAS DE PAPEL EM BRANCO


Um escritor, desses que escreve primeiro com a cabeça, abriu a gaveta de sua escrivaninha para pegar uma folha de papel, um rascunho. Fez uma cara feia! Feia, talvez não. Arregalou os olhos, franziu as rugas da testa, e em um monólogo solitário, se expressou surpreso.
- Será quem colocou essas folhas de papel aqui?
- Quem colocou não importa. Importa é esse material fascinante, novinho e de que tanto preciso agora.
E sorriu de satisfação. O material seria o par confidencial de suas palavras ainda não escritas - código que se casa bem com qualquer papel em branco. Analisou uma por uma e concluiu.
- Puxa vida, folhas de papel em branco é comigo mesmo.
Viu que eram consistentes, diferentes cores, brancas, amarelas, verdes, azuis, pretas…
- Sei que muitos não dariam a menor importância. Todas limpas, vazias, nenhum sinal, um vocábulo sequer.
- Aí se engana, meu cara. E as cores?
- Branco pelo que conheço, simboliza paz. E quanta paz o mundo precisa. Dá um pulo na Ucrânia. Aquele povo está à mercê da sorte.
- Óh que tormento, meu Deus! É bomba, fogo, poeira, mortes, prédios tombados ao chão, dor, lágrimas…
- Correm os olhos na Palestina e pertinho de você, as favelas do Rio de Janeiro. Não é rio que corre água, corre sangue todo dia e todo dia, e nenhum é diferente. Os botões murcham sem direito a florescerem. Talvez seriam as árvores que mais sombra descem ao mundo, homens que acabariam com a violência. Não.
- Onde está a paz?
O verde, o amarelo, o azul lembram a bandeira brasileira - símbolo de respeito, grandeza e soberania do país.
- Preto, eu que penso assim. Solidão, tristeza, luto, sentimento inevitável nas almas, sem exceção. É quando uma parte da gente vai primeiro.
Nisso, a babá passa empurrando o carrinho com um bebê dentro. A criança, uns quatro meses de vida, está saudável, feliz, sorrindo, olha o escritor - ele vê duas uvas verdes brilhando e que o fazem parar, pensar intensamente.
- Joãozinho é uma folha de papel em branco. Pode ser branca ou preta.
Pegou as ditas folhas, uma em cada mão, e as comparou. Eram iguais.
Recordou de uma frase que as pessoas dizem por aí. Frase equivocada.
"Criança é o futuro da nação"
- Futuro nada! Joãozinho está em branco. Frágil, inocente, leve que voa com qualquer vento. Apenas é uma criança bela, vazia, à espera de ser preenchida de amor, nutrientes para o corpo crescer forte, educação de qualidade, serenidade para a mente tranquilizar, empatia porque vai conviver com gente. Quem faz o futuro somos nós, homens e mulheres feitos, preenchendo essa folha branca ou preta conforme suas necessidades.
E pegou uma das folhas em branco e escreveu nela um lindo poema de amor. A poesia reinava ali no vácuo.



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