MANEIRAS DE AMAR: COMO OS TIPOS DE APEGO GERADOS NA INFÂNCIA IMPACTAM OS RELACIONAMENTOS ADULTOS
- MICHELLE MKO

- há 2 horas
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No mês passado, tratei sobre as linguagens do amor. Este mês vou dar prosseguimento à temática relacional sob outra perspectiva: a dos tipos de apego. Para isso, vou me basear na recente leitura, ou melhor, escuta, do livro Maneiras de amar, escrito por Amir Levine e Rachel Heller. A obra trata sobre a forma como lidamos com o amor e traz pistas de como tratamos o medo, a proximidade, a intimidade e a dependência, entre outros comportamentos. Vou expandir minha discussão com base em outras fontes também, para tentar compartilhar com vocês conhecimentos que considero fundamentais para a compreensão sobre a maneira como nos relacionamos social e amorosamente.
Por Michelle MKO
Sempre fui muito curiosa em entender como se processam as emoções e como se consolidam as relações, sejam elas românticas, ou não. Já tinha acessado diversos conteúdos virtuais que abordam sobre a teoria científica dos tipos de apego, mas tive a oportunidade recentemente de conhecer o livro Maneiras de Amar de Amir Levine e Rachel Heller e fiquei impressionada com como fez sentido para mim o que foi abordado nele. Vou tentar, neste meu texto, trazer alguns conceitos basais da teoria para, a partir deles, tecer meus comentários sobre a obra e sobre minhas impressões de como os tipos de apego se apresentam na minha vida e na dos meus relacionamentos.
A teoria do apego, criada por John Bowlby nos anos 1950, foi expandida por Mary Ainsworth entre os anos 1960 e 1978. A teoria tenta explicar como as pessoas se comportam nas relações partindo de análises de vínculos iniciais entre bebês e seus cuidadores e como tais vínculos moldam a segurança emocional nos relacionamentos. Inicialmente, foram identificados três tipos de apego: o apego seguro, o apego ansioso e o apego evitativo. Ao longo dos anos a teoria foi ainda mais explorada e se constatou um quarto tipo, o apego desorganizado.
O apego seguro tem sua origem na consistência emocional entre cuidadores e bebês, criando um vínculo amoroso com ampla disponibilidade emocional e que, na vida adulta, se observa na facilidade que uma pessoa tem para confiar no outro, na lida mais equilibrada das emoções diante de conflitos e separações, por exemplo. Na prática, quem tem esse tipo de apego tende a ter relacionamentos mais equilibrados com uma boa administração das emoções e sabe separar o que é seu do que é do outro. De acordo com levantamentos de diversos estudos, como o de Hazan e Shaver (1987) e revisado desde então por muitos outros pares, sem alterações significativas nas estatísticas, cerca de 56% da população tem esse tipo de apego.
O apego ansioso surge a partir da inconsistência de atenção dos pais com seus filhos e, nos adultos, esse tipo de apego pode ser observado no medo constante que uma pessoa tem de sofrer rejeição ou abandono. Dessa forma há uma busca de validação excessiva do outro, seja nas relações sociais, seja no relacionamento romântico. Esses temores levam a uma dificuldade maior de quem tem esse tipo de apego lidar com conflitos e expressar suas emoções. Outro comportamento observado é de esse adulto se sentir mais influenciado pelo estado emocional do parceiro. Os estudos de Mickelson et al (1997) levantaram que há cerca de 11% da população com esse tipo de apego e os de Hazan e Shaver (1987) encontraram aproximadamente 20% dos observados nesse espectro de apego ansioso.
O apego evitativo é resultado de uma relação mais fria ou rejeitante dos cuidadores, o que leva a uma necessidade muito precoce de a criança se tornar autossuficiente. Na vida adulta isso pode ser observado na imensa valorização da independência, na dificuldade em se mostrar vulnerável e com forte tendência a se afastar quando há possibilidade de mais intimidade. Um adulto com esse tipo de apego tende a se sentir desconfortável com a proximidade emocional e criar barreiras e distanciamentos em seus relacionamentos quando percebe que o afeto está crescendo e isso costuma a levar a um profundo sofrimento, sobretudo se quem se relaciona com ele for do tipo de apego ansioso. Na população adulta os estudos de Mickelson et al (1997) identificaram 25% de pessoas com o tipo de apego evitativo.
O apego desorganizado é resultado de um ambiente confuso no qual o cuidador é instável emocionalmente e tende a criar uma instabilidade emocional na criança que nunca sabe o que esperar desse adulto, gerando um clima de medo e confusão. Se o cuidador um dia trata bem, no outro trata mal, se demonstra afeto em um momento e no outro demonstra frieza ou maltrato, essa oscilação gera uma sensação de insegurança na criança que nunca sabe como será tratada. Na vida adulta, quem tem esse tipo de apego acaba exibindo comportamentos contraditórios, alternando entre a busca por proximidade com episódios de afastamentos repentinos. É como se a pessoa tivesse ao mesmo tempo desejo e medo de proximidade com o outro. É um tipo menos comum de apego, embora ele tenha sido inserido nessa teoria muito tempo depois e os estudos que mensuraram os outros tipos de apego ainda não o levassem em conta. Segundo Bajermans-Kranenburg & Van Ijsendoorn (2009) em populações não clínicas essa porcentagem beira os 5%, mas em populações clínicas essa porcentagem é significativamente maior.
Existem inúmeros testes na internet que ajudam a identificar com qual tipo de apego nós nos identificamos e no livro Maneiras de Amar de Amir Levine e Rachel Heller temos a oportunidade de responder a questionários que nos ajudam a entender o nosso tipo de apego e até dos nossos parceiros. Na obra, os autores não abordam o tipo de apego desorganizado, mas explicam com muita clareza os outros três tipos e trazem exemplos de situações sociais em que esses apegos se manifestam, seja no trabalho ou no relacionamento amoroso. É muito interessante observar que comportamentos que muitas vezes julgávamos como sendo da nossa personalidade são frutos dos tipos de apego que temos. É interessante, também, porque os autores trazem análises de como se dá o relacionamento entre quem tem apego ansioso com o evitativo, ou do seguro com o ansioso ou com o evitativo, e traz dicas muito interessantes de como podemos nos compreender a partir dessa teoria, compreender nossos parceiros e como podemos melhorar nossa dinâmica relacional a partir dessa compreensão e de mudanças de comportamentos pontuais.
Eles citam, por exemplo, que é muito comum pessoas do estilo de apego ansioso e do apego evitativo se atraírem, o que pode levar a um ciclo tóxico de perseguição e afastamento em que um, inevitavelmente, acaba drenando o emocional do outro. Outro ponto que considerei muito relevante no livro é que os autores desconstroem o mito de que uma pessoa independente não precisa de ninguém. Eles reforçam que o apego é uma necessidade biológica básica e que ter um parceiro contribui para regular as emoções e reduzir o estresse.
Toda essa análise me fez repensar muito nos meus comportamentos e nas minhas dinâmicas relacionais. Inicialmente, eu me percebia no espectro de apego ansioso com forte tendência a buscar nos meus afetos, pessoas evitativas. Hoje, compreendendo melhor os tipos de apego, me percebo com comportamentos mais condizentes com o apego desorganizado, o que faz muito sentido levando em consideração o contexto no qual eu fui criada.
É importante observar que, ao reconhecer a disfuncionalidade na minha criação, não estou invalidando os esforços que meus pais tiveram na minha criação, até porque, eles não poderiam me oferecer algo diferente do que me ofereceram, por pura ignorância mesmo, e até por disfuncionalidades geracionais que acabaram se manifestando na criação que ofereceram aos filhos.
Tanto meu pai quanto minha mãe tinham depressão, hoje não tenho dúvida disso. Meu pai sequer foi diagnosticado e minha mãe foi, mas mais no fim da vida. Junta-se a isso, um contexto de muita pobreza e com alterações de humor dos pais, fosse por questões psicológicas, fosse pelo uso do álcool - meu pai bebia. Não saber como eles estariam emocionalmente me levou a um quadro de profunda tensão e hipervigilância, além de uma confusão de ora me sentir amada, ora me sentir reprimida e repreendida. Sensações de abandono e rejeição muito presentes, mesmo na minha vida adulta, me levaram a pensar que eu era do tipo de apego ansioso, mas entendendo melhor o apego desorganizado, me identifiquei porque em diversos momentos eu tenho tendência a me afastar, mesmo querendo ficar perto, porque acho que estou incomodando.
É como se o afeto fosse algo no qual eu não possa confiar totalmente e eu fico esperando o pior a qualquer momento. E quando sinto que há tranquilidade na relação, há afeto genuíno, isso não me parece crível, fico insegura achando que isso não é possível. A boa notícia é que, ao entender toda essa dinâmica e entender os tipos de apego, tenho elementos que hoje podem me levar a não somente me compreender mais, como compreender mais a quem se relaciona comigo, também. E mesmo que o tipo de apego seja construído ali na nossa primeira infância, o processo de autoconhecimento e o investimento real no autoaperfeiçoamento pode me levar a tratar dessas dores emocionais e a investir em relacionamentos saudáveis, inclusive e principalmente comigo mesma.
Achei maravilhoso entender mais essas questões e estou esperançosa de que eu consiga minimizar os danos do apego e possa consolidar em mim características de um apego seguro. Por exemplo, antes eu não expressava muito meus limites e desejos por medo de repreensão ou de perder a pessoa. Hoje tenho - com esforço - me posicionado mais, sem temer o abandono, por entender que antes estar sozinha do que estar em um relacionamento no qual eu não possa ser eu mesma.
Há desafios nisso? Claro que há! É realmente um esforço organizar minhas emoções e ideias para trazê-las nas conversas necessárias aos ajustes relacionais. Mas sigo me dedicando a isso e, principalmente a ser para mim mesma o apego seguro que sempre desejei para mim.
Referências
Attachment Style Statistics in 2026: Distribution, Impact, and Research. Disponível em:
Amir Levine e Rachel Heller. Maneiras de amar: Como a ciência do apego adulto pode ajudar você a encontrar – e manter – o amor. Editora Sextante, 2021.



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